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Correio Braziliense

Começou a dança dos ministros no governo

 


postado em 01/08/2008 10:26 / atualizado em 01/08/2008 10:33

Sem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a desejar, começou a reforma ministerial que costuma ocorrer após as eleições municipais. A saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura retoma o processo iniciado com a substituição de senadora Marina Silva, que pediu demissão, pelo ecologista Carlos Minc no Meio Ambiente. Três ministros já estão na berlinda: o da Saúde, José Gomes Temporão; o da Fazenda, Guido Mantega; e, agora, o das Relações Exteriores, Celso Amorim, que amargam desgastes políticos por causa do próprio desempenho. Lula não gosta de substituir auxiliares, como demonstrou ao sustentar ao máximo o ex-ministro da Defesa Valdir Pires, que acabou trocado pelo ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Nelson Jobim. Mas também não é de segurar alça de caixão. O ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu que o diga. A bola da vez na Esplanada é José Gomes Temporão, cujo desempenho à frente da pasta frustra as expectativas do presidente. Temporão apostou numa agenda considerada negativa pelo governo: a legalização do aborto, a liberação das pesquisas com células-tronco e a transformação dos hospitais públicos em fundações, dentre outros temas polêmicos. A maior irritação de Lula é com o fato de que Temporão lança propostas no ar e depois não as executa. Na reunião dos ministros da área social, Temporão levou um pito presidencial porque pediu a liberação de verbas para uma campanha publicitária. Segundo Lula, se o projeto fosse realmente importante, não precisaria da campanha, teria a adesão da mídia. No Congresso, a animosidade contra o ministro é grande. A aprovação do novo imposto do cheque, a Contribuição Social para a Saúde (CSS), está empacada na Câmara. A bancada do PMDB, apesar do empenho do líder Henrique Eduardo Alves (RN) e do presidente da legenda, Michel Temer (SP), está insatisfeita com o também peemedebista. Temporão assumiu muitos compromissos com a cúpula da legenda, mas a burocracia do ministério barra a execução dos acordos considerados fisiológicos e clientelistas. Impacto O desgaste de Mantega com Lula decorre de suas previsões errôneas na Fazenda. O ministro manteve uma longa queda-de-braço com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, mas perdeu a batalha porque subestimou a inflação. Foi atropelado pelo impacto da crise norte-americana e seus reflexos na economia mundial. As medidas que adotou para segurar aos preços foram insuficientes. A salvação da lavoura foi o BC elevar a taxa de juros. Meirelles convenceu o presidente de que assim será mais rápida e menos desgastante a estabilização dos preços, dando fôlego ao governo para a sucessão de 2010. É por isso que Lula sonha com a volta do ex-ministro Antonio Palocci ao posto de ministro da Fazenda. Hoje, isso depende muito do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, relator do processo contra Palocci por causa da quebra do sigilo de um caseiro. Celso Amorim entra na lista por causa do fracasso da Rodada de Doha, que jogou por terra todos os esforços pessoais de Lula para consolidar sua política externa. O chanceler apostou tudo num cavalo só, um novo pacto comercial mundial, desprezando esforços anteriores do Itamaraty para consolidar e fortalecer o Mercosul, melhorar as relações comerciais com os Estados Unidos e construir um forte pacto entre os países do Cone Sul e a Europa. Não se deu conta de que os interesses comerciais do Brasil, tanto na agricultura como na indústria, eram antagônicos aos da China e da Índia, considerados países estratégicos para a diplomacia que Amorim preconizava. China e Índia chutaram o pau da barraca na Organização Mundial do Comércio (OMC), fórum no qual o Brasil apostou, e Amorim teve que se acertar com seus tradicionais parceiros do Ocidente e “trair” os aliados . A política externa do governo Lula resultou num retrocesso e Amorim perdeu liderança entre os próprios colegas no Itamaraty e com aos demais chanceleres do Grupo dos 20 e da América do Sul.

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