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Correio Braziliense

Oposição teme efeito eleitoral da intervenção no Rio de Janeiro

Por mais que ministros se mostrem entusiasmados com a operação no Rio de Janeiro, assessores pragmáticos de Temer elencam pelo menos quatro pontos para que a ação desencadeada possa trazer resultados eleitorais para a base aliada


postado em 22/02/2018 06:00 / atualizado em 22/02/2018 09:15

Militares em ação em favela na Zona Norte do Rio, ontem(foto: Reginaldo Pìmenta/Raw Image/Folhapress)
Militares em ação em favela na Zona Norte do Rio, ontem (foto: Reginaldo Pìmenta/Raw Image/Folhapress)


A cartada política jogada pelo governo na última sexta-feira — a decretação do pedido de intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro — ainda terá um longo caminho para que se converta em resultados práticos. A despeito do entusiasmo de alguns ministros e auxiliares mais próximos, os assessores mais céticos elencam uma série de ações para que as operações consigam avançar, viabilizando políticos da base governista, entre eles o próprio presidente Michel Temer.

O primeiro passo, político, já foi alcançado. Deputados e senadores aprovaram, em apenas dois dias, com sessões cheias, o decreto de intervenção. Mesmo tendo atropelado o Congresso e chamado os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), para comunicar a operação após ela ter sido decidida, Temer conseguiu que a base aliada votasse majoritariamente alinhada ao Planalto nessa questão.

A partir de agora, Temer sabe que perdeu o controle de parte do processo. Votações do Congresso podem ser acertadas com reuniões, almoços e jantares no Palácio do Jaburu ou no do Planalto. As ações militares dependerão da estratégia a ser elaborada pelo interventor, general Walter Souza Braga Netto, e de todo o apoio efetivo que o governo dará a ele.

Esse plano de atuação, que foi alvo de críticas da oposição, ainda está em elaboração pelo general. A ideia é, de fato, que as Forças Armadas assumam o controle do setor no estado, o que significa enquadrar as forças de segurança locais, diminuindo a corrupção e aumentando a efetividade das polícias Militar, Civil e do sistema penitenciário fluminense.

Além disso, o governo ainda busca encontrar as garantias jurídicas para a operação. Lançou a ideia e foi obrigado a recuar da buscas, apreensões e prisões amplas. Mas ainda luta para encontrar salvaguardas legais para as ações, pois sabe que, em um assunto tão delicado e complexo, erros poderão ser fatais para a capitalização política positiva da intervenção.

O governo ainda busca equacionar os recursos que garantirão as operações. Temer acertou com a equipe econômica a necessidade de remanejamento de verbas para financiar. Chegou a ser sugerida a criação de um novo imposto. “Eu avisei ao presidente Temer que isso só seria possível por emenda constitucional. E emendas constitucionais não podem ser debatidas por conta da própria intervenção”, respondeu Maia. Quanto ao projeto mostrando o orçamento destinado à intervenção, o presidente da Câmara foi irônico com a demora. “Tudo ainda está em uma cortina de fumaça”, provocou.

A expectativa de pessoas próximas ao presidente é de que, a médio prazo, os efeitos positivos da intervenção possam ser percebidos pela população e que, dessa forma, isso reverta em um aumento da aprovação do governo e do presidente Temer. Para não queimar etapas, a estratégia é evitar qualquer menção a uma candidatura do presidente à reeleição.

“O presidente precisa querer ser candidato e, até o momento, ele tem rebatido qualquer ideia nesse sentido”, assegurou um interlocutor. Ontem, o porta-voz da presidência, Alexandre Parola, foi a público desmentir uma possível pré-candidatura do presidente Temer. “O presidente da República reitera que toda e qualquer decisão de governo é regida exclusivamente pelas reais necessidades de encontrar soluções para os problemas do povo brasileiro. A agenda eleitoral não é nem nunca o será, causa das ações do presidente”, destacou, em nota.

Isso não significa que a exposição do assunto pelos demais presidenciáveis não agrade ao Planalto. Jair Bolsonaro (PSC-RJ), em um primeiro momento, colocou-se contrário à intervenção, mas, no dia em que o decreto foi analisado na Câmara, votou favoravelmente. Outro que se sentiu ultrajado em um primeiro momento foi Maia, que tinha apresentado, na abertura dos trabalhos do legislativo, a proposta de segurança pública. “Ninguém roubou minha agenda. O governo tem a proposta dele e a Câmara tem a sua, que será votada no momento certo”, acrescentou.

Em evento do MST em Minas Gerais, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também criticou a intervenção, afirmou que as Forças Armadas não estão preparadas para esse tipo de atuação. “Eu temo que esse tipo de intervenção seja uma coisa de pirotecnia, de interesse político”, disse o petista.

Passos da ação

» O comando interventor conseguir, de fato, enquadrar as forças de segurança do Rio de Janeiro

» Alterar algumas regras jurídicas que permitam dar maior segurança às operações dos militares

» Garantir recursos suficientes para realizar as ações, além de contingente efetivo para as operações

» Acertar as divergências partidárias para convergir em direção a uma candidatura única

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