Jornal Correio Braziliense

Politica

Depois de praticamente extinto, DEM sonha em se tornar um partido grande

Especialistas, porém, dizem que ambiente é instável para apostar em cenários


[SAIBAMAIS];Ninguém investe politicamente em um partido que não tenha um projeto de poder. E, agora, está acontecendo uma possibilidade de ter um presidente a curto prazo. Político pende para onde o poder está;, comenta o doutor em ciência política José Matias-Pereira. Para o professor da Universidade de Brasília (UnB), o crescimento do DEM também se deve ao desencantamento com a classe política pela população, que demonstra cada vez mais repúdio à polarização PT-PSDB, e passa por uma onda mais conservadora. ;Os outros partidos estão indo para o fundo do poço e aqueles que ficam menos afetados nos escândalos acabam se destacando e se saindo melhor;, comenta Matias-Pereira.

O deputado Efraim Filho acredita que a legenda colhe agora os frutos da coerência plantada durante os governos petistas de nunca ter ficado em cima do muro. O líder da bancada na Câmara lembra que a criação do PSD ; pelo hoje ministro da Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab ; levou boa parte dos demistas por causa da firmeza ideológica da legenda. ;Houve um racha no DEM com aqueles que queriam ser governistas. Foi um dos momentos de maior dificuldade, mas importante, porque se criou um filtro na linha ideológica partidária e respondeu às críticas de que o PFL era um partido fisiologista. Hoje há uma unidade.;

Questionado se o plano de chegar à Presidência da República por meio de eleições diretas é muito ambicioso para um partido considerado pequeno, Filho diz que isso é análise da velha política. ;Não me alinho a essa ideia tradicional de que a eleição de 2018 será baseada nas bases. Olha o exemplo do presidente da França, o Emmanuel Macron. Emergiu com conceitos e ideias e um discurso de centro, que é o que o Brasil precisa. A sociedade não aguenta mais polarizações, há um espaço a ser preenchido e o DEM tem condições para isso;, comenta. E já antecipa possíveis nomes: Rodrigo Maia, o senador Ronaldo Caiado (GO) e o prefeito de Salvador, ACM Neto.

Atração


Um dos citados por Efraim Filho, Caiado também afirma que o DEM chega hoje ao ápice em relação à postura e coerência e isso atrai o eleitor que não quer mais políticos sem autenticidade. ;Sempre mantivemos a capacidade combativa e nunca nos curvamos. Fomos os únicos que sobrevivemos dentro de um estado boliviariano mesmo com toda a perseguição. O partido foi assaltado e agora consegue se recuperar, porque é o caminho que a sociedade exige;, acredita. Caiado, porém, é mais cauteloso sobre a disputa para a Presidência, que dependerá da reforma política que o Congresso aprovar. ;Dentro das regras, vamos saber se teremos competitividade para uma candidatura.;

Especialistas acreditam que é muito cedo para afirmar que há um crescimento do DEM. O professor de ciência política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) Geraldo Tadeu Monteiro ressalta que a ascensão da legenda é visível dentro do Congresso, mas não dá para estender isso nível nacional. Nas eleições municipais de 2016, inclusive, o DEM perdeu prefeituras, caindo de 276 para 267 ; ainda assim ficou à frente do PT, que reduziu de 630 para 256 o número de prefeitos. ;O ambiente político está muito instável. E, por razões conjunturais, com a queda do Eduardo Cunha e a articulação de Rodrigo Maia para assumir a Câmara, o partido está em alta, mas não significa ascensão nacional. É um jogo muito mais complexo que isso;, comenta Monteiro.

Memória

;Apesar de, oficialmente, ter sido fundado em 28 de março de 2007, o DEM não é um partido novo e carrega na história momentos de ascensão e queda.
; O DEM foi criado em substituição ao extinto Partido da Frente Liberal (PFL), fundado em 24 de janeiro de 1985, logo após a eleição indireta de Tancredo Neves à Presidência da República. Com a morte de Tancredo, o partido permaneceu ao lado de José Sarney durante os cinco anos de governo.

; A ideologia conservadora nos costumes morais e liberal nos modelos econômicos vem desde a Constituinte de 1946, quando os principais cabeças criaram a União Democrática Nacional (UDN). Com a chegada dos militares ao poder, em 1964, a UDN se transformou em Aliança Renovadora Nacional (Arena), a base de sustentação de apoio aos militares. Da Arena surgiu o PFL. Os principais líderes históricos são Jorge Bornhausen (SC), Antonio Carlos Magalhães (BA), e Marco Maciel (PE), vice-presidente do governo FHC.

; Um dos episódios amargos da história é a prisão do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, em pleno exercício do mandato, na Operação Caixa de Pandora, em 2009. A suspeita era de desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos na Câmara Legislativa. Arruda deixou a legenda em dezembro do mesmo ano.

; O partido já chegou a eleger 118 deputados federais e 231 deputados estaduais, em 1986. Em 1988, teve 1.058 prefeitos. Em 1996, 10.152 vereadores. No fim da década de 1990, exibiu uma bancada de 16 senadores e seis governadores. Em 2011, teve um forte baque com a criação do PSD e a migração de parte da bancada. Atualmente, a sigla conta com 2.907 vereadores, 267 prefeitos, 48 deputados estaduais, 30 deputados federais e 4 senadores.