Opinião

O tempo e o vento

''Não é por acaso que o presidente Bolsonaro, com máscara ou sem ela, apareça no sertão nordestino, andando de jegue, abraçando crianças e fazendo reverências ao povo. Ele já está em campanha. Seu olho está postado em 2022. Ele não pode viver no presente. Carrega o peso dos cem mil mortos vitimados pela ação do coronavírus. E milhões de desempregados''

André Gustavo Stumpf*
postado em 04/08/2020 04:15
''Não é por acaso que o presidente Bolsonaro, com máscara ou sem ela, apareça no sertão nordestino, andando de jegue, abraçando crianças e fazendo reverências ao povo. Ele já está em campanha. Seu olho está postado em 2022. Ele não pode viver no presente. Carrega o peso dos cem mil mortos vitimados pela ação do coronavírus. E milhões de desempregados''Algo está errado no reino dos Bolsonaros. O governo avisa por intermédio de interlocutores na área econômica que vem por aí uma reforma tributária profunda, abrangente e justa. Não há por que duvidar, apesar de anúncio semelhante já ter sido feito diversas vezes, ainda não ocorreu nada parecido com uma reforma profunda. Ou seja, até agora nenhuma proposta. Mas acreditar é preciso. Recentemente, apareceu no cenário apenas mais uma controversa proposta de unificação dos impostos PIS e Confins.

A pandemia talvez tenha impedido os políticos de perceber a velocidade com que os dias avançam no calendário. Estamos na primeira semana de agosto. O tempo passou muito rapidamente neste 2020. Os políticos reduziram ao mínimo os contatos diretos. Eles se falam através dos modernos meios de comunicação digital. Deputados e senadores se reúnem por intermédio de serviços de streaming que são muito eficientes, mas não conseguem reduzir a distância entre os personagens. Cada um no seu pedaço.

O papo no cafezinho acabou. O conchavo na entrada do plenário virou história. Tudo agora é distante, limpo, higienizado e formal. Não há mais brigas, discussões ferozes, nem apartes furiosos no plenário. O futuro imediato é a eleição de novembro próximo. Mais de 5.500 municípios vão escolher prefeitos e vereadores. Trata-se do primeiro passo na direção de organizar os palanques na campanha para a Presidência da República, governos estaduais e o Senado Federal. O processo de sucessão do presidente começa agora. A campanha no rádio e na televisão se inicia no dia 26 de setembro.

Não é por acaso que o presidente Bolsonaro, com máscara ou sem ela, apareça no sertão nordestino, andando de jegue, abraçando crianças e fazendo reverências ao povo. Ele já está em campanha. Seu olho está postado em 2022. Ele não pode viver no presente. Carrega o peso dos cem mil mortos vitimados pela ação do coronavírus. E milhões de desempregados. Além disso, a política econômica não consegue apresentar projeto consistente de rápida recuperação. O momento é de desalento. Ninguém sabe quando a pandemia vai terminar.

Mas a sucessão presidencial já aparece no horizonte. A proposta de estabelecer quarentena de oito anos para alguém que tenha pertencido ao Judiciário possa disputar cargo eletivo é a tentativa de tirar o ex-ministro Sergio Moro da disputa. Aparece no Ministério da Justiça ação destinada a fichar, catalogar e quem sabe investigar pessoas dentro do governo que eventualmente possam criar embaraços à atual administração. Coisa estranha, tratada com naturalidade. Uma espécie de polícia política. É a briga pelo poder cada vez mais escancarada.

O outro lado é a investigação sobre os grupos que disseminam notícias falsas, mentiras e boatos pelas redes sociais. O ministro Alexandre de Moraes tenta desmontar as plataformas digitais que geram e transmitem notícias falsas sobre fatos e pessoas. O processo revela a extensão, o poder e dinheiro envolvido na operação. Não é trabalho de amador.

Esse é o cenário imediato. No fundo da cena, aparecem as primeiras negociações em torno da eleição do próximo presidente da Câmara dos Deputados. O Centrão se desmanchou por essa razão. O deputado Arthur Lira (PP-AL) já tinha vestido o uniforme de porta-voz informal do governo dentro do Congresso. Pode ter queimado a largada. Rodrigo Maia está há muito tempo na presidência da Casa, tem tido protagonismo inquestionável na política nacional. Ele pretende colocar um representante seu na cadeira. Ele tem demonstrado que sabe jogar. Tem 39 pedidos de impeachment na gaveta e não se animou a colocar nenhum deles em pauta. Tudo tem hora.

O primeiro turno da eleição neste ano foi marcado para 15 de novembro. O segundo será no dia 29 de novembro. Entre as duas datas vai ocorrer aquele período de relativa calmaria política porque senadores e deputados estarão envolvidos nas eleições municipais. Nos poucos dias antes do recesso de fim de ano, terá de votar o Orçamento, medidas emergenciais nos estados e defender a economia. É muita ação para pouco tempo. Começar a discussão sobre a reforma tributária é importante. Mas não há consenso nem tempo para concluir esse debate em 2020.

Os números do descalabro produzido pela pandemia serão revelados nas vésperas da eleição municipal. O eleitor costuma votar com o bolso e o sentimento. O perfil do futuro presidente da República começa a ser construído agora. Ele precisa desse tempo para virar o vento a seu favor.


* Jornalista

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