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Correio Braziliense

Serra apela ao Nordeste

Mais do que tentar mudar a imagem entre os eleitores, tucano cobra a paternidade de uma série de iniciativas que beneficiaram a região. Algumas não são passíveis de comprovação, outras divergem dos dados oficiais


postado em 06/06/2010 07:00

Brasília e Recife — O ritmo de uma campanha presidencial, quando aterrissa no Nordeste, requer malabarismos pouco usuais aos candidatos que não são da região. Usar traje folclórico? Comer bode assado? Dançar forró e até montar em jegue? Quase tudo é válido. Na tentativa de agradar os eleitores, os presidenciáveis não dispensam a cartilha. E os candidatos desta eleição já iniciaram a maratona pela região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contabiliza índices de popularidade invejáveis.

Com uma missão ainda mais complicada — a de afastar o estigma de político sulista —, o pré-candidato José Serra (PSDB) adicionou item extra ao manual de conquista do eleitor do Nordeste. Surpreendeu ao declarar, em entrevista a uma rádio no Recife, que era o real autor de várias medidas que beneficiam a região. “Do meu ponto de vista, vou dizer sem qualquer papo. Individualmente, de fora do Nordeste, eu talvez tenha sido quem, na vida pública, mais fez pelo povo daqui.” Um depoimento que, na verdade, é impossível de ser checado com precisão.

O Correio foi em busca de algumas das iniciativas de que Serra cobra a paternidade. A primeira delas é o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FNDE). Criado quando o pré-candidato era constituinte (1987/1988), o fundo destina 2,4% da receita anual do IPI e do Imposto de Renda para o Banco do Nordeste. “Era relator e propus essa ideia. Tinha lá um dinheiro sobrando e o pessoal queria distribuir para os governos, que iam ficar aumentando máquina”, já disse Serra, em algumas entrevistas. Em 2002, foram alocados R$ 660 milhões do Fundo. A partir de 2003, a alocação anual de recursos do Tesouro Nacional é equivalente ao previsto no orçamento. Esse cálculo vale até 2013.

O fundo faz parte de uma política de reformulação do planejamento no Nordeste, desde o governo FHC, que incluía a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Inúmeras fraudes e denúncias de irregularidades levaram ao fim da superintendência, que Serra agora promete recriar. Na verdade, em 2002, também estava nos planos do tucano “criar uma nova Sudene, de maneira sólida. Algo bem-feito”. Em visita recente a Pernambuco, o ex-governador de São Paulo prometeu reformular e controlar pessoalmente a Sudene.

Crédito
Como ministro do Planejamento, o tucano pleiteia ainda o Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur) e o ProÁgua (Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos). Serra afirma que foi ele “quem botou para andar” os programas. Na época, disse ter buscado financiamento de US$ 330 milhões junto ao Banco Mundial para obras hídricas na região. “Fui eu que bolei, negociei com o Banco Mundial. Tem investimento até recentemente do ProÁgua.” O primeiro é um programa de crédito, ligado ao Banco do Nordeste. O segundo é vinculado atualmente ao Ministério da Integração Nacional. Os investimentos previstos são de U$ 330 milhões, financiados pelo Banco Mundial, JBIC e governos federal e estaduais. Os dois foram encampados pela gestão do presidente Lula.

Em suas viagens aos estados do Nordeste, Serra versa sobre o serviço público de saúde prestado aos nordestinos. Em Pernambuco, ele diz que encontrou 97 equipes do Programa de Saúde da Família (PSF) assim que assumiu o Ministério da Saúde, em fevereiro de 1998. “Quando eu saí, deixei 1.158 equipes”, disse, ressaltando que a mortalidade infantil caiu como “nunca antes” e como “nunca depois”.

Os números apresentados pelo tucano não batem com os dados oficiais da Secretaria de Saúde de Pernambuco. O governo do estado informou que 240 equipes do PSF atuavam em 1998 (10,6% de cobertura da população). Em 2002, o quantitativo era de 1.186 equipes (51,09%). Em março deste ano, o quantitativo era de 1.871 equipes (73,71% da população atendida). O governo estadual informou que, em 1998, o índice técnico de mortalidade com crianças de até um ano de idade foi de 34,5 óbitos para cada mil nascidos no estado, contra 26,3 em 2002. Em 2009, o índice parcial caiu para 16,6 mortes.

Legítimo
O estado é uma espécie de símbolo da Região Nordeste para os tucanos. Além de ser a terra natal do presidente Lula, lá Serra tem palanque com a candidatura do ex-governador Jarbas Vasconcellos (PMDB). Em 2002, não foi diferente. Em junho daquele ano, foi duas vezes ao estado. Como promessa, disse estudar a possibilidade da transposição do Rio São Francisco, bandeira de Fernando Henrique Cardoso abandonada durante o governo e restabelecida pelo presidente petista. Hoje, o ex-governador paulista defende a transposição do rio.

Na época, Serra declarou que a região era a chave para o crescimento do país e a receita estaria nas exportações. O discurso vem sendo mantido nesta pré-campanha. Serra tem criticado a infraestrutura do país, especialmente de portos e aeroportos. Um dos exemplos negativos mais citados é o porto de Salvador e o positivo, o de Pecém, no Ceará, que ele destaca ter sido concretizado na sua gestão no Ministério do Planejamento. “Portanto, tenho coisas para mostrar. Acho legítimo falar daquilo que fiz”, diz, completando com o lema da sua campanha: “Ainda há muitas coisas para serem feitas. O Nordeste pode mais”.

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