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Correio Braziliense ELEIÇÕES

Dilma sobe no palanque petroleiro

Participação em plenária da federação de trabalhadores do setor teve contornos de campanha antecipada. Legislação só permite eventos de cunho eleitoral a partir de 5 de julho


postado em 05/06/2010 07:02

A visita da pré-candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) à plenária da Federação Única dos Petroleiros (FUP) tinha tudo para ser um ato de campanha. E foi. Assim que a petista chegou ao local da convenção, no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília, ontem, foi recebida pelos sindicalistas com as senhas “Olê, olá, Dilma” e “Brasil para frente, Dilma presidente”. Teve jingle e cordel, composto para enaltecer a presidenciável e espinafrar os adversários, e até demorada sessão de fotos. A participação da “Mãe do Brasil”, como Dilma foi chamada pelos trabalhadores, tinha tudo para ser um ato de campanha, se a peregrinação oficial no faro por votos já estivesse liberada. Mas não está. Em tese, candidatos só poderiam participar de eventos de cunho eleitoral a partir de 5 de julho.

O pré-candidato tucano cumpriu agenda na Paraíba nessa sexta-feira(foto: Porthus Junior/Agência RBS/AE )
O pré-candidato tucano cumpriu agenda na Paraíba nessa sexta-feira (foto: Porthus Junior/Agência RBS/AE )
A preocupação com a lei que proíbe a antecipação da campanha (1)eleitoral até ganhou defensores no início do evento. Assim que os primeiros gritos em favor de Dilma começaram a ser entoados, um dirigente da FUP pegou o microfone e fez o alerta: “Calma, gente, tem uma legislação eleitoral por aí”. Em vão. Os cerca de 200 participantes da plenária não economizaram nos afagos à pré-candidata. A série de homenagens começou com a leitura de uma poesia de cordel, escrita especialmente para a ocasião por um petroleiro.

O poema não foi econômico. Criticou o governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), em trechos como: “Até 2002, o povo amargurado, era crise a todo instante” e “saiu em 2002, aos pés do FMI”. A série de críticas respingou até no falecido Sérgio Motta, ex-ministro das Comunicações de FHC, e, claro, em José Serra (PSDB), principal adversário de Dilma nas eleições de outubro. “Salvar banqueiros falidos era o mote preferido de FHC, Serra e Serjão”, disparou o texto. O poema ainda mirou na suposta tentativa dos tucanos de privatizar a Petrobras — mesmo que a intenção seja recorrentemente negada pelo partido. Enquanto o texto era declamado, Dilma acompanhava a apresentação, recitando em voz baixa o cordel. No fim, sorriu ao escutar a frase: “Tú é (sic) a mãe do Brasil”.

Palanque
Prevendo o enquadramento do encontro como antecipação de campanha, o diretor da FUP, Adelmir Caetano, ainda tentou justificar a festa, mas acabou, ele próprio, declarando a posição eleitoral da entidade. “Não estamos dando palanque. A companheira conquistou (esse espaço). A Federação Única dos Petroleiros, com os movimentos sociais e as entidades sindicais, soube apontar o rumo (do Brasil). E o rumo é a companheira Dilma Rousseff.” Em sequência, a entidade exibiu um jingle para homenagear Dilma. “O Brasil segue em frente, Dilma, Dilma. Mulheres da FUP estão com Dilma para o Brasil seguir em frente. Mulher é pra gerar, mulher é pra brilhar, mulher é pra brigar. Dilma, Dilma, Dilma, mulher é pra sonhar”, dizia a produção dos petroleiros.

Durante os discursos, a associação dos tucanos com a privatização de estatais foi tecla recorrente. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, chegou a propor uma acareação com o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, sobre a tentativa do governo FHC de vender a Petrobras. “A estratégia deles é comer pelas beiradas, como se fosse mingau. (Geraldo) Alckmin chegou a vestir aquela jaquetinha ridícula na campanha de 2006, com bótons da Petrobras, de Furnas, do Banco do Brasil, tudo em vão. Posso provar que fazia parte do plano deles para a Petrobras vender fábricas de fertilizantes e refinarias”, acusou Dutra.

Com o palanque reforçado pelos apoiadores, Dilma acabou sendo a palestrante mais comedida da plenária. Abusando do tom técnico, ela abriu brechas no discurso para elogiar os petroleiros, classificados como a “pátria de capacete e macacão”. Em contrapartida, falou em redistribuição de renda por meio da exploração de petróleo na camada pré-sal e citou a posição da Petrobras como operadora principal da futura extração, segundo o marco regulatório do petróleo em tramitação no Congresso Nacional. Embora mais tolhida, a ex-ministra da Casa Civil também criticou, indiretamente, os tucanos, e ironizou o slogan da pré-campanha de José Serra: “O Brasil pode mais”. “Nós somos aqueles que acreditam que a história não acabou. Não somos aqueles que se acomodam com o que já foi feito. Nós podemos fazer mais.”

1 - Condenações

Por duas vezes, a pré-candidata à Presidência Dilma Rousseff foi multada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por antecipação de campanha. Os ministros impuseram um total de R$ 10 mil de multas pelas infrações. Dirigentes sindicais que anteciparam o apoio à petista também foram penalizados. Somente um evento de metalúrgicos de São Bernardo do Campos (SP), em abril, rendeu seis multados, além de Dilma e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, as penalidades somaram R$ 53,5 mil.

Serra promete “pegar leve”

Dilma discursa no evento: dirigente da FUP chegou a alertar os petroleiros sobre a legislação eleitoral(foto: Janine Moraes/Esp. CB/D.A Press )
Dilma discursa no evento: dirigente da FUP chegou a alertar os petroleiros sobre a legislação eleitoral (foto: Janine Moraes/Esp. CB/D.A Press )
O pré-candidato tucano à Presidência, José Serra, afirmou que seu estilo não será agressivo durante a campanha eleitoral e também negou que o PSDB tenha cobrado postura mais incisiva do ex-governador paulista. “Tenho o meu estilo, sou do jeito que eu sou. Campanha eleitoral, para mim, é uma oportunidade para apresentar ideias, para apresentar propostas para o Brasil”, disse, em entrevista a uma rádio do Paraná gravada na noite de quinta-feira e divulgada ontem.

Apesar da declaração, Serra reforçou que não deixará de debater propostas nem apresentar diferenças entre as candidaturas e as propostas de governo tanto dos tucanos quanto dos rivais. E também não deixará as críticas de lado.

Na entrevista, por exemplo, ele voltou a abordar o tema de venda de entorpecentes no país e atacou as políticas públicas para o setor. Para o tucano, o governo federal “não mergulha” como deveria no problema do tráfico de drogas e contrabando de armas, cujo controle é de sua responsabilidade. “Acho que o governo federal deveria compartilhar com os estados as responsabilidades na segurança. Tem que entrar como ator, e não como espectador”, afirmou, ressaltando que, caso eleito, criará o Ministério de Segurança Pública.

Ainda ontem, Serra viajou à Paraíba. Em Campina Grande, afirmou que seu plano de governo não é composto apenas por ações que só “saciam a fome dos brasileiros, como tem feito o atual governo federal, por meio de vários programas sociais, mas também pela criação de mecanismos para reforçar a educação e a geração emprego e renda para os jovens que são o presente da nação brasileira”. No fim da tarde, ele foi a João Pessoa, onde gravaria programas televisivos. A volta para São Paulo estava prevista para as 22h.

TSE MULTA LULA PELA QUINTA VEZ
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aplicou ontem a quinta multa ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva por propaganda antecipada em favor da pré-candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff. Ainda cabe recurso contra a decisão do ministro Henrique Neves, que fixou a sanção em R$ 7,5 mil. Desta vez, a punição a Lula se refere a um evento da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no Dia do Trabalhador. Também ontem, chegou ao gabinete de Henrique Neves uma representação na qual a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) pede multa de R$ 25 mil ao PSDB por veicular propaganda eleitoral negativa contra Dilma, no site www.gentequemente.org.br. Na ação, a vice-procuradora-geral eleitoral, Sandra Cureau, pede a cassação dos comentários e a suspensão, por 24 horas, do acesso a todo o conteúdo informativo do site. “Os comentários transcritos na presente representação extrapolam a liberdade de manifestação do pensamento na internet e o direito de crítica relativo à atuação administrativa de Dilma e do governo atual, inerente à atividade política, caracterizando verdadeira propaganda extemporânea”, destacou a procuradora.

A estratégia deles é comer pelas beiradas, como se fosse mingau. (Geraldo) Alckmin chegou a vestir aquela jaquetinha ridícula na campanha de 2006, com bótons da Petrobras, de Furnas, do Banco do Brasil, tudo em vão. Posso provar que fazia parte do plano deles para a Petrobras vender fábricas de fertilizantes e refinarias”
José Eduardo Dutra, presidente do PT

Nós somos aqueles que acreditam que a história não acabou. Não somos aqueles que se acomodam com o que já foi feito. Nós podemos fazer mais”
Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência

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