Pouco mais de três meses após a crise no Ministério dos Transportes, que defenestrou a cúpula do PR da máquina pública federal sob a acusação de corrupção, licitações fraudulentas e sobrepreço em contratos, o Partido da República virou ;alvo de cobiça; das maiores legendas do país. E o interlocutor preferencial é o deputado Valdemar Costa Neto (SP), apontado pelo Palácio do Planalto como mentor dos supostos desvios detectados na pasta, no Dnit e na Valec, estatal criada para administrar o setor de ferrovias.
Há duas semanas, o Conselho de Ética da Câmara decidiu não abrir processo contra Valdemar por conta da acusação de cobrança de propina na Feira da Madrugada, em São Paulo. Mesmo assim, PT e PMDB, sem qualquer constrangimento, procuraram Valdemar em busca de apoio para as eleições municipais de 2012. As conversas estão sendo travadas por representantes graúdos dos dois partidos. No caso do PT, o interlocutor inicial é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em busca de apoio para a candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad. Já pelo PMDB, o papel é exercido pelo vice-presidente, Michel Temer.
As negociações com o PT levam em conta dois pontos: além do apoio direto a Haddad, Lula quer neutralizar o desejo do PR de apoiar a senadora Marta Suplicy ; que ainda não desistiu de disputar as prévias internas. O suplente da senadora é o vereador Antônio Carlos Rodrigues, filiado ao PR. Caso Marta vença a eleição, os republicanos teriam mais um senador em Brasília.
Já Temer está empenhado em viabilizar a candidatura do deputado federal Gabriel Chalita. Recém-filiado ao PMDB, ele é visto como a grande chance para o partido voltar a ter um mínimo de representatividade no maior estado brasileiro.
Tempo de tevê
O PR virou centro das atenções, assim como o PP de Paulo Maluf, porque não terá candidato para a prefeitura de São Paulo. Além disso, pelo tamanho da bancada na Câmara, estima-se que o tempo de televisão, que a legenda tenha direito, seja de dois minutos, embora a direção nacional do partido seja cautelosa ao calcular essa ;riqueza; que tem em mãos para negociar.
Articuladores da campanha de Chalita enxergam os atuais movimentos com naturalidade. ;Nesse momento, ninguém está acertando nada com ninguém. Mas também não podemos fechar a porta para qualquer tipo de conversa;, afirmou uma pessoa próxima a Chalita. Segundo esse estrategista, o primeiro partido procurado é o DEM, que, sabidamente, não tem condições de negociar com o PSD de Gilberto Kassab. ;Mas PR e PP são, sim, estratégicos;, completou o peemedebista.
O presidente do PT-SP, deputado estadual Edinho Silva, não acredita que a procura pelo PR de Valdemar, após as atitudes tomadas pela presidente Dilma Rousseff, seja motivo de constrangimento. ;Todas as questões envolvendo o Ministério dos Transportes estão sendo investigadas, não podemos emitir qualquer tipo de pré-julgamento;, defendeu Edinho. Para completar, o dirigente petista lembra que o PR tem outras lideranças nacionais e estaduais que não se restringem unicamente a Valdemar Costa Neto.
Procurada pelo Correio, a assessoria de imprensa da direção do PR afirmou que ;não comenta as manifestações, opiniões, especulações, que digam respeito ao processo eleitoral que só ocorrerá em 2012;. Para a assessoria, além de prematura, ;a abordagem do assunto está vinculada à disposição dos republicanos nos municípios onde o PR participará dos pleitos correspondentes;.