Jornal Correio Braziliense

Politica

Aliados de Paulinho ensaiam discursos com o objetivo de preservar o mandato do pedetista

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O pedido de cassação do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP) pelo relator do processo de quebra de decoro no Conselho de Ética, Paulo Piau (PMDB-MG), não demonstrou estar em consonância com o desejo da maioria do colegiado. Criou-se um cheiro de massa e orégano no ar. Paulinho é acusado de ter participado de um esquema de fraude no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mas aliados do deputado acusado começaram a preparar a massa para ir ao forno. A maioria dos parlamentares que se manifestou sobre o relatório de Piau disse não ver nenhuma ligação concreta de Paulinho com o esquema de desvio de dinheiro. A tese mais defendida pelos integrantes do Conselho colocou o deputado do PDT paulista como vítima dos mentores dos desvios no BNDES. ;Não há nenhuma prova que condene Paulo Pereira da Silva. Tudo o que foi levantado são ilações. As pessoas condenadas usaram o prestígio do deputado. E disso todos nós podemos ser alvos de acusação;, bradou o deputado Marcelo Ortiz (PV-SP). Outro foi além: ;Não podemos condenar alguém por conhecer pessoas. Eu tenho sido alvo constante de pedidos de ingresso do show da Madonna, em São Paulo. Ou seja, estão usando o meu nome para um benefício alheio;, comparou Abelardo Camarinha (PSB-SP). Mesmo assim, o relator do processo, que já dura seis meses no Conselho de Ética, identificou irregularidades cometidas por Paulinho. De acordo com Piau, o pedetista teve papel central na montagem e na operação de fraude contra o BNDES. Para ele, as ONGs Luta e Solidariedade, ligada à Força Sindical, entidade presidida por Paulinho, e Meu Guri, da mulher do parlamentar Elza Pereira, foram os meios utilizados para receber as propinas da fraude. No relatório, Piau descarta o fato de não haver provas ligando Paulinho ao esquema, lembrando que suas relações com peças-chave da fraude já o credenciam para a perda do mandato. ;(O deputado) era figura proeminente no esquema fraudulento, seja como seu animador em altas esferas do Estado brasileiro, seja como nome de referências nos contados efetuados pelos membros do grupo, seja como beneficiário das maquinações do grupo, seja como protetor da organização;, destaca o parecer do peemedebista mineiro. Prisões As ligações de Paulinho com o esquema se davam por meio de João Pedro Moura e Ricardo Tosto, ambos conselheiros do BNDES indicados pela Força Sindical, e Wilson Consani, policial militar reformado que seria o articulador da organização. Os três foram presos, juntos com outras sete pessoas, na Operação Santa Tereza, da Polícia Federal. Ao ver que pelo menos oito conselheiros votariam favoravelmente à absolvição, a deputada Solange Amaral (DEM-RJ) pediu vista do relatório, adiando a votação do futuro de Paulinho para a próxima semana. ;É preciso analisar melhor os fatos. O voto do relator é bem feito e merece uma análise cuidadosa;, disse a deputada. O deputado Chico Alencar (PSol-RJ), cujo partido é um dos autores da representação contra o colega, concordou com a manobra porque o clima de pizza já foi instalado no Conselho de Ética. ;O relatório é substantivo e elucidador da participação de deputado Paulinho nesse caso e não pode ser desmerecido como está sendo feito;, afirmou. Entenda o caso ;Nosso chefe lá em Brasília; A Operação Santa Tereza, da Polícia Federal, foi um desdobramento de investigações sobre uma quadrilha que fazia tráfico nacional e internacional de mulheres e explorava a prostituição em São Paulo. Ao examinar as conversas entre freqüentadores de um prostíbulo, a PF percebeu repetidas menções a financiamentos do BNDES, o que indicava tráfico de influência para aprovar os créditos. A quadrilha agia para receber propina em cima da facilitação da liberação. Nas conversas, o deputado do PDT de São Paulo era sempre mencionado como ;Paulinho;, ;PA; e o ;nosso chefe lá em Brasília;. A PF descobriu desvios em pelo menos três empréstimos, sendo dois para uma loja de departamentos e outro para a Prefeitura de Praia Grande (SP). Cerca de 4% dos R$ 390 milhões liberados pelo BNDES não chegaram ao destino final, ficando com o grupo. Durante a investigação, a PF descobriu que o ex-assessor do deputado Paulinho da Força (PDT-SP), João Pedro Moura, estava envolvido no esquema. Ele havia sido conselheiro do BNDES. Por meio de Moura, a polícia descobriu outros supostos envolvidos. Entre eles, Ricardo Tosto, que estava no conselho administrativo do BNDES, representando a Força Sindical. João Pedro de Moura passou a ser seguido por policiais federais, inclusive quando ele entrava em gabinetes na Câmara dos Deputados. A PF suspeita que o deputado tenha recebido parte do dinheiro desviado do BNDES para a Prefeitura de Praia Grande. O prefeito Alberto Mourão, teria repassado, segundo a PF, R$ 2,6 milhões a integrantes da quadrilha, inclusive Paulinho, em troca do financiamento de R$ 124 milhões do Banco.