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Correio Braziliense

Julgamento de Lula influencia pré-candidatos à presidência

Decisão que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região tomará na quarta-feira impacta não apenas o ex-presidente, mas também pré-candidatos ao Planalto de diferentes correntes ideológicas. Políticos de esquerda são os mais interessados


postado em 22/01/2018 06:00 / atualizado em 22/01/2018 08:02

Desdobramentos do julgamento de quarta-feira vão interferir no futuro de cada um dos postulantes ao Planalto(foto: AFP / MAURO PIMENTEL)
Desdobramentos do julgamento de quarta-feira vão interferir no futuro de cada um dos postulantes ao Planalto (foto: AFP / MAURO PIMENTEL)

 

Embora na quarta-feira não seja o último capítulo da novela “Lula presidenciável” em outubro, o julgamento no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, será acompanhada com lupa pelo mundo político e econômico. Pré-candidatos de todos os partidos e correntes ideológicas sabem que, qualquer que seja o resultado definido pelos três desembargadores, os desdobramentos vão interferir no futuro de cada um dos postulantes ao Planalto.

Os efeitos mais diretos estão, obviamente, no campo da esquerda. Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSol), Manuela D’Ávila (PCdoB) e Marina Silva (Rede) sonham em arrebanhar uma parte dos votos petistas caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não saia candidato e seja obrigado a apoiar um outro nome do PT. O PSB, que, desde as eleições de 2014, se divorciou do núcleo petista ao lançar o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos — morto em um desastre aéreo no meio da campanha —, ainda vive o dilema de ter um nome próprio ou aderir à pressão do vice-governador de São Paulo, Márcio França, que defende uma aliança com o PSDB, de Geraldo Alckmin.

“Eu, pessoalmente, acredito que o melhor seria que Lula fosse julgado pelos eleitores. Mas não é nenhuma novidade o fato de o PSB estar procurando um caminho diferente do PT. Fizemos isso não apenas em 2014 (com Eduardo Campos), mas também em 2002 (com Anthony Garotinho)”, recordou o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira.

Para o ex-líder do PT na Câmara, deputado Carlos Zarattini (SP), a polarização das candidaturas de esquerda não deve ser vista como algo ruim. “Eles sempre tiveram projetos próprios. As candidaturas que, por ventura, não tenham vingado não têm nada a ver com a ausência do PT, mas pela falta de forças internas. Na minha opinião, para todos do campo da esquerda, o melhor é que Lula seja candidato”, ponderou Zarattini.

Para o cientista político da Arko Advice Murillo Aragão, a dimensão política do julgamento de quarta-feira não é algo que possa ser desprezado, apesar de não ser o capítulo final da história. “A figura do Lula evoca uma série de questões: a volta dele ao poder, caso consiga concorrer e seja eleito, ressuscita, na memória das pessoas, os erros do governo Dilma e os êxitos do governo dele próprio”. Aragão ainda analisa o aspecto multifacetado do debate. “O caso Lula tem uma dimensão econômica, jurídica e política que aumenta as expectativas em torno da decisão”, apontou.

O professor de história contemporânea da UnB Antonio José Barbosa admite que é difícil, neste momento, traçar prognósticos sobre os efeitos do julgamento. “Historiadores são profetas do passado”, brincou ele. “Mas é claro que tudo vai depender do resultado do julgamento. Se o placar for 3 a 0, as peças vão se movimentar de um jeito. Se for 2 a 1, o movimento será distinto. De qualquer maneira, será uma sentença que vai alterar o jogo eleitoral”, disse Barbosa.

Esse peso acaba recaindo também nas estratégias dos adversários de Lula. Pré-candidato do PSL, Jair Bolsonaro (RJ) — que levantou a hipótese de que a viagem de Lula à Etiópia em 26 de janeiro, dois dias após o julgamento do TRF-4, poderia ser uma tentativa do petista de pedir asilo em caso de condenação — tem se destacado pelas críticas contundentes ao PT e ao ex-presidente. Ao mesmo tempo, há quem diga que ele necessita dessa antítese para se manter vivo politicamente. “Sem Lula, a candidatura de Bolsonaro definha. Ele não tem com quem polarizar de maneira tão intensa”, afirmou o especialista em marketing digital Marcelo Vitorino.

O professor de ciência política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Antonio Celso Pereira afirma que não há como uma decisão de tal envergadura envolvendo Lula acontecer sem abalos no tabuleiro político. “Lula ganhou ares de sacralidade em seus seguidores por tudo que ele representa. Não em termos pessoais, mas em termos de capacidade política, ele equipara-se a Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas. Tem uma intuição invejável, sabe para onde o vento aponta e, mais importante, nunca se coloca contrário a ele”, analisou Pereira.

Para o atual grupo que está no Planalto, uma eleição sem Lula tornaria, em tese, as coisas mais simples. O presidente Michel Temer defende o legado de que assumiu o país, após o impeachment, e conseguiu recuperar os rumos da economia, devolvendo a credibilidade aos investidores nacionais e estrangeiros. Esse discurso de ajuste fiscal para que se abra espaço para o aperfeiçoamento dos programas sociais alimenta as pré-campanhas do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). “Toda a campanha feita até o momento serviu para tornar Lula incendiário. E isso estimula as candidaturas do campo governista. Acharam um meio jurídico para encerrar o capítulo político do impeachment”, afirmou o diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antonio Augusto de Queiroz.

"A figura do Lula evoca uma série de questões: a volta dele ao poder, caso consiga concorrer e seja eleito, ressuscita na memória das pessoas os erros do governo Dilma e os êxitos do governo dele próprio"
Murillo Aragão, cientista político

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