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Correio Braziliense

Como é feita a segurança no trânsito?

Trabalho em equipe, tecnologia e criatividade são a fórmula para a elaboração de soluções simples e efetivas para o combate a mortes e acidentes.


postado em 14/12/2018 16:30

Tesourinhas: sistemas de escoamento do trânsito na capital do país é eficiente e desponta como um dos principais cartões-postais da cidade(foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)
Tesourinhas: sistemas de escoamento do trânsito na capital do país é eficiente e desponta como um dos principais cartões-postais da cidade (foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)

A grande maioria das pessoas entende que um trânsito bom é um trânsito fluido, sem engarrafamentos, que permite a chegada rápida ao destino. Entretanto, não é bem assim, porque, dessa forma, não são avaliados a que riscos todos são expostos no caminho. As autoridades de trânsito entendem que a qualidade, na verdade, é esse casamento entre fluidez e segurança, que garante a eficiência das vias. E para manter o equilíbrio entre esses dois fatores foi instituído o Programa Brasília Vida Segura no Distrito Federal, parceria envolvendo o governo do DF, organizações da sociedade civil e a iniciativa privada. São necessárias três frentes de trabalho integrado entre os órgãos atuantes nas vias: engenharia, fiscalização e educação, e todas as três amparadas pelo serviço de inteligência e análise de dados. Essa é a base essencial para o sucesso do trânsito ao redor do mundo inteiro. 

Faixa de pedestre: em Brasília, quem opta por andar a pé tem prioridade e é respeitado(foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)
Faixa de pedestre: em Brasília, quem opta por andar a pé tem prioridade e é respeitado (foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)

Engenharia

A engenharia de tráfego existe para garantir o bom funcionamento das vias e resolver problemas logísticos. Os agentes de trânsito realizam um monitoramento constante, identificando pontos de fluxo intenso ou com um elevado número de acidentes. “Nós temos uma aeronave que identifica os pontos críticos, temos patrulhamento, recebemos informações da própria população, por meio dos Conselhos Comunitários de Segurança, todos os equipamentos de fiscalização de velocidade também identificam retenções e temos uma gerência estatística de acidentes”, explica o diretor-geral do Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF), Silvain Fonseca. Essas demandas são encaminhadas para uma equipe de engenheiros e arquitetos, que vão ao local estudar as causas do problema.

Em seguida, é elaborado um projeto e encaminhado para as unidades responsáveis. “É uma ação integrada de governo. Ninguém faz nada sozinho”, diz Silvain. Enquanto o Detran é responsável pela sinalização horizontal e vertical, projetos de circulação e estacionamento, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) se encarrega das rodovias estaduais e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) das rodovias federais. “A nossa grande preocupação é o combate à velocidade e ao alcoolismo, as duas principais causas de acidente em rodovias”, afirma o superintendente de trânsito do DER, Carlos Spies. Para atingir esse objetivo, a comunicação entre os agentes é um ponto crucial do serviço. “Temos reuniões quinzenais para alinhar os trabalhos, auxiliar na correção de pontos de maior quantidade de acidentes e debater estratégias”, afirma o superintendente.

Devido à importância da comunicação entre os diversos agentes, a cada dois meses, é realizada uma reunião da Associação Nacional dos Detrans, e foi criada uma câmara temática de engenharia para debater soluções e compartilhar conhecimento técnico. A diretora de engenharia de trânsito do Detran-DF, Daniele Valentini, afirma que “os principais avanços têm sido na área de tecnologia, visando a otimização de equipamentos e materiais, como semáforos que identificam o fluxo e se adaptam a ele, tecnologias de fiscalização mais eficientes e até materiais mais resistentes e sustentáveis”. Há também a preocupação em deixar as cidades mais humanas, focando em transportes coletivos, calçadas e estudos para a redução de velocidade. No entanto, a grande dificuldade é conseguir a colaboração da sociedade: “O principal desafio da engenharia do Detran é fazer com que o condutor entenda e respeite as regras comunicadas por meio da sinalização”, declara Daniele.

Eixo Monumental: os equipamentos de fiscalização de velocidade identificam retenções na via(foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)
Eixo Monumental: os equipamentos de fiscalização de velocidade identificam retenções na via (foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)

Educação

Enquanto a engenharia soluciona problemas práticos e pontuais, a educação foca no desenvolvimento cultural da sociedade, com projetos focados no curto, médio e longo prazos. “Nosso objetivo final é uma sociedade mais educada e informada sobre segurança viária. Além disso, buscamos estimular as pessoas a tomarem decisões seguras e sustentáveis no trânsito, comunicando mensagens chave de segurança de trânsito”, afirma.

Segundo Tiago Moreira, gerente de Ações Educativas de Trânsito do Detran-DF, a sociedade mudou e a educação tradicional não desperta tanto interesse na população em geral. Por isso, é necessário recorrer a novas formas de educação e à comunicação, explorando tecnologias interativas, imersivas e de simulação. Assim, é possível ampliar a participação dos jovens nas atividades de educação do Detran-DF.

Pensando no médio e longo prazo, o Detran está implementando o Programa Detran nas Escolas, de modo que os professores da rede desenvolvam atividades de educação de trânsito nas escolas. Mais de 2mil professores foram capacitados e ,em breve, o material de apoio será distribuído nas escolas. Foi também desenvolvida uma campanha permanente de respeito ao ciclista, “Ultrapasse, não passe”, demonstrando aos condutores a distância mínima que devem manter das bicicletas. Em 18 meses de campanha, foram mais de 5.400km pedalados, impactando diretamente mais de 80 mil motoristas.

Fiscalização: o monitoramento de pistas e rodovias tem forte impacto na redução de acidentes(foto: Marcelo Ferreira/CB/ D.A. Press)
Fiscalização: o monitoramento de pistas e rodovias tem forte impacto na redução de acidentes (foto: Marcelo Ferreira/CB/ D.A. Press)

“Nós estamos tirando o foco do motorista, dando ênfase a quem é mais vulnerável. A bicicleta é nova na história brasileira. Somente nos últimos 10 anos, ela começou a ser considerada como veículo e também começaram a perceber que o pedestre tem seu direito de atravessar com segurança”, explica o diretor de educação no trânsito do Detran-DF, Álvaro Ribeiro. Ele acredita que isso é resultado de uma mudança cultural, atingido a partir de muita pesquisa, análise de dados e observação de exemplos positivos ao redor do mundo, mas principalmente, da integração dos agentes. “Em 2015, alcançamos 120 mil pessoas com campanhas educativas. Já neste ano, com as relações que estabelecemos com a sociedade civil, empresariado e outros órgãos públicos, atingimos mais de 1 milhão”, ressalta o diretor.

Paralelo às iniciativas do Detran-DF, temos outras instituições parceiras desenvolvendo excelentes trabalhos, como o teatro rodovia, da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que faz apresentações dramatúrgicas para crianças e, a partir do ano que vem, também para adolescentes entenderem qual é a responsabilidade de cada um no trânsito, e a Transitolândia do DER, um espaço interativo de educação no trânsito. “Pela primeira vez, estamos fazendo uma avaliação de impacto e custo benefício de nossas atividades com um parceiro da Unesco, para entender o que de fato traz resultado e vale a pena continuar fazendo. Até o fim do ano, teremos um resultado”, acrescenta Álvaro.

 

Tiago Moreira ressalta que "nossos números estão melhorando; então, ficará cada vez mais difícil diminuir ainda mais as cerca de 250 mortes anuais. Esse é um desafio enorme, e precisaremos inovar”. Pensando nisso, Tiago deixa uma nova e promissora proposta para a cidade: o Conviva - Centro de Educação de Trânsito Educativo, “cuja missão é contribuir para a formação de uma nova geração de usuários de trânsito, um espaço de interação, experiências, simulações e resolução de problemas mediado por modernas tecnologias digitais e visuais”, completa.


Tecnologia: a modernização de equipamentos, como semáforos, é preocupação constante(foto: ED Alves/CB/ D.A. Press)
Tecnologia: a modernização de equipamentos, como semáforos, é preocupação constante (foto: ED Alves/CB/ D.A. Press)

Fiscalização

A terceira frente de segurança no trânsito é o que garante o cumprimento da lei e a punição daqueles que, com as próprias atitudes, prejudicam a segurança de toda a sociedade presente nas vias. “Temos 34 mil mortes ligadas à segurança viária ao ano, o que é muito quando comparamos, por exemplo, com os 59 mil homicídios que ocorrem no Brasil anualmente. E é por falta de atenção, uso indevido de álcool, falta de zelo com o veículo, coisas muito simples de resolver”, conta o coronel Souza Oliveira, comandante do Comando de Policiamento de Trânsito da PMDF. “Infelizmente, só a educação não resolve. Para termos uma mudança de comportamento imediata, é preciso fiscalização”, destaca. A polícia militar, além de fornecer apoio às operações do DER e Detran, é responsável direta por cerca de 70% das autuações por alcoolemia no DF.

Os trabalhos dos últimos anos foram direcionados para o combate à alcoolemia, que reduz a capacidade de raciocínio e reflexo; ao uso do celular, que retira a atenção do motorista e causa acidentes mais graves, pela ausência de tentativa de frenagem; e ao transporte pirata. “Eles impactam muito no trânsito pela irresponsabilidade com os passageiros e pela falta de cuidado com o veículo. Muitas vezes, a gente pega pneu careca e mais de 10 pessoas dentro de um veículo”, revela o Coronel.

Segundo ele, muita gente fala sobre indústria da multa, mas as pessoas só pagam quando cometem infrações. “O nosso foco é, e sempre foi, salvar vidas. Poderíamos focar em infrações de menor risco e aumentar o número de infrações, mas preferimos direcionar nossos esforços para as principais causas de acidente e, com isso, salvar vidas”, acrescenta Oliveira. A PM chegou a comprar lâmpadas para realizar a troca em motocicletas irregulares, para que, além de evitar acidentes causados pela má manutenção veicular, os motoboys não fossem obrigados a levar seus veículos para o depósito e ficassem sem trabalhar. “Fomos nós mesmos que compramos, ninguém financiou não, tudo que nós fazemos é para ajudar”, afirma.

Uma das principais dificuldades é atingir o condutor infrator que está sempre atento ao Waze e outras redes sociais. “No Rio de Janeiro, eles têm um programa ostensivo, com placas, postes, iluminação, barracas e indicações da lei seca. E nós percebemos que quem bebe com frequência está sempre muito atento a isso e não cai na blitz”, aponta o comandante. Em Brasília, a estratégia aderida foi realizar barreiras menores e que mudam de lugar ao serem identificadas nos aplicativos. E o resultado foi que, “com apenas um quarto da frota do estado do Rio, nós atingimos quase o mesmo número de autos durante o ano”, informa. 
Outro grande desafio a ser vencido é a demora dos processos administrativos: “Nós conseguimos reduzir em 35% o número de mortes entre 2016 e 2017, muito disso graças às ações de fiscalização voltadas ao álcool. Por conta do grande volume de infrações surgem novos desafios, como o elevado fluxo de processos administrativos. Precisamos arrumar uma forma de tornar isso mais rápido e até mudar algumas penalidades, porque a grande maioria dos moradores de Brasília têm condições de pagar uma multa, por mais cara que seja. Então, fica uma sensação de impunidade. Seria diferente se elas fossem obrigadas a passar um ano sem dirigir ou até mesmo fazer autoescola novamente”, conclui o coronel Souza Oliveira.

Ações: a engenharia de trânsito estuda e avalia regularmente as vias para identificar problemas(foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)
Ações: a engenharia de trânsito estuda e avalia regularmente as vias para identificar problemas (foto: Breno Fortes/CB/ D.A. Press)

Estatística

O DF é destaque quando se trata do uso de tecnologias, respeito à faixa de pedestres, lei seca e redução dos acidentes de trânsito. “É o maior índice de redução do país, desde que começamos o projeto de segurança”, afirma o diretor-geral do Detran. “A estatística do Detran nos envia a base de dados de vítimas para que façamos o georreferenciamento e análises, a fim de identificar os pontos de maior incidência de acidentes e os perfis mais críticos”, diz Solon Ferreira, consultor da Falconi. São realizadas, então, visitas a campo com os órgãos para identificar os fatores de risco de cada acidente, permitindo melhor direcionamento de esforços e maior efetividade no combate às mortes no trânsito.

Karina Alves, gerente de estatística de trânsito do Detran, explica que a gerência vem trabalhando e aprimorando a atual metodologia desde 1995, tendo alcançado um modelo que é referência nacional na coleta e tratamento de dados. Além disso, Karina afirma que só é possível determinar com tanta precisão o que está acontecendo, porque a base de dados é muito completa. “Nós temos parceria com a Polícia Civil, a Secretaria de Segurança Pública, a Secretaria de Saúde, o IML, a Polícia Militar, os Bombeiros, o DER e os Boletins de Registro de Acidentes de Trânsito, desenvolvido pelo Detran e preenchido pelos agentes de trânsito. Essas parcerias foram estabelecidas por meio da confiança conquistada no decorrer de muitos anos de trabalho em conjunto”, conta. O principal desafio do setor é conseguir atualizar o sistema, para que seja capaz de processar e analisar os dados em um tempo reduzido e, assim, aumentar a eficiência das demais equipes.

O sucesso do projeto em Brasília e da versão similar aplicada em São Paulo (Movimento Paulista de Segurança no Trânsito) incentivou a criação de um Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans), que está em fase inicial de execução.



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