Politica

Ambientalistas e gestores contestam Lula sobre soluções para o lixo

Para eles, criar cooperativas de catadores, como sugere o presidente, não resolve o problema do lixo

postado em 03/11/2009 10:29
A cobrança aos prefeitos de todo o país para que formem cooperativas de catadores de material reciclável, feita ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu programa de rádio semanal, Café com o Presidente, esconde problemas mais complexos referentes ao tema. O alerta vem não só dos próprios gestores municipais, mas também da seara ambientalista. De acordo com Paulo Ziulkoski, presidente da Confederação Nacional dos Municípios, mais uma vez o governo federal cobra dos prefeitos ações nas quais a União tem que participar, inclusive com os recursos necessários. Além disso, ele chama a atenção para as recomendações dos tribunais de contas e ministérios públicos Brasil afora em relação a cooperativas de uma forma geral.

;É óbvio que há entidades sérias, mas muitas funcionam apenas como fachada, são empresas na realidade. Então, a criação dessas instituições, mesmo na área do lixo, não é algo assim tão rápido e simples como pode parecer;, destaca Ziulkoski. Um estudo prestes a ser apresentado pela Confederação Nacional dos Municípios mostrará que o índice dessas unidades da Federação que realizam coleta seletiva está bem abaixo dos 56% estimados pelo levantamento mais atual da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Isso porque a pesquisa da entidade utiliza como parâmetro a quantidade de municípios que indicaram ter iniciativas de coleta especial do lixo, enquanto o estudo da Confederação promete ser uma radiografia mais detalhada.

Seja qual for o percentual real de municípios a recolherem e destinarem de forma responsável os dejetos, Gustavo Souto Maior, presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram) e professor da Universidade de Brasília (UnB), lamenta que a criação de cooperativas tenha de ser incentivada. ;O ideal é que não existisse a necessidade de haver catadores de lixo. Mas, no contexto atual, temos de apoiar essas entidades. Muitas fazem um bom trabalho, inclusive no âmbito social;, destaca. Ele ressalta, entretanto, que a formalização dos trabalhadores não pode inibir uma conscientização da sociedade.

;As pessoas precisam entender que o lixo é um problema de todos. Até porque cada cidadão produz, em média, um quilo por dia. Não basta recolher e colocar na porta de casa. Temos de nos unir em torno das melhorias, que incluem a construção de locais apropriados para a alocação;, destaca Souto Maior. O especialista aponta o próprio DF como ;vergonha ambiental; por não contar com um aterro sanitário. A maior parte das 2 mil toneladas de resíduos produzidas por dia na capital vai para o lixão a céu aberto da Estrutural. ;Imagino que uma forma rápida de resolver essa questão seria depositar essa quantidade de material no Eixão ou nas vias centrais dos lagos Sul ou Norte;, provoca.

Resíduos

Um dos passos para disciplinar o manejo do lixo está nas mãos do Senado. Aprovado recentemente na Câmara dos Deputados, o projeto que institui o Plano Nacional de Resíduos Sólidos cria responsabilidades aos geradores de resíduos, como indústrias, hospitais, além do cidadão comum. Pela proposta, assinada pelo presidente Lula em 2007 e encaminhada ao Congresso, os geradores de resíduos sólidos terão de adotar medidas de compensação ambiental e ações de reciclagem que gerem renda aos catadores.

Colaborou Mirella D;Elia

O descaso com o lixo


Brasil

44% dos municípios não fazem coleta seletiva
56% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

Nas regiões


Norte

57% dos municípios não fazem coleta seletiva
43% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

Centro-Oeste
77% dos municípios não fazem coleta seletiva
23% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

Nordeste
66% dos municípios não fazem coleta seletiva
34% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

Sudeste
22% dos municípios não fazem coleta seletiva
78% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

Sul
25% dos municípios não fazem coleta seletiva
75% dos municípios afirmam ter iniciativas de coleta seletiva

800 mil - Número estimado de catadores espalhados no Brasil

45 mil - Quantidade de catadores vinculados a cooperativas

50% - Percentual das cerca de 600 cooperativas no Brasil situadas nas regiões Sudeste e Sul

Fonte: Associação Brasileira de Empresas Públicas e Resíduos Especiais (Abrelpe) e Movimento Nacional dos Catadores de Material Reciclável

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