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Correio Braziliense

Parceria público-privada no Distrito Federal reduz em 35% o número de óbitos no trânsito

Com levantamento de dados e projetos de impacto em engenharia, parceria coloca a capital federal entre as cinco cidades que mais diminuem acidentes fatais


postado em 27/11/2018 12:11 / atualizado em 27/11/2018 16:58


 
A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial de Saúde (OMS) estabeleceram um pacto pela segurança viária mundial, por meio do qual governos de todo o planeta foram convocados a tomar novas medidas para, por meio de choque de gestão, uso de novas tecnologias e planos de engenharia de tráfego, aplacar os índices de acidentes e mortes no trânsito. Não é para menos. Diariamente, 3,4 mil pessoas perdem a vida nas ruas e estradas de todo o mundo, segundo dados da OMS. Em 2000, essa era a 10ª causa de óbitos pelo mundo e, 18 anos depois, saltou para a 8ª colocação. 

A proposta das duas organizações é reduzir pela metade esses números no intervalo de 10 anos, contados a partir de maio de 2011, quando o Década de Ação pela Segurança no Trânsito foi proposta. De lá para cá, o Brasil avançou, mas ainda está longe de bater a meta, que é de 19 mil acidentes fatais por ano. 

Parceria público-privada

Nos últimos anos, os acidentes fatais vêm concentrando-se em 13 estados brasileiros. O Distrito Federal não está entre eles. Em números absolutos, é verdade, foram 469 mortes em 2015 em Brasília, o que coloca a capital federal na 5ª colocação entre as capitais com mais óbitos no trânsito. Porém, houve uma redução de 83 fatalidades em relação ao ano anterior, o que equivale a 15% a menos de mortes e põe o DF como o 5º colocado no ranking de diminuição dos números de mortes. 

Os dados apresentados são da quarta edição do Retrato da Segurança Viária no Brasil, elaborado pela Ambev, empresa nacional de bebidas, e a Falconi Consultoria. O objetivo do trabalho, iniciado em 2014, é levantar dados e usá-los em novas metodologias de soluções para o trânsito. Tomando forma a partir de parcerias público-privadas (PPP), as ações foram aplicadas, a princípio, em 15 municípios do estado de São Paulo, com resultados positivos: ao final de 12 meses, houve redução de 6% dos acidentes com óbito no estado e de 11% nas cidades em questão. Ainda é apenas o começo, mas resultados expressivos já têm sido alcançados. 

Agora, as parcerias proporcionam desdobramentos para outras áreas do país, incluindo o Distrito Federal, com o projeto Brasília Vida Segura. “No DF, o trabalho proposto é um esforço coletivo de várias ações. Começa com campanhas de conscientização do Departamento de Trânsito do DF (Detran/DF), mas se expande, especialmente, em ações de engenharia de mudança de tráfego, desde sinalização, modernização dos sistemas, religamento de semáforos, poda de árvores que estavam atrapalhando, etc. São atitudes ‘simples’, a princípio, mas tudo contribui para a diminuição dos danos”, afirma Disraelli Galvão, diretor de relações institucionais e um dos responsáveis pelo projeto. 

“A Falconi atua com o aporte de gestão nos governos e organizações para apoiá-los na melhoria dos resultados. Neste contexto, a parceria visa implantar o método de gestão nos órgãos de segurança viária, a fim de reverter esse quadro”, diz Álvaro Guzella de Freitas, diretor executivo da Falconi.



Ações de engenharia

O trabalho ocorre desde 2016, em parceria com a Secretaria de Mobilidade Urbana (Semob) do Governo do Distrito Federal (GDF) e participação de outros órgãos. O fluxo de atividades começou no mapeamento de informações, análise e elaboração de planos de ação de grupos de trabalho. “Em segurança viária, trabalhamos com o governo distrital para a coleta de dados, análise desses dados e consequentes ações. O Detran atualiza mensalmente os números de acidentes mensalmente, mapeando onde eles são mais recorrentes e trabalhando nestas regiões”, diz a gerente.

O Detran/DF registrou 42 acidentes fatais em vias urbanas neste ano. Ceilândia lidera o ranking de acidentes, seguida por Plano Piloto e Taguatinga. Não por acaso, foram essas as três primeiras áreas nas quais os trabalhos foram concentrados. “Combinado à maturidade na coleta de dados já existente no DF e à estrutura de governo, houve rápido alinhamento de metas com os órgãos e as regiões e perfis críticos foram identificados.”

“Digamos que haja uma avenida específica do DF na qual há mais mortes”, explica Disraelli Galvão. “As equipes dos orgãos de fiscalização vão a essas vias para entender o que está ocasionando tantos acidentes. Verificam se falta sinalização, se há buracos, falta de pintura e se os arredores das vias demonstram algum tipo de perigo ao pedestre. Em alguns casos, mais complexos, há potencial de mudanças da ‘mão da via’, por exemplo. Além disso, são enviadas equipes de orientação e fiscalização, para que os motoristas possam assimilar as mudanças e obedecê-las.”

“As ações de engenharia constituem um dos pilares de sustentação do modelo que buscamos implantar”, reforça Guzella. “A parte inicial do aporte de gestão é estruturar os dados e identificar onde os acidentes com vítimas ocorrem com maior frequência (isso pode ser representado graficamente por meio de um ‘mapa de calor’). Uma vez identificados esses locais, são realizadas visitas com os especialistas de engenharia e fiscalização para levantamento das ações. Geralmente, são iniciativas integradas de engenharia, combinadas com fiscalização, educação e comunicação que vão trazer o resultado.”

Os resultados não alcançam, ainda, o ideal, mas são palpáveis desde já. Os índices de acidentes baixaram sensivelmente de 2016 para cá, com a redução em 35% dos acidentes fatais no DF. O percentual é maior do que a média geral do Brasil, que apresentou redução de 27,4%, segundo levantamento do Ministério da Saúde. “O GDF abraçou esse projeto, que é muito nobre e envolve, acima de tudo, a otimização dos recursos. O governo local não aumentou orçamento, apenas alocou os recursos de maneira mais otimizada”, esclarece Disraelli.

 

Busca por atualização


Contudo, David Duarte Lima acredita que ainda há muito a ser melhorado, no Brasil e em Brasília, em termos de impactos das ações de engenharia na prevenção de acidentes. O panorama posto pelo especialista em segurança no trânsito da Universidade de Brasília (UnB) e fundador da OnG Rodas da Paz é de desatualização e anacronismo. “Na verdade, em termos gerais, nós ficamos parados no tempo. Há uma série de tecnologias que nós não empregamos, em diversos níveis”, afirma.

“Hoje, você tem disponível técnicas para drenagem das pistas muito eficientes, essenciais na redução de acidentes, especialmente em situações de chuva. Em sinalização, há muita tecnologia que, praticamente, não é empregada no Brasil. Em autoestradas, há tecnologias para orientar carros de volta para pista quando saem dela”, exemplifica David.
 

 
“Além disso, temos tecnologia melhores para controle de semáforos, com as quais podemos evitar congestionamento e melhorar a fluidez, o que significa melhorar o trajeto de cada um. Hoje, em pistas que admitem uma velocidade um pouco maior, os postes podem ser flexíveis”, exemplifica.

Segundo David Duarte, há um conjunto de técnicas, chamado de traffic calming, cuja eficácia está em planejar “ruas que perdoem os erros humanos”. O conceito envolve medidas como deslocamento de eixo das vias, bloqueio parcial de cruzamentos, criação de ondulações, ilhas centrais, rotatórias e pavimentos diferenciados. “Isso quase não é empregado no Brasil. Esse tipo de desenho urbano reduz muitos pontos de conflitos, adequando a velocidade em áreas com pedestres”, diz o especialista, que enxerga no sistema viário nacional a presença de “carros do século 21 para vias dos anos 1950”.

Disraelli Galvão reconhece que ainda há muito a ser feito e os próximos passos tornam-se mais complexos para o futuro próximo. “Falta muito o que melhorar. O trabalho no Distrito Federal fica mais difícil daqui para frente, porque as medidas mais simples já foram tomadas. Conseguimos diminuir sensivelmente o número de acidentes, deixando Brasília mais próxima da meta de segurança viária estabelecida pela ONU. As melhorias, pelo vemos nos outros estados, não são ainda suficientes para que o Brasil como um todo alcance a meta. Apenas países muito desenvolvidos conseguiriam.”

Os perfis críticos, que no DF são os pedestres (38% dos óbitos e 13% dos feridos) e os motociclistas (42% dos feridos), devem ser prioridade. “Para esses casos, são direcionadas não só ações de engenharia, que impactam todos os perfis, como também comunicação e educação para pedestres, e direcionamento da fiscalização para motociclistas”, diz Álvaro. “Entendemos que ainda há outras oportunidades que precisam ser exploradas. É preciso uma melhoria na coleta e cruzamento de dados, de forma que novos modelos permitam identificar o potencial de ocorrência de um acidente antes mesmo que ele ocorra. Acreditamos que esse seja o próximo passo a ser tomado na melhoria da segurança viária.”

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