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Estado de Minas

Jader Barbalho assume cargo e promete ser um aliado do governo

Depois de renunciar em 2001 e ter sido barrado pela Lei da Ficha Limpa, senador paraense assume o cargo em meio ao recesso parlamentar, promete ser um aliado do governo e diz que é ''um recruta no fim da fila'', mas dá pitacos sobre a reforma ministerial


postado em 29/12/2011 08:20 / atualizado em 29/12/2011 08:32

Dez anos depois, Jader Barbalho (PMDB-PA) voltou a assumir uma das 81 cadeiras do Senado, posto que perdeu em 2001, após renunciar para escapar de um processo de cassação. Já no primeiro dia, recebeu mimos que não se aplicam aos novatos, como ser empossado em pleno recesso parlamentar e ser escoltado à liderança do PMDB para evitar protestos no Salão Azul. Apresentou-se como “um aprendiz”, “um calouro”, “um recruta” que entra no fim da fila, mas no meio do discurso manso mandou recados ao governo e demonstrou que chega para reforçar as fileiras do PMDB do Senado.


Jader comentou o espaço que o partido tem na Esplanada e disse que a reformulação da divisão dos postos passa por uma negociação dos líderes com o governo, mas atribuiu à presidente Dilma Rousseff a palavra final sobre a reforma ministerial. “Não considero que seja insatisfatório o espaço do PMDB, mas quem deve tomar a iniciativa para conversar sobre espaço é a presidente. Agora, essa questão é uma negociação dos líderes. Não é o PMDB que deve dizer o que quer, e sim esperar o chefe do governo se posicionar primeiro.” O senador empossado ontem também fez questão de ressaltar que, apesar de o partido ter sido aliado do governo durante os oito anos de mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi a chapa composta por Dilma e Michel Temer (PMDB-SP) que selou a união entre PT e PMDB.


Apesar do cuidado com as palavras, Jader disse que pertence à base do governo, mas reservou-se o direito a posições independentes. “Evidentemente que isso (pertencer à base) não me impedirá de eventualmente vir a divergir (do governo). Afinal de contas, devo o meu mandato exclusivamente ao povo do Pará.”


O embate travado na Justiça para assumir o mandato impedido pela Lei da Ficha Limpa engrossa a lista de mágoas do senador, que teve o lugar ocupado pela terceira colocada na disputa de 2010, Marinor Brito (PSol-PA). Ao afirmar que não tem dívidas de gratidão por ter conseguido reaver o mandato, Jader comparou o desafio que enfrentou nas urnas — ao convencer os eleitores a votar em um candidato que teria as indicações anuladas, pois ele se enquadrava nos critérios de inelegibilidade da Ficha Limpa — às disputas históricas que travou com o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (morto em 2007). “Concorri em uma eleição em que a recomendação era não votar em mim, pois o voto seria anulado. Depois do Antônio Carlos, nenhum adversário foi tão difícil. É uma homenagem que eu quero fazer ao Antônio Carlos Magalhães, que disse em uma entrevista que o adversário mais difícil era eu”, lembrou.


Jader criticou os critérios da Lei da Ficha Limpa e afirmou que a regra precisa ser dividida em “duas etapas”. A primeira, segundo ele, já foi encerrada e acabou quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a lei não valeria para as eleições de 2010. A segunda, continua o raciocínio, começa agora, na análise sobre a aplicabilidade da regra que veta a candidatura de políticos com condenações. “É como revogar a lei do divórcio e enquadrar você como bígamo”, comparou.
Cartas ao Supremo

Questionado sobre a influência negativa que cartas endereçadas a ministros do STF tenham provocado, adiando sua posse, o senador do PMDB afirmou que o conteúdo das missivas era respeitoso. Jader é o último dos barrados pela Ficha Limpa a retomar o cargo no Senado. João Capiberibe (PSB-AP) e Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) tiveram mais rapidez no resultado dos recursos. “É uma interpretação equivocada, mandei uma carta altamente respeitosa, não há uma expressão sequer”, disse, negando a pressão ao relator do processo, ministro Joaquim Barbosa.


Às vésperas da decisão do Supremo que determinou a posse de Jader, senadores da cúpula do PMDB se empenharam para fazer valer para o colega decisão que os magistrados tomaram favoravelmente a outros dois parlamentares também enquadrados no critério da Ficha Limpa. Ontem, na cerimônia de posse que ocorreu na presença de representantes da Mesa Diretora, apenas o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), participou. O presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), foi substituído pela vice, Marta Suplicy (PT-SP), que deu posse a Jader. Considerado um dos principais aliados do novo senador na Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL) também faltou à cerimônia, mas funcionários do gabinete do líder do partido no Senado prestaram suporte a Jader.

 

O caçula e as travessuras

Jader Barbalho (PMDB-PA) recrutou os dois filhos mais novos para acompanhá-lo na missão de enfrentar a primeira coletiva de imprensa na volta ao Senado. Daniel, de 9 anos, sentou-se à direita do pai e Giovana, de 15 anos, à esquerda. Em vez de encontrar apoio familiar na presença das crianças, o filho mais novo de Jader deixou o peemedebista em saia-justa. Para matar o tédio, Daniel passou o tempo fazendo caretas e “chifres”. Empolgado com a metralhadora de perguntas dos repórteres, Daniel levantava o dedo para também interrogar o pai e arriscou, até mesmo, perguntas incisivas. “Qual foi a maior denúncia de outro vereador do PMDB?”, perguntou ao pai durante a coletiva. “Que vereador, rapaz, é senador”, retrucou Jader, emendando que se arrependeu da hora em que decidiu levar o caçula para a solenidade.

 

Bate-boca histórico

Em 5 de abril de 2000, Jader Barbalho (PMDB-PA) protagonizou um dos duelos mais marcantes já registrados no plenário do Senado ao entrar em guerra aberta com Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), que morreu em 20 de julho de 2007. Diante de uma plateia de parlamentares em constrangido silêncio, os dois trocaram insultos na tribuna, em um espetáculo transmitido ao vivo pela TV Senado.


No ápice de uma tensão que já se arrastava por semanas, ACM comunicou que entregaria à Mesa Diretora da Casa um dossiê contra Jader, que reagiu de pronto. Em um discurso, desfiou as passagens menos abonadoras da vida política do senador baiano. Chamou-o de “corrupto”. ACM retrucou: “Vossa Excelência é um ladrão”, disse a Jader. A contenda refletia o embate entre os dois partidos, PMDB e PFL, pelo direito de exibir as credenciais de aliado preferencial do governo de Fernando Henrique Cardoso.


Nenhum dos dois sairia ileso do confronto. ACM renunciou ao cargo para evitar ser cassado por conta do escândalo envolvendo a violação do sigilo do painel eletrônico no Senado, durante a votação do processo de cassação do então senador Luiz Estevão.


Meses depois era o senador peemedebista que deixava o Senado pela porta dos fundos, também buscando escapar de um processo de cassação. Acabou fulminado pela avalanche de denúncias em torno do desvio de recursos do Banco do Estado do Pará (Banpará) e de irregularidades com financiamentos da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

 

Sobe e desce

Saiba quem ganha e quem perde com a chegada de Jader Barbalho ao Senado

GANHA

Renan Calheiros
O líder da bancada do PMDB no Senado, agora composta por 18 senadores, enfrentava a oposição de um grupo de descontentes conhecido como o Grupo dos Oito, que articulava a saída dele da liderança do partido e resistia ao núcleo de influência formado por Renan, mais o presidente do Senado, José Sarney (AP); o líder do governo na Casa, Romero Jucá (RR); e o presidente do partido, Valdir Raupp (RO). O núcleo, agora, é reforçado com a chegada de Jader Barbalho. Renan deve ser reconduzido à liderança da legenda. Com isso, manterá, ao lado de Sarney e Jucá, a interlocução do PMDB com o Palácio do Planalto.

PT
Apesar de ter rompido com a ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa (PT), Barbalho mantém bons laços com o PT e é próximo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o que pode ajudar a reduzir as tensões entre as duas siglas no Congresso, em ano de eleições municipais.

Simão Jatene
Com a saída de Marinor Brito (PSol), a bancada paraense no Senado perde a única integrante que pertencia à oposição ao governador Simão Jatene (PSDB). Aliado do governo tucano no Pará, o PMDB tem fôlego para colaborar com a pauta do Executivo estadual no Congresso.

José Priante

Pré-candidato à prefeitura de Belém pelo PMDB e primo do senador peemedebista, Priante passa a ter um de seus principais padrinhos políticos no Senado. A influência de Barbalho tem norteado a vida política do deputado, como, por exemplo, assumir a relatoria setorial de Integração Nacional e Meio Ambiente no Orçamento do próximo ano, área cara para o estado do Pará, e terá importância ainda mais definitiva na composição de alianças na eleição municipal.

PERDE


Grupo dos Oito
O grupo de resistência a Renan perde poder de atração e deve ficar reduzido a um Grupo dos Três, representado por Eduardo Braga (AM), Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos (PE).

PSol
Além de ter sua bancada no Senado reduzida a um parlamentar %u2014 o senador Randolfe Rodrigues (AP) %u2014, o partido vê diminuir as chances de seu candidato à prefeitura da capital paraense, o ex-prefeito de Belém Edemilson Rodrigues.

 

 

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