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A imagem da delicadeza: Fotógrafo de Campos era reconhecido mundialmente

Conhecido pelo trabalho dedicado e paciente, Alexandre Severo era autor de imagens que rodaram o mundo


Recife ; Ele gostava quando eu dizia que no jornalismo, assim como no futebol, só há dois tipos de jogador: o que sabe jogar bola e o que não sabe. ;Como é mesmo aquela frase?;, perguntava no meio de qualquer conversa. E eu respondia, dizendo que ele era o meu camisa 10. Abria o sorriso e emendava: ;Eu fico até no banco, mas me coloque no segundo tempo;. Alexandre Severo, de fato, era diferente. Guardo a lembrança de um amigo sensível e contundente. Afiado e informado como poucos.

Alguém lembrou que o Panda, como era conhecido na intimidade, falava beijando. Era exatamente isso. Diria que cada foto de Severo era um beijo. Fotografava com absoluta delicadeza. Um fotógrafo que tinha o tempo dele. Sofisticado e, acima de tudo, respeitoso.

O trabalho de Severo não se esgotava com a publicação. Ao contrário. Depois da foto no jornal, começava o que ele mais sabia fazer: se importar com gente. Voltava à casa dos personagens para saber se estava tudo certo. Lembro que, após se recuperar de um grave acidente, me falou que só não voltaria a andar de moto por causa da mãe. ;A vontade é gigante, mas ela não merece essa aflição. Se eu morrer, ela morre também.;

Brigamos na primeira vez que o conheci. Estava de plantão e recebi a notícia de que um avião de pequeno porte tinha caído na Praia de Maracaípe (PE). Desci correndo para chamá-lo e ele ficou lá arrumando as coisas devagar. Lembro que o chamei de preguiçoso e ele me pediu calma. ;Vá correndo que eu tenho o meu tempo.; Essa foi nossa apresentação. A primeira frase que me disse na vida. Eu não fui correndo. Esperei sentado e valeu a pena. A partir daquele dia, passei a respeitar o tempo de Severo. Era o tempo que não combina com o jornalismo sem cuidado, sem afeto. Era como se ele precisasse refletir alguns minutos a mais para produzir delicadeza.

[SAIBAMAIS]Estreitamos e cultivamos afinidades depois da publicação de ;À flor da pele;, reportagem sobre uma família de albinos que vivia na comunidade V-9, em Olinda. As fotos rodaram o mundo. Severo estava fazendo uma pauta corriqueira, a entrega de casas populares. Passou na correria, viu aquela família brincando, deu um clique e seguiu atrás das autoridades. Quando retornou à redação do Jornal do Commercio, me mostrou a fotografia incrível. Resolvemos retornar ao local. E contamos ao mundo ;a história do contrário;. No caminho de volta para o jornal, ele
olhou as fotografias no carro, falou com empolgação da história que tínhamos acabado de descobrir e disse: ;Joãozinho, parece que jornalismo é isso que acabamos de fazer;. E ele estava certo.

Há três semanas, almoçamos no Beirute e seus olhos brilhavam. Lamentou não poder ir à minha casa para pegar meu filho nos braços. ;Oportunidade não vai faltar. Vou morar aqui;, brincou, dizendo que Eduardo Campos venceria as eleições. Naquele dia, estava realizado e feliz. Falamos da saudade do Recife, dos amigos queridos e do nosso Santa Cruz. Como sempre, ele se despediu com um beijo.