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Estado de Minas

Com os juros e a inflação em alta, 24% das famílias ficam no vermelho

Com os juros e a inflação em alta, consumidores não conseguem pagar mais as contas em dia. A tendência é o calote aumentar


postado em 19/05/2011 08:29

Quase dois terços da população brasileira, de todas as faixas de renda, estão endividados, apesar da redução das vendas no varejo. As famílias abusaram do cartão de crédito e dos carnês de lojas — com base em parcelas que supostamente caberiam no bolso — apesar da alta da inflação e do crédito mais caro, que reduziram o poder de compra do salário. A pesquisa Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da Confederação Nacional do Comércio (CNC), aponta que, em maio, a proporção de brasileiros com dívidas subiu para 64,5%, contra 62,6%, em abril, e 58,7%, em maio de 2010. Desses, 24,4% estão com débitos em atraso, o que representa aumento em relação a abril, quando o percentual ficou em 23,4%. Outro dado preocupante é que 8,6% das famílias declararam não ter condições de pagar seus compromissos, o maior índice do ano.

Os brasileiros também estão gastando cada vez mais nos cartões de crédito, e a inadimplência, que estava em queda, já retomou o ritmo de alta neste ano. A maior parte dos débitos, 71,5%, é justamente nos cartões de crédito. Em março deste ano, o total devido pelas famílias para as administradoras do setor alcançou R$ 97,4 bilhões, entre faturas a vencer e roladas com juros. Em março de 2010 e de 2009, esse valor estava bem menor: R$ 86,5 bilhões e
R$ 68,5 bilhões, respectivamente, de acordo com dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços.

O aumento maior de endividamento ocorreu entre as famílias de maior renda, com ganhos superiores a 10 salários mínimos
(R$ 5.545), cujo percentual passou de 52,9% para 57,7% entre abril e maio. Dados do Banco Central confirmam essa tendência e apontam elevação da fatia dos empréstimos de valores acima de R$ 50 mil: de 22% no início de 2010 para 27% neste ano. Já a proporção de débitos de até R$ 5 mil caiu de 29% para 26% em um ano em relação ao total das operações de crédito feitas pelas pessoas físicas.

De acordo com a pesquisa da CNC, parte do endividamento é para equilibrar o orçamento doméstico e não para aumentar o consumo, ao contrário do que ocorreu em 2010, quando foram registrados recordes nos níveis de emprego e renda, além de crédito farto. Mas acende o sinal de alerta, explicou a economista Marianne Lorena Hanson, responsável pelo estudo.

“A tendência é de aumento da inadimplência nos próximos meses, devido ao crescimento dos empréstimos em ritmo mais rápido que o da renda, aumento do custo do crédito e ao espaço reduzido para elevações nos prazos de financiamento”, observou. Para as famílias com renda inferior a 10 salários mínimos, o percentual de dívidas passou de 64,4%, em abril, para 65,2%, em maio.

A assistente administrativa Juliana Machado Alves, 30 anos, quase perdeu o apartamento. Após o divórcio, não conseguiu arcar com as prestações e foi obrigada a vender o imóvel. “Paguei cerca de um ano até a separação e mais seis meses, mas tive que abrir mão”, lamentou. Atualmente, mora com a mãe. “Fiquei desempregada e fui me enrolando. Meu nome foi parar no cadastro do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Me descontrolei.” Ela atribui o endividamento à facilidade de financiamento. “Até com o nome sujo me ofereceram crédito”, contou.

Atrasos
Os brasileiros definidos como “muito endividados” representavam 13,7%, em maio de 2010. Passaram para 15,7%, em abril deste ano. E subiram para 17,5%, em maio. Os “pouco endividados” sofreram paulatino incremento: 23,7%, 23,8% e 23,9% (abril de 2010 e abril e março de 2011). O grande vilão foi o cartão de crédito, responsável por 71,8% do endividamento daqueles com renda mais baixa, seguido pelos carnês, com 20,7%, e crédito pessoal, 12,3%. Para os que ganham acima de 10 salários mínimos, o cartão contribuiu com 71,2%. O segundo item, financiamento de carro, vem bem abaixo, com 21,2%. E crédito pessoal aparece com 13,7%.

Dívidas com o financiamento da casa tiram o sono de 2,9% dos de mais baixa renda e de 8% daqueles que ganham mais. O advogado especialista em direito imobiliário Carlos Eduardo Alves Ferreira ressaltou o aumento do volume de atrasos nas prestações da casa própria. “Consequência da larga expansão de crédito”, esclareceu. Após três meses de inadimplência, o bem pode ser recuperado pela financiadora e geralmente vai a leilão. “É uma legislação específica. Não há muito a fazer na Justiça.”

A Pesquisa Endividamento e Inadimplência do Consumidor comprova também que o tempo médio de atraso teve ligeira alta de 59,7 para 60,5 dias entre maio de 2010 e o mesmo mês em 2011. O comprometimento com dívidas se elevou de 6,6 meses para 6,8 meses na comparação anual, sendo que 27,9% das pessoas têm dívidas de até três meses, e 29,8%, de mais de um ano. A parcela média de renda comprometida com dívidas também aumentou, na comparação anual, de 29,1% para 30%, em igual período.

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