Publicidade

Correio Braziliense ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

Na contramão da inclusão digital


postado em 03/01/2010 07:01 / atualizado em 03/01/2010 08:43

Inaugurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva há três anos, o Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC) no Gama, Distrito Federal, foi abandonado por falta de recursos. A unidade é uma das quatro espalhadas pelo país e indica que o projeto Computadores para Inclusão Digital, criado pelo governo federal em 2004, ficou no papel. A ideia é montar uma rede nacional de reaproveitamento de equipamentos de informática usados e descartados por órgãos públicos, empresas e também pessoas físicas e destiná-los para telecentros comunitários, escolas e bibliotecas públicas com a ajuda de entidades parceiras. Na ponta da reciclagem desses equipamentos estariam jovens de comunidades carentes que teriam a oportunidade de se profissionalizar em cursos técnicos de microinformática. Inspirada em um projeto canadense, a iniciativa brasileira tentava ampliar o número de pessoas com acesso à tecnologia da informação digital. Para a inauguração da unidade do Gama - a única na Região Centro-Oeste -, o governo federal investiu R$ 100 mil para as despesas iniciais e adaptação de salas de aula. Um convênio com a Fundação Banco do Brasil da ordem de R$ 1,9 milhão também permitiu a reforma do espaço e o custeio do primeiro ano de atividades. O terreno de 6.000m² também foi cedido pelo governo. Lá foi construído um prédio para as atividades de capacitação de 1,4 mil jovens e para a reforma de 12 mil computadores no primeiro ano de funcionamento. Mas os trabalhos pararam no ano seguinte, em 2008, sem cumprir a meta. Com o fechamento da unidade do Gama, a maioria dos equipamentos de informática arrecadada de órgãos públicos federais, localizados no Distrito Federal, é encaminhada para o CRC de Belo Horizonte (MG). A média de doações tanto de Brasília como do estado mineiro chega a mil peças por mês. Após a reciclagem e o descarte do que não serve mais, apenas metade disso consegue retornar para as salas de aulas e centros comunitários. A falta de outros centros na região do país empurra a produção mineira para longe da realidade local. "A maioria dos nossos equipamentos foi ano passado para o Ceará, Espírito Santos, Alagoas e Bahia%u201D, afirma a gerente-administrativa, Vera Primola. "Aqui na capital não somos muito prejudicados porque existe um programa do governo municipal que atende as demandas das entidades carentes e instituições de ensino", completa. A burocracia também é um dos entraves para que o projeto não dê certo. Segundo o coordenador administrativo do primeiro CRC criado no país, localizado em Porto Alegre, há dificuldades na hora de receber o dinheiro. "A gente é uma entidade privada que lida com o dinheiro público e talvez por isso fique tão burocrático trabalhar com a liberação", afirma Edson Bellenz, que cuida da unidade criada após dois anos de existência do projeto Computadores para Inclusão Digital, mas que só começou a fazer as primeira doações em 2007. Apesar das dificuldades, a unidade consegue envolver atualmente 70 jovens aprendizes na tarefa de reciclar 350 computadores recebidos em média. A maioria vinda de empresas privadas. De cada três equipamentos, apenas um é totalmente reaproveitado para doação. Mas, apesar da demanda, nem todos ficam na região onde foram consertados. "A gente acaba destinando computadores de Porto Alegre para o Nordeste, Goiás, enquanto há escolas na nossa região que têm essa necessidade que poderiam recebê-los. Já chegamos a mandar equipamentos para o Amazonas", diz Bellenz. Fôlego A assessora de inclusão digital da secretaria de logística e tecnologia da informação, do ministério do Planejamento, Cristina Mori, minimizou os entraves. Apesar de confirmar que existem poucos centros para o atendimento de todo o país, ela afirmou que o projeto vem ganhando fôlego, com a criação de mais duas unidades que começam a funcionar em 2010. Uma no Recife e outra em Lauro de Freitas, na Bahia. "A quantidade realmente é pouca, mas estamos analisando alguns pedidos para atender outras regiões e ampliar o trabalho de inclusão digital", diz Cristina Mori. Segundo ela, de 2007 até novembro de 2009, as unidades existentes, incluindo a do Gama, conseguiram recuperar e entregar em todo o país 40 mil computadores usados a cerca de 582 instituições. A assessora garantiu que este ano a única unidade do Centro-Oeste retoma as atividades. Ela alega que o fechamento do centro ocorreu porque o dinheiro que custeava as despesas vinha unicamente de parcerias com entidades privadas e que a falta de renovação inviabilizou a continuidade dos trabalhos. "Não tivemos dinheiro no caixa para socorrer as necessidades devido ao orçamento enxuto, mas este ano essa e as outras unidades terão dinheiro suficiente", diz. Cada unidade implantada recebe o equivalente a R$ 300 mil por ano para funcionar. O Correio entrou em contato com a Associação de Apoio à Família, ao Grupo e à Comunidade (Afago-DF), responsável pelo CRC do Gama, mas não obteve retorno. Legislação O Projeto Computadores para Inclusão tem como uma das finalidades ajudar na diminuição do chamado "lixo eletrônico", com o reaproveitamento de peças. O que não serve é destinado a oficinas de robótica e artesanato. Já as carcaças e materiais recicláveis são enviados a cooperativas de catadores. Os resíduos tóxicos, como os tubos de imagem, têm destinação certificada. A ideia combina com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada este ano pelo Congresso, que define responsabilidades sobre a geração de resíduos de todos os tipos e o papel de fabricantes, distribuidores, consumidores e gestores públicos.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade