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Odebrecht e Braskem pagaram mais de R$ 3,4 bi em propinas a 12 países

Valores foram revelados no mesmo dia da divulgação da assinatura de acordos de leniência, espécie de delação premiada para empresas

Documentos revelados pelo Departamento de Justiça (DOJ) dos Estados Unidos nesta quarta-feira (21/12) mostram que a Odebrecht e a Braskem pagaram mais US$ 1 bilhão, equivalentes a R$ 3,46 bilhões, em propina em mais de cem projetos espalhados pelo Brasil e outros 11 países, no período entre 2001 e 2016. Do total, aproximadamente R$ 2 bilhões foram repassados a partidos, políticos e servidores públicos no Brasil.

Os valores foram revelados no mesmo dia da divulgação da assinatura de acordos de leniência, espécie de delação premiada para empresas, com a empreiteira e com a Braskem, braço petroquímico da Odebrecht em sociedade com Petrobras. A estatal era dona de 36,1% das ações da Braskem. As companhias terão de pagar em multas R$ 6,9 bilhões, o maior valor já acordado mundialmente, entre os Ministérios Públicos do Brasil, da Suíça e o DOJ.

De acordo com os americanos, somente a Odebrecht repassou US$ 788 milhões (R$ 2,6 biilhões) em propina aos 12 países. No Brasil, a empresa pagou US$ 349 milhões (R$ 1,6 bilhões) a partidos políticos e servidores públicos. Em troca, a construtora lucrou mais de US$ 1,9 bilhões. A empreiteira também pagou cerca de US$ 439 milhões para partidos políticos e oficiais em outros 11 países: Angola, Argentina, Colombia, República Dominicana, Equador, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, Peru e Venezuela. Desse esquema, a Odebrecht recebeu mais de US$ 1,4 bilhão. Já a Braskem promoveu pagamentos no valor de US$ 250 milhões, equivalente a R$ 835 milhões, em valores atualizados pela cotação do dólar.

Os documentos fornecidos pelo DOJ detalham como funcionava o esquema de corrupção, que envolvia fraude e suborno pelo mundo. A Odebrecht tinha atuação em 27 países, inclusive os Estados Unidos. O controle e os repasses eram feitos pela Divisão de de Operações Estruturadas, criada intencionalmente para gerenciar os pagamentos ilegais. O setor é chamado de "bribe departament", ou "departamento do suborno", pelos americanos.

Segundo o documento, a Smith & Nash Engineering Company, uma empresa baseada nas Ilhas Virgens Britânicas, foi estabelecida e gerenciada do Departamento de Operações Estruturadas. A S abriu pelo menos uma conta offshore em nome da Odebrecht. Para esta conta, a Odebrecht transferia quantias de dinheiro de bancos sediados em Nova Iorque, por exemplo. O dinheiro transferido era, então, usado para pagar propina a oficiais. "A S foi usada pela Odebrecht para promover o esquema de propina e ocultar e disfarçar pagamentos indevidos feitos a, e em benefício de, funcionários estrangeiros e partidos políticos estrangeiros em vários países", descreve o documento. O esquema feito com a S foi repetido com outras empresas, como a Arcadex Corporation, incorporada em Belize e a Golac Projects and Construction Corporation, nas Ilhas Virgens Britânicas,

O esquema e a distribuição era controlada por funcionários de cargos elevados na construtora. Funcionários da Odebrecht, que trabalhavam no departamento destinado aos pagamentos ilegais operavam de Miami, na Florida, em encontros e no pagamento das propinas.

Fora do Brasil, os pagamentos eram feitos para assegurar a continuidade de contratos. Para Angola, cita o documento, foram pagos mais de US$ 50 milhões. A empreiteira se beneficiou com aproximadamente US$ 261,7 milhões. Para a Colômbia, foram mais de US$ 11 milhões, e se beneficiou com mais de US$ 50 milhões.

O pagamento era feito por meio de operadores financeiros e doleiros. Usavam também bancos em países pequenos. A construtora fazia pagamentos de taxas elevadas às instituições bancárias e proipina para executivos de bancos.

Acordo recorde

O Ministério Público, junto com o departamento de Justiça (DOJ) dos Estados Unidos, e o Ministério Público suiço fecharam acordos de leniência com a Odebrecht e a Braskem no âmbito da Lava-Jato, após as empresas reconhecerem terem cometido crimes de corrupção. Ambas as empresas concordaram em pagar pelo menos US$ 3,5 milhões em multas, o equivalente a pelo menos R$ 6,9 bilhões. Trata-se, segundo o DOJ, do maior ressarcimento mundial em termos de acordos. As empresas ainda serão monitoradas por cerca de dois anos por integrantes do MP.

Para o Brasil, serão repassados R$ 5,3 bilhões, para a Suíça, R$ 800 milhões e para os Estados Unidos: R$ 800 milhões. Com o acordo, além de pagarem as multas, as empresas fornecerão informações privilegiadas. A Odebrecht pagará R$ 3,828. Os valores serão pagos ao longo de 23 anos. O acordo de leniência já foi homologado na Câmara de Combate à Corrupção do MPF e ainda deverá ser homologada pelo do juiz Sergio Moro, na 13; Vara Federal de Curitiba.

A Odebrecht divulgou nota em que afirma se arrepender dos atos ilícitos e pede desculpas. "A Odebrecht agradece a oportunidade de virar a página e superar esse doloroso episódio", diz a empresa. A Braskem também afirmou reconhecer a responsabilidade e "lamentou" desculpas passadas.


Elogio dos americanos

Em teleconferência nesta tarde, a procuradora americana Sung-Hee Suh ressaltou que este foi o maior acordo já fechado em termos de ressarcimento pelo mundo. O recorde anterior, segundo Suh, foi de R$ 1,8 bilhões. A procuradora ainda elogiou a investigação conduzida no Brasil. "Não podemos agradecer o suficiente. Eles (os investigadores) têm estado sob pressão e feito um trabalho extraordinário, ao iniciar a investigação e continuando. Tem sido parceiros muito bons. Reconhecemos que esse é o caso mais importante do Brasil. E esperamos que o país continuará sendo um parceiro forte para os EUA e a nossa missão anti corrupção", disse.