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Correio Braziliense

Ajuste de mira nos discursos dos presidenciáveis

O tempo de paz e amor que chegou a ser insinuado em momentos da pré-campanha deu lugar a uma etapa de críticas mais ácidas e diretas


postado em 16/07/2010 07:35 / atualizado em 16/07/2010 08:30

A primeira semana de campanha oficial e efetiva, depois da parada da Copa do Mundo, mostra que dois dos principais candidatos à Presidência aproveitaram as últimas semanas para apimentar o discurso e mirar o eleitorado. José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) iniciaram a corrida com ajustes consideráveis nas críticas a Dilma Rousseff (PT) e ao governo federal. Nos últimos dias, ambos abandonaram o tom “paz e amor” que caracterizou a pré-campanha, mas dava mostras de esgotamento há um mês. Já a petista manteve a toada arquitetada pelos marqueteiros de campanha e continuou com a estratégia de caracterizar as eleições como uma disputa plebiscitária entre governo e oposição.

A mudança de rumos foi constatada especialmente na campanha tucana. Até aqui, a estratégia de Serra teve três momentos. No início, o candidato economizava nas críticas. Depois, decidiu centrar fogo em Dilma e no governo federal, sem trombar com o nome e a popularidade do presidente, Luiz Inácio Lula da Silva. Nos últimos dias, contudo, o tucano engrossou a voz contra o presidente e a ex-ministra da Casa Civil. O principal foco das críticas são as áreas de saúde e de segurança pública, exatamente os calos do governo petista, segundo as pesquisas internas encomendadas pelos tucanos.

Nos últimos dias, Serra disse que a candidata petista não “conseguia andar com as próprias pernas”. Criticou Lula abertamente por utilizar a máquina governamental na promoção da pupila. Para atingir Dilma, centrou fogo em falhas técnicas do governo federal, como as do edital para construção do trem-bala. A meta é desconstruir a imagem de boa gerente da candidata. “Sempre houve indecisão na campanha tucana sobre qual seria o melhor volume de críticas contra o governo. O Serra começou a receber uma forte pressão dos aliados nas últimas semanas para adotar um tom mais ácido, que é um caminho natural, mas talvez precipitado”, afirma o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB).

Por esse raciocínio, a tática do confronto aberto contra a petista seria uma decisão que reflete o maior espaço do núcleo político formado pelo PSDB e pelos aliados PPS e DEM, em detrimento dos marqueteiros da campanha. “Era natural que as críticas crescessem. Precisamos marcar posição frente ao governo atual”, explica o coordenador da campanha do PSDB, o senador Sérgio Guerra (PE).

Antecipação
No caso de Marina Silva, a mudança foi mais sutil, mas é perceptível. A candidata verde iniciou a pré-campanha tentando conseguir um naco da popularidade do governo Lula — de quem foi ministra do Meio Ambiente por seis anos. A estagnação nas pesquisas e a proximidade do horário eleitoral, em que Marina pouco deve aparecer, fizeram com que a senadora acreana antecipasse as críticas mais severas a Lula e a Dilma, geralmente guardadas para a reta final da campanha. Em cinco dias, ela disparou contra os programas de governo de Serra e de Dilma, classificando os documentos como um “conjunto de discursos e falas”. Nas falas, também mirou Lula. “Não é pelo fato de ser mais ou menos aceito ou mais carismático que tem o direito de extrapolar a lei.”

A mudança de discurso constatada nos dois concorrentes ainda não provocou alteração radical na estratégia da candidata governista ao Planalto. De acordo com especialistas, a ex-ministra segue o ritmo ditado e previsto pelo núcleo central da campanha. Repletas de ironias, as falas reforçariam a imagem de retrocesso, caso Serra fosse o presidente. “Dilma vem seguindo as orientações do Antônio Palocci e do marqueteiro João Santana à risca. Mudou a própria imagem, só aparece em eventos arquitetados para ela. Não há nada na campanha dela que não tenha sido arquitetado previamente”, diz Barreto.

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