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Correio Braziliense

Condenação de Lula leva PT a buscar alianças nas disputas estaduais

Condenação do ex-presidente Lula leva o partido a buscar alianças nas disputas estaduais para tentar conquistar mandatos eletivos


postado em 31/01/2018 06:00 / atualizado em 31/01/2018 07:55

Gleisi depende de um acordo com o MDB no Paraná para tentar disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Gleisi depende de um acordo com o MDB no Paraná para tentar disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


O PT embrulhou a ideologia e o discurso programático, colocou em uma caixa e guardou no canto a ser aberto depois das eleições. Até lá, o partido vai adotar a tática da sobrevivência e fechar alianças nas disputas estaduais que servirem para, ao menos, colocar a legenda no segundo turno na maior parte dos estados. Ciente de que não terá condições de ser candidato ao Planalto em outubro — ontem mesmo o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou um habeas corpus preventivo —, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está cuidando pessoalmente dos acordos. Ele quer criar um colchão de alianças que evite também o isolamento da legenda no plano nacional.

Até mesmo a presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PR), que tem adotado um discurso duro de confronto com o Judiciário e as legendas alinhadas ao governo Temer, foi domada por Lula. Ela está responsável por ouvir as orientações do ex-presidente e entrar em contato com cada diretório do partido em busca de fechar os acordos necessários. Ela própria está na dependência do MDB paranaense para tentar se eleger deputada. Menos mau para a petista que o aliado é o senador Roberto Requião, tradicional crítico da gestão Temer.

Em outros estados, a parceria com o MDB está de vento em popa. Em Minas, por exemplo, o governador Fernando Pimentel disputará a reeleição tendo como vice o emedebista Toninho Andrade. No Piauí, o governador Wellington Dias, candidato à reeleição, também poderá ter como vice um nome do MDB, Themístocles Filho. Falta a bênção ser concedida pelo presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), que esteve ao lado de Lula, de Dilma, mas, quando a nau petista começou a fazer água, foi a primeira legenda aliada ao Planalto a saltar para o barco de Michel Temer, abrindo espaço para o impeachment.

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Em Alagoas, a militância petista ensaiou um incômodo com as imagens de Lula ao lado do senador Renan Calheiros (MDB-AL) e do governador Renan Filho cruzando o estado quase de mãos dadas. Mas foi só Lula ir embora que os petistas correram para os braços do MDB alagoano. Foi preciso uma orientação da direção nacional do partido para colocar um freio no adesismo e avisar que nenhuma decisão será tomada sem antes o comando partidário se posicionar oficialmente.

O desejo de Lula é se esforçar ao máximo para evitar o isolamento da legenda que fundou na década de 1980. Ele sabe que as sucessivas derrotas, no plano criminal — a pá de cal do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) só deverá ser dada em agosto — afastaram antigos parceiros. O PDT não abrirá mão da candidatura presidencial de Ciro Gomes.

Barreira

O PCdoB, cada vez mais, aposta no nome da deputada estadual Manuela D’Ávila (RS). Sabe que as chances dela de chegar ao Planalto são mínimas, mas o partido aposta na campanha para puxar votos e eleger o maior número de deputados possível. Isso porque entrará em vigor, neste ano, a cláusula de barreira, definindo que só terá direito ao fundo e ao tempo de propaganda a partir de 2019 o partido que tiver recebido ao menos 1,5% dos votos válidos nas eleições de 2018 para a Câmara dos Deputados, distribuídos em pelo menos um terço das unidades da Federação, com um mínimo de 1% dos votos válidos em cada uma delas.

Se não conseguir cumprir esse parâmetro, o partido poderá ter acesso também se tiver elegido pelo menos nove deputados federais, distribuídos em um mínimo de nove unidades da Federação. “Temos que jogar com as regras que estão à mesa”, disse a presidente nacional do partido, Luciana Santos (PE). Se não tem condições de dar as cartas, o PT já se satisfaz em fustigar os aliados. Em Pernambuco, por exemplo, Lula dá corda na disposição de Marília Arraes de concorrer ao governo pernambucano.

Neta do ex-presidente nacional do PSB Miguel Arraes, ela rivaliza com o governador socialista Paulo Câmara, que buscará a reeleição. Já alguns caciques locais do PT, como o ex-prefeito João Paulo e o senador Humberto Costa, não descartam se aproximar da Câmara para ter uma chance mínima de sobrevivência. Lula mexe os dois lados da corda para tentar controlar o cenário no estado em que nasceu.

“Temos que jogar com as regras que estão à mesa”
Luciana Santos, presidente do PCdoB

Análise da notícia

Sem poder dizer não

O mensalão, a prisão dos ministros, o impeachment de Dilma Rousseff. O PT sobreviveu a tudo isso. Mas a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em segunda instância obrigou o partido a fazer algo que os aliados tradicionais sempre sonharam: vestir as sandálias da humildade. Outrora altiva e arrogante, a maior legenda de esquerda da América Latina se vê obrigada a costurar alianças para tentar respirar no mar revolto que a afoga.

Sempre foi encarada como natural a postura dos petistas, que sempre defenderam a primazia nas cabeças de chapa, especialmente na disputa presidencial. Tanto que o rompimento do partido com o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos deu-se justamente por causa disso.

Campos, morto em um acidente aéreo no meio da campanha presidencial de 2014, recebera a promessa de caciques do PT, como o secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, Jaques Wagner, de que seria apoiado ao Planalto em 2018, após o término do segundo mandato de Dilma Rousseff. Ele não acreditou e acabou se lançando como candidato pelo PSB. Em frangalhos e sem Lula, o PT perdeu as condições para dizer não. (PTL)

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