Diante da certeza de que Henrique Meirelles deixará a Presidência do Banco Central no fim deste mês, o mercado financeiro ampliou ontem as apostas de que a taxa básica de juros (Selic), que está em 8,75% ao ano, subirá na reunião da próxima semana do Comitê de Política Monetária (Copom). O raciocínio dos analistas é o de que Meirelles assumirá o ônus de impor um novo arrocho à economia, livrando o seu possível sucessor, o diretor de Normas, Alexandre Tombini, de começar a elevar os juros em abril. ;Com certeza, esse passou a ser o pensamento dominante no mercado;, disse o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.
Na avaliação do economista-chefe do Banco Modal, Alexandre Póvoa, não há por que o BC adiar a decisão do aumento dos juros, se está mais do que comprovada a necessidade de a instituição agir para trazer de volta a inflação para o centro da meta definida pelo governo, de 4,5%. ;Não há por que Meirelles deixar o trabalho sujo para o sucessor. Seria um desgaste desnecessário para Tombini, já que ele seria obrigado a promover um aumento mais forte dos juros. Além disso, o atraso de 45 dias (prazo para a próxima reunião do Copom) provocará ruídos indesejáveis;, acrescentou.
A mesma avaliação foi feita pela economista-chefe do Banco ING, Zeina Latif: ;A inflação está em alta e não há escapatória para o BC. Então, é melhor que, antes de sair do comando do BC, Meirelles inicie o processo de aumento dos juros e sinalize que seu sucessor manterá a austeridade da política monetária, que teve papel fundamental para o Brasil sair mais rápido da crise;, assinalou. Ele afirmou ainda que não há nenhuma restrição no mercado em relação ao nome de Tombini para a sucessão no BC. ;Pelo contrário, ele é visto como uma âncora de que a política monetária não mudará.;
Quanto ao sucessor de Mário Mesquita, que já avisou que deixará a Diretoria de Política Econômica assim que Meirelles sair de Presidência do BC, são grandes as dúvidas. Mesquita é o mais conservador dos integrantes do primeiro escalão do banco. Para Zeina, o melhor seria que a vaga fosse preenchida por um técnico de carreira. Ela, inclusive, não descarta o deslocamento de Carlos Hamilton para o lugar de Mesquita. Hamilton assumiu recentemente a diretoria de Assuntos Internacionais e passou a última semana sendo apresentado por Meirelles a investidores e autoridades nos Estados Unidos e na Suíça.
Missão cumprida
A decisão de Meirelles de deixar a Presidência do BC tem como base a sua visão de que a economia brasileira já retomou o crescimento econômico de forma sustentada e não haverá turbulências em caso de troca no comando da instituição. Meses atrás, quando questionado sobre o seu futuro político, Meirelles sempre ressaltava que a prioridade, naquele momento, era botar o país novamente nos trilhos depois dos estragos provocados pela crise mundial. ;Felizmente, estamos em um outro momento, muito favorável;, tem dito ele dentro do governo, seguro do sucesso do BC no combate à crise.
PGR indicia presidente do BC
A Procuradoria-Geral da República (PGR) indiciou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, por crimes contra a ordem tributária. O inquérito foi protocolado no Supremo Tribunal Federal (STF) no último dia 4, mas divulgado somente ontem. A assessoria da PGR e do Supremo dizem desconhecer o teor do processo e até mesmo o suposto crime que Meirelles teria cometido. O BC ainda não foi notificado. O relator do inquérito no STF é o ministro Joaquim Barbosa.