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Correio Braziliense

A árdua tarefa da militância virtual

Manuais de mobilização pela internet elaborados por tucanos e verdes trazem sugestões pouco plausíveis de serem seguidas pelo eleitor comum. Petistas lançarão sua versão na semana que vem


postado em 23/07/2010 07:00 / atualizado em 23/07/2010 01:52

Uma das principais novidades desta eleição, a mobilização social pela internet faz brilhar os olhos de 10 entre 10 candidatos à Presidência. Dos vários nanicos aos três favoritos, Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), todos anunciam que a estratégia virtual ocupará cadeira privilegiada nos comitês. As candidaturas anunciam cartilhas cercadas de conselhos para a mobilização de votantes. A de Dilma deve ser lançada na próxima semana. As de Serra e Marina já estão disponíveis e sugerem tarefas quase impossíveis à maioria. De bate-papos pré-moldados à guerrilha virtual, seguir o passo a passo à risca é tarefa que consome horas diárias — e reúne ações um tanto inusitadas.

Postos sobre a mesa, os guias de mobilização de Serra e Marina contêm algumas semelhanças e um caráter radicalmente oposto. As propostas sugeridas pelo tucano são mais objetivas e flertam sempre com o número 45 — exatamente o utilizado pelo candidato na urna. Já a verde apresenta sugestões programáticas — quase um manual de autoajuda. O texto de Serra indica que cada simpatizante tem de replicar 45 mensagens de Serra para amigos via Twitter, por dia. Sem medir a dificuldade da tarefa, o texto sugere que cada simpatizante consiga um número mínimo de votos para o candidato. Quantos? 45, claro. Para não fugir dos numerais “tucano-cabalísticos”, o voluntário ainda tem de atrair 4 ou 5 pessoas para a comunidade virtual.

As dicas para o simpatizante conseguir novos apoios incluem conversas, ressaltando a participação do tucano na criação do Bolsa Família — o manual chega a pedir que os eleitores liguem e escrevam cartas para os meios de comunicação. Propõe, ainda, que se utilize o envio em larga escala de e-mails de campanha. Aos que ostentam dotes artísticos, composições, desde que postadas no

Youtube, são bem-vindas. Aprender a fazer reportagens fotográficas e entrevistas para o portal também vale.

Até aqui, o excesso de mobilização só produziu um fato de repercussão: as trapalhadas do vice, Índio da Costa (DEM), que associou petistas ao narcotráfico (leia mais na página 5). Diariamente, o Mobiliza PSDB lança um desafio aos “mobilizados”. Ontem, os integrantes da rede deveriam twittar #serra45 até que a mensagem aparecesse nos tópicos mais vistos do Brasil. Até o início da noite, a missão não tinha sido cumprida. Ao fim do dia, a rede deveria se encontrar em uma conversa ao vivo na internet para um balanço. O bate-papo ocorre, diariamente, às 20h30. Ontem, nesse horário, as imagens ao vivo da “Embaixada Mobiliza” mostravam apenas um grupo de jovens ao som de Britney Spears e Beyoncé.

Cataventos
O Movimento Marina Silva, responsável pelo manual verde, adota um tom quase poético nas propostas. A principal passa pela produção de cataventos — símbolo da campanha. Caso o simpatizante “rezasse” a cartilha à risca, exibiria o objeto nas janelas dos ônibus e dos carros. Ainda, faria tatuagens temporárias da candidata, dessas encontradas em embalagens de chiclete. Montaria uma banquinha na praça, com adereços da candidata e ali permaneceria para conversar com potenciais eleitores. “São apenas sugestões, sabemos que é difícil as pessoas seguirem tudo. Na verdade, acreditamos que pelo menos algumas dessas ações possam contagiar outros possíveis eleitores da Marina”, pondera o criador do Movimento, Eduardo Rombauer.

Para os especialistas, a mobilização pela internet não passa de miragem. A utilização de redes sociais, e-mails e blogs deve atrair um número ínfimo de eleitores. Tudo porque a própria inserção da internet no país é tímida. A estratégia virtual deve ter sucesso, segundo eles, na tarefa de instruir internautas a mobilizar simpatizantes pessoalmente. “O interessante é que eles estão utilizando a internet para incentivar a mobilização pessoal. Nesse ponto, a tática funciona. A cartilha, com esse fim, pode influenciar significativamente”, diz o cientista político Ricardo Caldas, da UnB.

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