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Correio Braziliense

Postulantes a cargos majoritários evitam festas para não se constranger

Postulantes a cargos majoritários optam por passar o carnaval em casa, com a família, para evitar constrangimentos em aglomerações


postado em 10/02/2018 08:00

 

 

Desde que a Operação Lava-Jato começou a levar políticos das tribunas para as penitenciárias, a folia não tem sido a mesma para as autoridades brasileiras. Figuras cativas de grandes festas, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e nos camarotes do carnaval de Salvador, governantes têm evitado, nos últimos anos, as aglomerações. Segundo especialistas, quando um país atravessa uma crise política, ética e financeira, não é bom que um postulante, principalmente, a um cargo majoritário, seja visto fazendo festa.

Com camarote próprio no Sambódromo, um dos mais emblemáticos foliões era o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB), sempre ao lado do ex-prefeito da cidade e correligionário Eduardo Paes. Em 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva curtiu a festa com a dupla. Hoje, Cabral está preso e condenado a, pelo menos, 87 anos de cadeia. Sem muito apoio popular, Paes não confirmou presença na festa, e Lula ficará recolhido em casa sem agendas pública. Condenado em segunda instância a 12 anos e 1 mês de detenção, o petista evitará tumultos no carnaval e se concentrará nas estratégias de defesa para evitar a prisão no próximo mês e manter a pré-candidatura à Presidência da República.

Assim como Lula, praticamente todos os pré-candidatos ao Palácio do Planalto evitarão o tumulto carnavalesco neste ano. Depois de ter adiado uma viagem no ano-novo com a família por problemas de saúde, o presidente Michel Temer — que ainda não se colocou oficialmente como postulante à reeleição — passará o fim de semana de folia na base naval da Restinga da Marambaia, no Rio de Janeiro. Inicialmente, o chefe do Executivo tinha solicitado uma comitiva de 60 pessoas para acompanhá-lo, mas críticas o fizeram diminuir o contingente para 40 pessoas.

Focado nas prévias internas do PSDB contra o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, ficará em casa com a família, assim como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que está com o quinto filho, Felipe, recém-nascido. “No momento em que estamos, o melhor que eles podem fazer é ficar em casa. Participar de festas de carnaval não acrescenta votos para políticos que buscam cargos majoritários e, pior, pode se transformar em um momento de constrangimento. Há um risco muito grande de ele virar um meme nas redes sociais e a propaganda ser negativa”, comenta o professor de ciência política da PUC-RJ Ricardo Esmael.

Ainda sonhando com uma candidatura e com a aprovação da reforma da Previdência na Câmara, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, também ficará em casa, no Rio de Janeiro, mesma opção feita pelo presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, pré-candidato do PSC ao Planalto. Em luto pelo falecimento do pai, o conforto do lar também foi a escolha da ex-senadora Marina Silva para os dias de folia. Para o professor e cientista político da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer, já não é mais tempo de se misturar política com carnaval, só se for para fazer sátiras. “O país não está muito bem e eles saírem da imagem de pessoa séria para brincar carnaval pode ser interpretado de forma errada. Não dá mais para sobreviver do lema ‘falem mal, mas falem de mim’”, diz.

Após uma viagem a Dourados (MS) ontem, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ) manterá a rotina de se recolher durante a festa, já que nunca foi muito de foliar. O mesmo fará o senador Alvaro Dias (Podemos), que aproveitará o feriadão para descansar em casa em Curitiba para retomar a pré-candidatura logo após a quarta-feira de Cinzas. Já o pré-candidato do PDT, Ciro Gomes, conhecido pelo samba no pé e por apreciar a festa, passará os próximos dias quieto, em recuperação de uma cirurgia de septo nasal.

Mais atuantes nas redes sociais, o presidenciável do Novo, João Amoedo, ficará em casa porque, segundo aliados, o carnaval já perdeu há tempos o caráter de festa popular. “Até a Daniela Mercury extinguiu a pipoca do bloco dela”, comentou um amigo próximo. E, sem perder a temática, a presidenciável do PCdoB, Manuela D’Ávila, postou um vídeo descontraído nas redes sociais dando dicas de como curtir a festa com responsabilidade e respeito. Ela aproveitará o descanso para terminar a dissertação do mestrado em políticas públicas.

Liberados

Os dois “quase” presidenciáveis que ainda têm liberdade para aproveitar a festa sem perigo de questionamentos, já que não são políticos, são o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o apresentador de televisão Luciano Huck. Barbosa prometeu dar uma resposta ao PSB até o fim do mês sobre uma possível candidatura e deve passar o carnaval com amigos. Já Luciano Huck, fã de carteirinha da festa na Sapucaí e famoso por promover grandes eventos em casa, flertou com o PSDB na última semana e ficou de responder se entrará na disputa ao Planalto, mas só depois dos festejos de Momo.

“No momento em que estamos, o melhor que eles podem fazer é ficar em casa. Participar de festas de carnaval não acrescenta votos para políticos que buscam cargos majoritários e, pior, pode se transformar em um momento de constrangimento”
Ricardo Esmael, professor de ciência política da PUC-RJ

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