Os candidatos a presidente da República aproveitam os últimos dias anteriores aos debates e ao horário eleitoral gratuito de rádio e TV para tentar tirar a diferença onde o adversário predomina. Na última semana, por exemplo, a candidata do PT, Dilma Rousseff, investiu no Sul do país, única região em que ela apresentou queda na pesquisa de intenção de voto divulgada na sexta-feira pelo Ibope. Enquanto isso, o tucano se dedicou a caminhadas em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde a petista aparece com uma vantagem de 19 pontos percentuais sobre Serra.
No Sul, Dilma caiu de 35% para 31% segundo o Ibope, enquanto Serra subiu de 42% para 46%, o que elevou de sete para 15 pontos percentuais a diferença entre os dois candidatos. Coincidentemente, o presidente Lula concentrou a sua agenda em cidades sulistas na semana passada. O presidente foi a Santa Cruz do Sul (RS), onde visitou microusinas de biodiesel e falou da produção de alimentos. De lá, seguiu para Porto Alegre, onde participou de comício com Dilma. Ontem, Lula e Dilma apareceram juntos novamente em Curitiba onde o presidente prometeu ajudar o candidato a governador, Osmar Dias (PDT).
Nos dois discursos nos palanques sulistas, Lula criticou as ;elites; e fez apelos ao voto feminino. ;O Paraná poderia contribuir e ser um estado que ajudou a vencer o preconceito contra a mulher. Afinal o governo da Dilma não terá a minha cara. Terá a cara dela e mais mulheres no governo;, disse. ;Somos diferentes das elites. Se alguém tem simpatia por mim, é só comparar o que somos hoje com o Brasil de 2002. Em que momento da história fomos tão respeitados?;, discursou Lula.
Enquanto isso, no Rio, Serra caminhou por mais de três horas ao lado do prefeito de Duque de Caxias, José Camilo Zito dos Santos (PSDB), e do candidato a vice presidente, deputado Índio da Costa (DEM-RJ).
Estratégias
Negociadores políticos dos candidatos afirmam que a ideia é aumentar o número de visitas aos estados em que as pesquisas mostram alguma desvantagem e nos discursos tentar buscar uma identidade entre eles e a região. Foi o que fizeram ontem. Dilma lembrou suas visitas ao Paraná na época da ditadura e disse que a região lhe trazia muitas lembranças. O PT estadual tratou de divulgar fotos em que Lula aparecia na região da Boca Maldita nos anos de 1980 quando tentava divulgar o recém-nascido PT. Serra por sua vez citou diversas vezes durante a caminhada que se preocupa com o Rio e que demonstrou isso ao escolher um vice carioca. Nas conversas com os fluminenses, o candidato garantiu que pretende prestigiar o estado e que a chapa com Índio da Costa é a prova disso.
Os analistas políticos consideram normal o fato de os candidatos escolherem terrenos onde o adversário está melhor. ;Serra ainda tem o que crescer no Sul, assim como Dilma tem um palanque melhor no Rio. É natural que trabalhem agora para reduzir as diferenças e reforçar onde estão bem;, diz o cientista político Antônio Lavareda, da MCI, que tem analisado as pesquisas com uma lupa.
Lavareda atribui a diferença de 20 pontos percentuais entre Dilma e Serra no Rio ao fato de Gabeira ter apenas 14% na última pesquisa do Ibope. E para completar, esse percentual de Gabeira está hoje dividido entre dois candidatos a presidente, o tucano e a senadora Marina Silva, do PV. Não dá para esquecer ainda que o Rio serviu de palco para o primeiro comício com a presença de Lula, onde o governador-candidato, Sérgio Cabral, aparece com 58%. Se a eleição fosse hoje, Cabral venceria no primeiro turno.
Serra ainda tem o que crescer no Sul, assim como Dilma tem um palanque melhor no Rio. É natural que trabalhem agora para reduzir as diferenças e reforçar onde estão bem;
Antônio Lavareda, cientista político
O número
5
pontos percentuais é a vantagem de Dilma sobre Serra, segundo o Ibope
Análise
Tática arriscada
A estratégia de jogar no campo do adversário pode ajudar, mas alguns especialistas a consideram meio arriscada. No caso de José Serra, há quem recorde que ele tem um terreno mais promissor para ampliar a diferença sobre Dilma Rousseff, que é São Paulo, o estado que governou.
O Ibope apresentou o candidato tucano ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, com 50% das intenções de voto, e Aloizio Mercadante (PT), com 14%. Serra apareceu com 44% e Dilma com 33%, uma diferença de 11 pontos percentuais. Como em São Paulo, cada ponto são 300 mil votos, são 3,3 milhões de votos de vantagem para Serra.
O PSDB já calculou que precisaria de uma vantagem acima de 6 milhões de votos em São Paulo para compensar a vantagem de Dilma no Norte e Nordeste e Centro Oeste. Se conquistar os seis pontos percentuais que o separam de Alckmin, Serra terá bem mais do que essa margem de seis milhões. (DR)