Um autêntico Flamengo x Vasco. Ou zona Sul X Zona Oeste. Ou Noca da Portela X Caetano Veloso. Ou ;candidato dos ricos; X ;inimigo da periferia;, como os candidatos se trataram mutuamente. Ou governo x oposição. Ou Dilma X Serra ; se quisermos pensar em 2010. Um clássico como o Rio não via há pelo menos duas décadas.
O jornalista e escritor Fernando Gabeira, 67 anos, ex-guerrilheiro nos anos de chumbo, rompido com o PT de Lula, filiado ao PV e apoiado por tucanos e democratas, tem, segundo o Instituto Brasileiro de Pesquisa Social (IBPS), mais votos entre jovens (16 a 24 anos), com curso superior, moradores da Zona Sul e de quem ganha mais de 10 salários mínimos. Já o bacharel em direito Eduardo Paes, 38 anos, ex-tucano, ex-pefelista, ex-detrator de Lula, hoje no PMDB e apoiado por praticamente toda a esquerda carioca, tem a preferência das mulheres, dos eleitores mais velhos (47% de quem tem entre 45 e 59 anos), de evangélicos, daqueles com menos escolaridade (59% de quem tem máximo a 4ª série) e moradores das zonas Norte e Oeste, as mais populosas.
Diferentes em tudo, com passados políticos que brigam com suas atuais alianças, ambos sem experiência no Executivo, Gabeira e Paes racharam a cidade já suficientemente partida. E chegam na hora da verdade empatados pelas pesquisas de intenção de voto, ambos beirando 40% do eleitorado, com 10% de indecisos que vão decidir a peleja.
Ninguém tem dúvida de que, além da diferença de idade, de história, de estilo, de eleitorado e de padrinhos, aquele que chegar ao Palácio da Cidade para ocupá-lo pelos próximos quatro anos estará fazendo bem mais do que romper com o reinado de 16 anos de César Maia (DEM) no comando da segunda maior cidade do país, com 4,5 milhões de eleitores. Pré-candidatos ao Planalto em 2010, a chefe da Casa Civil de Lula, Dilma Rousseff, e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), têm razões de sobra para ficar de olho nesse placar. Não por acaso, Lula, Dilma e Serra foram estrelas dos programas eleitorais de Gabeira e Paes nesse segundo turno.
Se vencer, Paes, que como franco atirador tucano, durante a CPI dos Correios, já chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ;chefe da quadrilha; do mensalão, estará dando a Lula e ao seu padrinho, o governador Sérgio Cabral (PMDB), vitórias essenciais no xadrez político. Se der Gabeira, será o pior pesadelo de Lula e Cabral. O governador, que já colecionou derrotas nas principais cidades do estado, perderia também a capital. E Lula terá no Rio, a partir de 2009, um oposicionista estridente, numa trincheira perfeita para as próximas eleições presidenciais.
;O Rio é uma cidade marcada pelo isolamento, pelo conflito constante com as demais esferas. É hora de juntar forças;, disse ao Correio o candidato Eduardo Paes que uniu a esquerda, algo espantoso na cidade.
;Minha relação não é com os partidos, mas com a sociedade;, revidou Gabeira, que colecionou apoios de personalidades políticas e de uma interminável procissão de artistas, teólogos, sociólogos e ambientalistas.