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Correio Braziliense

Chega de quedas entre os idosos!

Conheça o novo circuito de prevenção e equilíbrio que está sendo desenvolvido no Sesc, em parceria com a UnB

Apresentado por

Sesc DF

postado em 07/11/2018 14:45 / atualizado em 07/11/2018 16:35

A terceira idade está cada vez mais presente socialmente: hoje ela representa 15% da população do planeta e, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os em 2025, pela primeira vez na história, terão mais idosos do que crianças no planeta. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 28 milhões de idosos em 2016 e, em 10 anos, a previsão é de que esse número chegará a 38,5 milhões. Mas a geração de idosos do século 21 não está ativa apenas em números, eles estão mostrando que envelhecer não significa entrar no estereótipo da velhice e buscam viver uma espécie de segunda adolescência. Possuem consciência corporal, cuidam da saúde, se alimentam bem, vão ao médico regularmente, fazem exames preventivos e praticam esportes. O mais importante dessa etapa da vida passou a ser a vivência de novas experiências e oportunidades, viajar, cantar, produzir festas, socializar, fazer novas amizades, buscar novos amores, abrir novos negócios e explorar novas áreas do conhecimento.
 
Nivaldete Tereza de Carvalho, 71 anos, é a mais velha de 14 irmãos e passou a sua infância inteira ajudando com as responsabilidades da casa. Casou aos 18 e foi morar com a sogra, porque o marido era desempregado. Em seguida teve os filhos, e agora? “Agora é a melhor fase da minha vida. É o tempo que eu tenho para mim”, conta. “Lá em casa eu costumo dizer que já perdi muito tempo cuidando da casa, de filho e do marido. Esse restinho de tempo que me sobra eu quero aproveitar para mim. Se surgir a oportunidade de um passeio ou de aprender uma coisa nova, eu quero fazer”, completa sua amiga, Maria do Livramento, 67 anos. Se aposentar virou sinônimo de ter uma segunda chance para aproveitar a vida e realizar sonhos, porém, é preciso tomar certas precauções e aprender a lidar com a fragilidade do corpo. Quedas, por exemplo, são a quinta maior causa de morte entre pessoas com mais de 60 anos e pessoas entre 65 e 74 anos caem pelo menos uma vez ao ano. 
 
“A cada 10, três vão cair. E quando falo de outras décadas, acima de 80 anos, esse número sobe para 50%. É um problema de saúde pública, caríssimo tanto para a família quanto para o SUS, que é utilizado por 75% dos idosos do país”, conta a Assessora da Coordenação de Esporte e Lazer do Serviço Social do Comércio (Sesc/Codel) Juliana Nunes, “eles querem sair, fazer, acontecer, e quanto mais disposição, associada com doenças crônicas dissociadas, maior o risco de quedas”, completa. Segundo a especialista, quedas são multifatoriais, ou seja, pode ser causada por diversos motivos, e, dependendo da gravidade, pode deprimir o idoso, causar medo e desestimular suas atividades. “Eu tinha medo de tudo, jamais sairia da minha casa sozinha”, revela Nivaldete, que sofreu um processo depressivo com a morte do marido e passou 10 anos sem conseguir se movimentar direito, “quer ver alguém triste? Arranca um membro dele. Eu tinha tudo no lugar, mas nada funcionava. Eu passava a tarde deitada, não podia levantar nem para ir ao banheiro, só acompanhada, para tomar banho tinha que ser sentada, não conseguia andar em linha reta e nem pegar nada no chão, qualquer coisa dava um giro na minha cabeça”, relata. Ela se sujeitou a uma cirurgia e a vários exames inconclusivos, para tentar descobrir a causa do desequilíbrio. “Os médicos diziam que o cérebro não estava enviando mensagens, mas e ai, ia enviar quando?  Ninguém sabia. E foi ai que eu fiquei sabendo do projeto de equilíbrio”, diz. 
 
 
Quedas nunca mais!
 
O Sesc desenvolve atividades voltadas especialmente para idosos há mais de 40 anos e, preocupado com os números alarmantes acima expostos, montou uma parceria com a Universidade de Brasília para incluir um circuito de prevenção de quedas na programação do Grupo Mais Vividos, como é chamada carinhosamente a terceira idade pela instituição. Criado no laboratório do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos (Gepafi), o Prev-quedas foi desenvolvido há 10 anos e tem sido aperfeiçoado através de dois doutorados, quatro mestrados e vários projetos de iniciação científica. “Nós buscamos na literatura de diversas áreas, medicina, fisioterapia, fonologia... e percebemos que a maioria dos exercícios existentes para a prevenção de quedas era feita em laboratório, ou seja, o idoso fica sozinho com o fisioterapeuta em uma sala, repetindo movimentos muito simples, como olhar para cima e para baixo. Isso é muito desanimador e entediante”, explica Juliana, participante ativa desde o início da pesquisa. 
 
Com base nos conceitos de pedagogia e licenciatura em educação física, os exercícios de laboratório foram adaptados para a quadra de esportes e foi iniciada a construção de um circuito de equilíbrio em que os exercícios são realizados de maneira grupal. “Esse circuito foi inventado aqui, não existe na literatura e em nenhum outro lugar”, afirma Juliana, que conseguiu elaborar um protótipo mesmo com a carência de recursos. Esse ano, com o apoio do Sesc, se tornou um projeto multidisciplinar, que envolve profissionais da arquitetura (para a elaboração do espaço), da terapia ocupacional (para auxiliar na escolha de vestimentas, apoios, adaptações de móveis e mudanças de hábitos), da fisioterapia, da medicina, da assistência social e da educação física. Além disso, conta com uma equipe técnica de 26 servidores da instituição, que receberam treinamento de três meses para aprenderem a lidar com esse público e reagir adequadamente às suas necessidades. 
 
 
“Agora sim, nós chegamos onde deveríamos chegar. O projeto saiu da universidade e veio para a população. Mas essa passagem não é algo simples. Uma coisa é o ambiente controlado de laboratório, outra coisa é lidar com a realidade das pessoas”, explica a pesquisadora. Neste semestre, foi selecionada uma amostra de 30 pessoas já cadastradas no Grupo dos Mais Vividos, independentes física e intelectualmente, para participar de um projeto piloto, com duração de três meses e quatro fases de execução: a primeira é a adaptação, para que os participantes compreendam os exercícios, já na segunda eles fazem o circuito mais atentos e seguros, na terceira não acrescentados obstáculos e, por fim, na quarta eles realizam o percurso com os olhos vendados. “O diferencial é que eles não estão olhando um professor e replicando, estão pegando a informação, processando com o auxílio da legenda marcada no chão e realizando com os sentidos e o sistema motor de forma conjunta e harmônica”, declara, “o idoso precisa raciocinar. A ideia não é que eles decorem os exercícios, mas sim que a cada dia eles tenham uma surpresa e fiquem cada vez mais eficazes diante dos desafios”, conclui. 
 
O trajeto é composto por 13 estações, todas realizadas em dupla, que duram dois minutos cada. Elas trabalham colocar um pé na frente do outro, apoio em um pé só (aviãozinho), rotação, marcha com pernas afastadas, andar de costas, andar de lado, na ponta dos pés, se equilibrar em diferentes centros de gravidade, agachamento seguro, marcha cruzada (passos de tango, que trabalham a flexibilidade da articulação lateral) e marcha circunferencial.  Cada uma das atividades busca ativar um sistema específico, seja o sensorial, o vestibular ou o proprioceptivo (responsável por reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão), sempre aliados ao motor. Uma vez por semana, o grupo amostral realiza uma roda de conversa com profissionais da saúde e os registros irão auxiliar na construção de cartilhas interativas, com jogos educativos, para auxiliar com a fixação das teorias nas turmas futuras. 
 
 
“A gente está adquirindo forças, capacidade de voltar a fazer coisas que já havíamos começado a deixar de lado”, explica a participante do projeto Maria, “chega um momento da vida em que a gente vai perdendo algumas habilidades, tem medo de pisar em certos lugares e fica com vontade de entregar os pontos. Aqui eu estou reaprendendo a pisar, levantar o pé do chão e deixar de me arrastar. Me sinto mais segura, estou aprendendo e melhorando, então só penso em seguir em frente”, conta. Para Nivaldete, as primeiras aulas foram as mais difíceis, “quando você tem suas limitações, às vezes fica com vergonha, porque nem todo mundo entende. Para disfarçar, eu dizia que era velhinha, cansada e preguiçosa”, revela. Mas a recuperação foi rápida e, após dois meses de aula, ela realizou sua primeira viagem sozinha para o Rio de Janeiro: “caminhei sozinha, fui à praia, subi degrau, desci degrau, fui ao banco e ao supermercado, visitei todas as favelas e estou aqui viva”, descreve a viajante. “Meu filhos disseram que era muito arriscado e que não era pra agir com tanta ousadia. Mas eu digo, é com ousadia sim, porque se eu não vencer os meus medos, ninguém vai vencer por mim”, conclui. 
 
A previsão, é que o Sesc abra inscrições para o público no início do ano que vem, após a apresentação dos resultados, e que em seguida o projeto seja expandido para outras unidades. Alguns resultados prévios já foram apresentados no IV Seminário do Envelhecimento, e foram percebidos aumentos de força, equilíbrio, funcionalidade e velocidade dos movimentos. Foi mensurada também uma melhora na qualidade de vida, através do teste da The World Health Organization Quality of Life (WHOQOL), da OMS, que consiste em um questionário que abrange os domínios físico, social e psicológico. “O legal do Sesc é que aqui eles têm segurança. Sabem que vão ser bem assistidos e bem recebidos. Então eu acho que a gente vai se surpreender com os resultados do projeto, ele vai dar respostas ainda melhores do que as encontradas em laboratório, porque aqui eles estão acolhidos”, diz Juliana. “O Prev-queda não é apenas um grupo de pessoas, não é uma academia. Quando a gente está mal, nosso amigo vem, ele ajuda, orienta, ele sustenta, diz uma piada, e a gente vai levando assim. Eu agradeço muito a deus, aos professores, a todo mundo que tornou isso possível e aos amigos que fiz aqui, porque eles me dão muita força e a gente precisa dessa força para andar”, conclui a aluna Nivaldete. 
Assista o vídeo e conheça algumas dicas para evitar quedas na rua ou dentro de casa, enquanto o programa não abre suas portas ao público geral: 
 
 
O Grupo dos mais vividos
 
Adriana Costa, coordenadora de ação social e terceira idade do Sesc, afirma que a instituição busca trabalhar o processo de envelhecimento em todas as suas etapas, tanto física, quanto psicológica e social. Enquanto muitas instituições trabalham com pacientes debilitados, o Sesc é pioneiro no trabalho com a prevenção de idosos ativos, para que eles não cheguem na condição de ILPI (instituição de longa permanência para idosos). “Existem muitos alunos que possuem doenças crônicas, mas que vão sendo controladas com exercícios e muitos até deixam de tomar remédios” conta Adriana. “Era um sonho poder andar, cuidar da minha casa, cuidar dos meus filhos. Precisar de alguém para ir até o quintal da minha própria casa era simplesmente muito triste”, lembra Nivaldete. 
 
Para pessoas com mais de 60 anos, o Sesc oferece oficinas de música, teatro, expressão corporal, memória, artesanato e mais algumas atividades físicas, como ginástica, natação e pilates. Também são realizadas regularmente reuniões de socialização, que tem por objetivo empoderar os idosos, deixá-los cientes de seus direitos em relação à aposentadoria, atendimento prioritário, saúde, “fazer com que eles se sintam mais visíveis em uma sociedade que tem uma discriminação muito grande com a pessoa idosa”, afirma a coordenadora, “a nossa ideia é que isso se dissemine mesmo, que outras pessoas possam voltar o olhar a quem precisa”, completa. “A gente tá sempre convidando nossos amigos pra virem pra cá, mas uma fala que não quer deixar a casa só, a outra diz que tem o neto e que não tem com quer deixar, e ai sempre tem uma desculpa, porque quando você quer uma, você acha. E eu fico triste com isso”, lamenta Maria.
 
 
Serviço:
Serviço Social do Comércio
(61) 3228-9112
sac@sescdf.com.br

Mais vividos em cena
 
Uma das atividades mais completas da programação, que auxilia tanto no equilíbrio motor, quanto no equilíbrio emocional, é o teatro. O Sesc realiza ciclos de aulas que vão de março a outubro, em que os alunos desenvolvem uma peça e apresentam no mês do idoso para todas as unidades e seus respectivos familiares. A atividade está disponível em Taguatinga Norte, na 913 Sul, no Gama e em Ceilândia. São duas aulas por semana, nas segundas e sextas, de 9h às 11h30. Os alunos trabalham a expressão do corpo e passam a se conhecer melhor, “entender suas limitações, criar senso de liberdade, de comunidade e de solidariedade”, explica Adriana, “e auxilia muito no desempenho da prevenção anti-quedas, principalmente porque trabalha flexibilidade, confiança e autoestima”, conclui. Os alunos passam minutos, no início de toda a aula, aquecendo as articulações, trabalhando as cordas vocais e praticando atividades de equilíbrio, em seguida sentam com os textos para debater os personagens.
 
A memória também é muito trabalhada ao longo do desenvolvimento dos textos, então previne doenças como a demência. “Dessa vez, nós fizemos Viajantes no Tempo, de Shakespeare, e a linguagem é bem rebuscada. A maioria de nós não tem acesso à literatura, então no começo é bem difícil, ninguém entende muita coisa. Mas depois que você entende, se doa, e ai tudo flui”, revela Jacira Santos, 68, “o professor pergunta como a gente imagina nosso personagem e vê um perfil da escolha que se ache no texto”, conta. As alunas mais antigas passam confiança e estão dispostas a encarar personagens mais complexos. “Eu já tive que fazer uma camponesa que era muito, muito má, só queria saber de dinheiro e falava mal de todo mundo. Foi muito difícil para mim encarar esse personagem, mas o professor tem muita paciência sabe? Eu me sinto realmente uma atriz profissional”, conta. A melhora da autoestima e da confiança são os principais benefícios da atividade, no entanto, para Jacira, o mais importante são as amizades que conquistou, “eu sou gaúcha, vim sozinha e casei por aqui, então não tenho família, minha família são os meus amigos do Sesc”, afirma. 
 
Divina Amaral, 64, está na instituição há 10 anos. Quando ela entrou, estava com uma depressão profunda e afirma que participar das atividades do programa para idosos “foi como caminhar em um túnel muito escuro, e lá, bem no finalzinho, ter uma luz que deixa tudo melhor. Ai ela vai se aproximando e aproximando, até que tudo se ilumina”. A paixão pelo teatro auxilia no controle do medo e da ansiedade, além de gerar um laço coletivo muito forte. “Aqui é o espaço para correr atrás do prejuízo, se a gente não teve oportunidade lá atrás, pela criação ou as vezes até pela falta de dinheiro, aqui é nossa chance. Nós podemos tudo, não somos vaiados, não existe ninguém melhor do que ninguém”, conta a artista, cujo primeiro papel foi o de Cora Coralina, “muitas vezes a gente se sente um defunto dentro da própria casa, mesmo com ela cheia de gente, nós sentimos que não pertencemos àquele espaço, que não fazemos nada, não somos nada. E encontrar um grupo como esse, animado, cheio de energia, que te recebe com carinho e te inclui... ah, é um renascimento”, declara.
 
 

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