postado em 02/01/2011 08:24
A vida, lembrou a nova presidente do Brasil, Dilma Rousseff, é assim: ;Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta;. Ao recorrer ao conterrâneo Guimarães Rosa, ela ainda encerrou: ;O que a vida quer da gente é coragem;. Desde às 16h49 de ontem, quando recebeu a faixa presidencial das mãos do agora ;ex; Luiz Inácio Lula da Silva, a vida de Dilma esquentou e apertou. Desinquietou de vez. E, acima disso tudo, vai demandar excesso de coragem.Pela primeira vez em 121 anos de República Federativa do Brasil, do alto dos seus quase 56 milhões de votos, uma mulher foi empossada presidente. ;A vontade de mudança de nosso povo levou um operário à Presidência. A força dessas transformações permitiu que vocês tivessem uma nova ousadia, colocar pela primeira vez uma mulher na Presidência do Brasil;, destacou.
Mas a coragem a que se referiu Dilma ultrapassa as barreiras do gênero. No primeiro dia do resto da sua vida, aquele em que, enfim, começou a se desvincular da imagem de Lula, a presidente do país reforçou suas convicções na continuidade ; palavra recorrente nos dois discursos proferidos durante as solenidades de ontem, tanto no Congresso Nacional quanto no Palácio do Planalto. Continuidade com personalidade própria, ao que tudo indica. Ontem mesmo, ela abordou questões importantes da sua futura administração, como a solidificação da classe média, erradicação da pobreza e ampliação do ProUni.
;Não venho para enaltecer minha biografia, mas para glorificar cada mulher brasileira. Meu compromisso é honrar as mulheres, proteger os mais frágeis e governar para todos;, discursou.
Mas Dilma tem consciência de que a tarefa não é simples. O ;governar para todos; ; ela mesma fez inúmeras referências ; significa dar sequência à superlativamente aprovada gestão Lula. ;Um presidente que mudou a forma de governar. E minha missão agora é consolidar essa passagem;, admitiu. ;Já fizemos muito nos últimos oito anos, mas ainda há muito por fazer. E foi por acreditar que nós podemos fazer mais e melhor que o povo brasileiro nos trouxe até este momento;, completou.
O que Lula serviu e ainda servirá para o bem neste novo governo Dilma também servirá para um mal perigoso e, de certa forma, inevitável: o da comparação. A primeira de muitas estampou-se claramente no gramado da Esplanada dos Ministérios: aproximadamente 30 mil pessoas acompanharam a cerimônia de posse, menos de 25% da multidão que saudou a chegada do ex-metalúrgico ao Planalto em 2003.
Com aprovação pessoal na casa dos 87% e um modo peculiar de governar, com o qual a população se identificava facilmente, Lula fez esforço para não roubar a cena ontem. Tanto que retirou-se rapidamente, logo após a transmissão da faixa. Mas nem isso foi suficiente. Acabou sendo dele a imagem mais emocionante do dia, quando atravessou a rua que separa o Planalto da Praça dos Três Poderes, para chorar e despedir-se nos braços do povo. ;Conviver todos esses anos com o presidente Lula me deu a dimensão do que é um líder apaixonado pelo seu povo. A alegria que sinto pela minha posse se mistura com a emoção de sua despedida;, havia ressaltado Dilma minutos antes.
A transmissão de cargo na Presidência da República marcou também uma mudança clara de estilo. Se Lula pontuou sua gestão pela espontaneidade, Dilma permite-se raros arroubos. Ontem, limitou-se a dois. Um no discurso do Congresso, quando chorou ao referir-se àqueles que combateram a ditadura, e outro já no Planalto, quando em um gesto não previsto pelo protocolo, beijou a bandeira brasileira que era segurada por um dos militares. Uma terceira ousadia também pôde ser notada. Em seu primeiro dia, ela já inaugurou um novo bordão. Sai o ;companheiros e companheiras; e entra o ;queridos brasileiros, queridas brasileiras;.
A primeira mulher presidente do Brasil, cuja a trajetória desinquietou de vez desde ontem, parece entender que a nova vida vai lhe cobrar um pouco mais do que apenas coragem.