postado em 23/12/2009 08:53
Alana Rizzo
Edson Luiz
Rodrigo Couto
Sete litros de leite, cinco quilos de feijão, três de arroz, três de açúcar, um de farinha de trigo e 900 mililitros de óleo. É isso que cada um dos de 41 milhões de brasileiros que vivem com um salário mínimo poderá comprar a mais, todos os meses, quando o reajuste entrar em vigor, em 1º de janeiro. A cesta de produtos leva em consideração preços praticados no Distrito Federal e compilados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O projeto inicial do governo previa aumento de R$ 465 para R$ 507. Mas a proposta do relator do Orçamento da União de 2010, deputado Geraldo Magela (PT-DF), trouxe o valor de R$ 510. Negociado diretamente com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, o gasto adicional terá um impacto de R$ 600 milhões anuais nas contas da Previdência.
Se depender do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o anúncio do novo mínimo será usado como trunfo na campanha eleitoral de sua candidata ao Palácio do Planalto, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). "Quando chegamos ao governo, o mínimo era inferior a U$ 50. E isso faz uma diferença na capacidade de consumo e na inclusão social", disse ao Correio o vice-presidente da República, José Alencar. Ele confirmou a autorização do presidente para arredondar o valor para R$ 510, ou cerca de U$ 300. "Você pode pensar que R$ 510 ou U$ 300 não vale nada. Não vale para nós. Mas, para a pessoa que recebe aquilo para comida, vale muito."
Alencar empunhou a bandeira do presidente Lula de que, como o Bolsa Família, o ciclo de reajustes do salário mínimo teve um impacto imediato na redução das desigualdades sociais e na retirada de brasileiros da linha abaixo da pobreza. A medida também teria sido fundamental para estimular o consumo interno, um dos pilares do crescimento econômico do país.
Reforço
Para o diretor de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Jorge Abrahão, dois aspectos do salário mínimo merecem destaque. "Não é importante só pelo que representa aos trabalhadores. Tem também as políticas sociais. Mais de 60% das aposentadorias são referenciadas por esse valor", afirmou Abrahão. De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, 1.269.811 trabalhadores formais recebem o piso salarial mensalmente. O mesmo valor é usado para pagar 18 milhões de aposentadorias, além de benefícios da área social e o seguro-desemprego.
"O impacto atinge uma população propensa ao consumo, gerando mais possibilidade de produção da economia. É um regulador do mercado de trabalho, injeta mais recursos e puxa a demanda econômica", acrescentou Abrahão, reforçando que o consumo da população movimenta ainda mais o mercado interno, "porque ela consome bens produzidos aqui, como comida e roupas".
Segundo o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, o novo mínimo injetará R$ 26,6 bilhões na economia brasileira. Ele ressaltou que o acordo selado entre o Executivo e as centrais sindicais possibilitou a sequência de aumentos nos últimos anos. "O salário mínimo saiu de um poder de compra de 1,02 de cestas básicas para 2,17 cestas em janeiro. Ou seja, isso representa mais do que o dobro", declarou Lúcio. Segundo o diretor, ao contrário do alardiado após a conclusão do acordo, não houve desemprego. "Há um grande estímulo na renda e no mercado de trabalho, que está se revigorando".
Lúcio assinalou ainda que o salário mínimo ideal seria em torno de R$ 1 mil, para uma família de até três pessoas, mas ressaltou que o atual valor já está causando a inclusão das classes D e E no mercado e no consumo. "Agora, é um longo caminho para um salário mínimo ideal", observou o diretor do Dieese. A medida provisória com o reajuste de 9,6% - ou 6% acima da inflação - deve ser publicada hoje. Lula também anunciará o aumento para aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que ganham mais de um salário mínimo por mês. Neste caso, serão beneficiados 8,2 milhões de pessoas, cujos benefícios só terão ganho real de 2,5% a partir de janeiro.
Povo fala
O que você acha do reajuste de R$ 45 no valor do salário mínimo?
Sabrinne Oliveira, 21 anos, agente de viagens, moradora de Planaltina (GO)
"É pouco. Com o dinheiro que o governo recolhe de impostos, poderia dar um aumento melhor para a gente. Esse valor não dá nem para comprar uma cesta básica. O ideal seria um mínimo de R$ 600 para viver dignamente"
Eliane Silva, 39 anos, auxiliar de serviços gerais, moradora de Brazlândia
"Não dá para comprar quase nada, só arroz e feijão mesmo. Tá tudo muito caro no mercado. Pelo serviço que faço, que é limpar a sujeira dos outros, merecia ganhar um pouco mais. O salário mínimo deveria ser de R$ 1 mil"
Bernardo Dias, 30 anos, servente, morador de Ceilândia
"Isso dá para comprar pouca coisa, quase nada. Parte do meu salário vai para o aluguel e, no fim do mês, fico liso. É uma vergonha um aumento tão pequeno. Deveriam aprovar um salário de R$ 700 para os trabalhadores"
João Ferreira dos Santos, 18 anos, auxiliar de serviços gerais, morador do Recanto das Emas
"Acho bom. Já vai dar para fazer uma compra de arroz e feijão. É melhor um aumento do que diminuir nossos salários. Se eu ganhasse R$ 800 por mês, daria para pagar todas as minhas despesas, inclusive o aluguel"
Josimar Lopes, 24 anos, auxiliar de serviços gerais, morador de Águas Lindas (GO)
"Muito bom. Já ajuda a comprar o gás e alguma compra no mercado. Quem vive de salário mínimo tem que fazer milagres. Todo mês fico endividado. Para melhorar minha situação, uns R$ 560 seria justo pelo serviço que faço"