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Correio Braziliense

"Governo quer candidato para defender o passado", diz Rodrigo Maia

Presidente da Câmara garante que fica na disputa ao Planalto até o fim e adota discurso de oposição ao criticar pontos da intervenção federal no Rio


postado em 18/03/2018 08:00 / atualizado em 17/03/2018 22:47

"As pesquisas deixam claro: o Alckmin não vai vencer o segundo turno contra o Ciro. Tanto que o Ciro quer o segundo turno com ele", diz Maia (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Os poucos mais de 1% de intenção de votos que apresenta nas pesquisas recentes são insuficientes para abalar a autoestima do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Lançado como pré-candidato do partido ao Planalto, Maia assegura que vai disputar a eleição de outubro, não havendo hipótese de, lá na frente, abrir mão do posto para negociar apoio à outra candidatura. “Pode gravar, sou candidato a presidente. Eu quero, respeitando certos erros do passado, representar o que a sociedade brasileira quer, a mudança.”

Por isso, não vê problema em ser um nome sem o apoio direto do governo. “O governo tem um candidato para defender o passado. Eu quero construir uma candidatura para um projeto no futuro.” Essa construção, segundo ele, passa pelo diálogo, que diz ter aprimorado ao exercer a presidência da Câmara, inclusive com o apoio de partidos de oposição. Na avaliação de Maia, Ciro Gomes é o favorito para chegar ao segundo turno. Jair Bolsonaro, por sua vez, não deverá ir tão longe. 

Horas antes da entrevista exclusiva ao Correio, concedida na residência oficial na tarde de quinta-feira, Maia organizou uma sessão solene para que o PSol homenageasse a vereadora carioca Marielle Franco, executada a tiros na quarta-feira.

Recebeu vaias e presenciou ofensas ao deputado Miro Teixeira (Rede-RJ). “Quem fez isso foi o PSol, e eles vão perdendo a razão. Coitado do Miro, ele não esperava nunca que fosse passar por aquilo.”

Maia garante ser capaz de fazer com que o discurso do DEM chegue à população, cansada, segundo ele, da polarização PT-PSDB. Ele ainda afirma que o governo perdeu o discurso da inflação ao não se preocupar com o aumento nos preços da gasolina e do botijão de gás. “As pessoas não vivem nas estatísticas”. Parlamentar fluminense diz não ser contra a intervenção, mas reforça que ela foi feita sem planejamento e sem previsão orçamentária. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

O assassinato de Marielle Franco coloca a intervenção em xeque?
Não acredito. Há um simbolismo muito forte. Era uma mulher negra, da comunidade, vereadora… Mas acho que, de forma nenhuma, isso vai tirar a importância de reorganizar a polícia do Rio. Tem de investigar as motivações, de onde vieram. O que tenho criticado, desde o primeiro dia, é: já que o próprio governador afirmou que não ter condições de cuidar do estado, precisamos de um planejamento mais claro, mais transparente. Para que a gente possa, com a comissão externa e com o observatório que a gente criou na Câmara, fazer um acompanhamento mais permanente e que possa ter mais resultado. Estou sentindo falta do planejamento, não sei se de fato não tive oportunidade de ler, ou se não foi apresentado. Estou sentindo falta também de uma coisa que é fundamental no caso do Rio e certamente em outros estados, que é a questão do orçamento.

Isso não existe?
O Rio faliu, entrou em recuperação fiscal, o orçamento da segurança pública, fora pessoal, naquilo que ainda tem contrato de custeio, é a preço de 2009. Fora que não tem contrato, como para a manutenção de veículos. Então certamente, fora todos os desafios que o interventor vai ter para reorganizar a gestão, você ainda tem o problema de colocar a polícia de pé. De dar estrutura mínima para as polícias Civil e Militar, à inteligência, ter equipamentos mais modernos, viaturas… Tudo isso, na melhor das hipóteses, existe de forma sucateada, quando existe. Estou sentindo falta de planejamento, que tenha uma previsão clara. Não estou vendo o governo federal conseguir organizar um orçamento para isso, por enquanto não vi nenhum projeto de decreto, abertura de crédito, chegando à Câmara. E agora não apenas no Rio, porque o ministério da Segurança precisa de orçamento. A ideia do ministro (Raul) Jungmann, de um fundo para o setor privado financiar, resolve um bairro, não resolve o Brasil. Até porque as empresas do Brasil já pagam impostos para ter segurança, não cabe tributar novamente. O episódio, lamentável e bárbaro (do assassinato de Marielle) apenas reafirma a importância de se repensar a questão da segurança no Brasil. Quando de forma efetiva a PF com as Forças Armadas vai ter estrutura necessária para cobrir os 17 mil km de fronteira seca que o Brasil tem? Também a capacidade de cobrir a entrada de drogas pelos portos. Vimos que se gasta R$ 42 bilhões em gratificações entre outras coisas para os servidores públicos. Não estou dizendo que não seja justo. Mas não sei o que é mais justo: gastar essas gratificações com os servidores ou se seria mais fácil, melhor, ou mais prioritário reorganizar as despesas para que se tivesse R$ 42 bilhões para reorganizar essa estrutura de segurança. Não sei se também é melhor o volume que se tem de isenções e benefícios que o setor privado hoje recebe, muitos que sobrevivem apenas com isso. Ou seja, são empresas que não têm competitividade com os mesmos setores no mundo, mas aqui se gasta todo ano em torno de R$ 285 milhões. Tem que se rever isso? Acho que sim. Acho que tem um debate que a sociedade precisa fazer de forma decisiva: qual é o Brasil que queremos? Um que cresça e gere riqueza, reduza a desigualdade e a pobreza? Para isso, esse orçamento colocado hoje da União e dos estados não dá. O que se gasta hoje no orçamento federal não vai dar para que a gente tenha um Brasil crescendo 3, 4, 5% ao ano e gerando emprego formal.

Caso eleito, o senhor vai confrontar as corporações dos servidores?
Não precisa de confronto, precisa de diálogo. Precisa mostrar para os servidores que ganham R$ 30 mil que eles vão precisar fazer uma escolha. Se eles querem ganhar R$ 30 mil em valores de hoje, a valores de 10 mil dólares, ou se eles querem ganhar R$ 30 mil a valores de 2, 3 mil dólares a valores de inflação, com a perda do controle do valor da nossa moeda. É uma escolha que vai ter que ser feita e acho que, digo isso desde que virei presidente da Câmara, há um grande erro na comunicação entre os sistemas. Quando o servidor público, e não quero tratar de um poder e, sim, como um todo, quando ele não compreende que há uma reação muito grande da sociedade ao fim do auxílio-moradia… Quando ele não entende o porquê, é porque ele não entende como o brasileiro comum vive. Quase R$ 4.700, vamos dizer que seja justo para um servidor que esteja em trânsito, saindo da capital do Acre e indo trabalhar na fronteira, naquele período, ele tem o auxílio para ir para lá, como às vezes um servidor venha para Brasília com um auxílio que é transitório. Mas, no momento em que se quer transformar o auxílio-moradia em salário, no momento em que a renda mínima brasileira é de R$ 2.500, no Nordeste essa renda certamente é abaixo desse valor... Muitos brasileiros ganham R$ 800, R$ 1.000… É a falta de conhecimento da crise fiscal que o Brasil vive. O Brasil hoje é um Estado que caminha para a perda completa das condições de crédito no mercado financeiro. No Brasil, todo ano, apenas o deficit previdenciário, fora outras despesas, representa mais de R$ 50, 60 bilhões. Acho que o diálogo com as corporações públicas e em setores da sociedade e empresários, que também se beneficiam, deve ser transparente. Dizendo: “Olha, você fez o seu concurso, é legítimo, mas o Estado não vai suportar mais pagar esses benefícios, e quem pagará a conta será o servidor, o empresário, mas principalmente o trabalhador mais pobre”. Esse caminho do diálogo é muito importante, precisamos construir um diálogo com os fatores que comandam o orçamento público, seja no setor público ou no privado, dizendo que não há mais condições de o Estado brasileiro continuar sobrevivendo, gastando mais do que arrecada. Não dá mais para ter R$ 150 bilhões de deficit todo ano. Isso é incontrolável e vai explodir, e da pior forma possível, onde todos serão prejudicados.

Voltando à intervenção, a impressão que se tem é que há um improviso…
Não posso dizer que tem improviso porque não participei da elaboração da decisão. Eu fui convidado, na hora que foi decidido, me convidaram para dizer que estava decidido daquela forma. Qual era minha opinião? Eu disse que aprovava a intervenção, mas não quis participar de um processo que já estava de fato decidido, mas não participei da elaboração. Não sei se não tem planejamento, não fui informado, não sei se o planejamento foi uma decisão de fazer uma coisa sigilosa para não dar informação para os bandidos e facções. Mas não vejo preocupação com a questão orçamentária. E acho que ela é decisiva sim, você está pegando um estado que está em recuperação fiscal, onde a atuação da estrutura da polícia está sucateada. A parte orçamentária, na hora em que o governo assume, a partir daí, a responsabilidade passa a ser do governo.

O senhor ficou descontente por não ter sido chamado…
Não é descontentamento. Não tenho problema de não participar da decisão, sou presidente do poder Legislativo e ele, do Executivo, como também ele não pode ficar incomodado quando a presidência da Câmara pauta um tema que às vezes não é de interesse do governo. É da democracia, os poderes são independentes, eu não fico incomodado, apenas relato os fatos como eles são, porque é importante. Para mim não tem problema não ter sido chamado, a decisão está certa. O governador Pezão perdeu as condições...

A intervenção foi correta, então?
Com certeza, sempre defendi a intervenção. Se tentou transmitir uma informação para a sociedade de que eu não era a favor, mas eu nunca disse uma palavra contra. Agora eu digo: precisa-se de um diagnóstico, não veio com o decreto para a Câmara, a justificativa não veio, não vi o planejamento, talvez a única parte que seja sigilosa. Não vi o orçamento para se cuidar do estado. Certamente o interventor, que é um homem preparado, tem muita experiência e conhece muito o Rio de Janeiro, deve ter construído o diagnóstico para depois preparar ou está preparando o planejamento dele com a execução. Agora, o orçamento vai ser exclusivo para que isso dê certo.

A intervenção pode ter levado as milícias a uma postura ainda mais radical?
Acho que, com ou sem intervenção, poderíamos estar passando por essa barbaridade. Já estávamos, aliás. Muitas pessoas foram assassinadas. Da mesma forma, e mesmo sem intervenção, aliás não apenas no Rio, 60 mil no Brasil, metade das mortes vinculadas a facções criminosas. Metade delas ligadas diretamente ao tráfico de drogas e armas. O que aconteceu com a vereadora Marielle poderia ter acontecido com ou sem intervenção, na minha opinião. Agora, na hora em que você constrói o enfrentamento, certamente do lado de lá vêm reações. Não sei se é o caso porque ainda estão sendo feitas as investigações, mas não tenho dúvidas de que a intervenção era o caminho, não sei até se deveria ter feito ela completa… Porque é difícil você organizar a parte administrativa, financeira, da parte de gestão das secretarias. Mas é uma decisão que já está tomada. Ninguém vai resolver da noite para o dia o problema do crime organizado no Rio, Ceará e Pernambuco, onde quer que seja… Agora, que pode melhorar muito, com o planejamento correto, com investigação benfeita e bem articulada entre os poderes do estado e Federal, isso pode. Pode e certamente vai melhorar muito. Essa decisão da intervenção organiza de forma definitiva, essa expectativa, espero eu, os órgãos de segurança do estado e nacional, sob apenas um comando. Antes estava entre dois comandos e dava muito atrito.

Não precisava atacar mais a banda pobre da polícia? Inicialmente o ministro da Justiça criticou a cúpula da segurança no Rio...
Olha, eu concordo que partes da polícia possam estar contaminadas, mas não toda a polícia, como o ministro Torquato (Jardim) falou. Parte dela certamente está e o papel do ministro… Ele botou a culpa em todo mundo. Então acho que o interventor saberá, até porque tem uma corregedoria forte, separar o joio do trigo e saberá trabalhar com os melhores quadros, que não estão contaminados, e saberá o momento adequado, com as provas necessárias, afastar ou punir aqueles que de fato continuam operando no crime organizado dentro da polícia do Rio.

A segurança vai ser o tema prioritário na campanha?
O que acredito é que tem vezes que certos temas ficam muito importantes, tão importantes que muitas vezes a sociedade fica cética de que alguém terá condições efetivas de resolver, com propostas mirabolantes. Acho que eles esperam dos candidatos muito pé no chão, simplicidade e objetividade, mas continuo achando que o tema da segurança é prioridade e tem que ser prioridade dos governos do Poder Legislativo, será, sim, na Câmara dos Deputados nos próximos meses. Mas acho, com muito pé no chão e analisando com muito cuidado, que tem uma prioridade que atinge a vida das pessoas que é a questão do emprego. Com essa crise toda que o Brasil ainda vive, muitos voltaram a conseguir emprego, mas um emprego de pior qualidade, as pessoas estão vivendo um momento que querem saber quando vão voltar a ter a renda delas, a ser mais tranquilo, onde ela saiba que o salário dela é compatível com os gastos. Esse é o ponto que angustia o dia a dia das famílias, o orçamento familiar e conseguir um emprego melhor ou para seu filho. A segurança vai continuar sendo o item de maior preocupação, mas a sociedade vai olhar a questão da melhoria da qualidade de vida como prioridade para si, porque, muitas vezes, isso acontecia muito com a Saúde. Aconteceu no passado, era o tema de maior preocupação, mas sociedade estava tão cética que não acreditava que o candidato poderia num prazo de quatro anos resolver o problema, e não votava pelo assunto saúde. Então às vezes o candidato falava de saúde, saúde e o outro candidato falava outro tema e ganhava a eleição. Então acho que a segurança vai ser prioridade, e deve ser junto da educação, claro. Mas acho que a questão econômica vai fazer com que as famílias queiram alguém que mostre o caminho para que muitas pessoas possam voltar a pagar suas contas em dia.

O governo desviou, com a intervenção, o foco da Previdência?
Olha, acho que sair do tema da Previdência seria necessário, porque nitidamente não teriam votos para essa votação. E ficou, de forma infantil, um debate de “Ah, o Rodrigo vai dizer que a culpa é nossa”. Eu até dei uma entrevista na televisão dizendo o seguinte: “Olha, aqui não tem culpado, todos nós sabemos que há uma distorção absurda no sistema previdenciário em que os brasileiros mais pobres financiam os brasileiros mais ricos, porque o mais pobre fica mais tempo no sistema”. O que deveria ter sido dito era isso, só que não tinha condição, não tinha voto. Entrou em ano eleitoral. Ano passado tiveram as duas denúncias, o governo perdeu base, acho que a base hoje está muito mais enfraquecida do que o governo imagina.

O seu partido ainda tem base no governo?
Meu partido tem o Ministério da Educação, o ministro Mendonça faz um excelente trabalho. Teve a coragem de enfrentar um problema importante que é o ensino médio, já que nós temos aí 1,8 milhão de jovens que não estudam nem trabalham e precisam voltar a ter uma oportunidade de ter esperança, de que vale a pena investir na educação para que se tenha um emprego de qualidade no futuro… Vamos defender. Não tenho problema nenhum em defender o que acredito, mas quero ter independência de criticar as coisas que foram feitas ou deixaram de ser feitas por esse governo também.

O que deixou de ser feito?
Acho que o governo cometeu alguns erros básicos, como, por exemplo, quando liberou o preço do gás e da gasolina. Esqueceu que a gasolina hoje tem um impacto na vida das pessoas que ganham menos muito maior do que tinha no passado, porque hoje as pessoas têm carro, têm moto. Esqueceram que o gás de cozinha faz parte da cesta básica da sociedade que tinha menos, e isso tem um impacto grande. Perdeu completamente o discurso da inflação de alimentos, porque, na hora em que o governo vai dizer que o preço da comida caiu, o trabalhador vai dizer que o gás e a gasolina subiram. O governo perdeu a condição de entender que a liberação do preço do que era importante para a Petrobras também geraria um impacto na vida das pessoas mais pobres, e não se pensou em nada para se cuidar disso. E, no fim do ano, o governo teve um excesso de arrecadação, principalmente por causa do Refis e, em vez de usar isso para ser gasto na vida das pessoas para que elas não fossem prejudicadas por essa decisão, preferiu aplicar num deficit primário menor. A crítica que eu faço é que a gente tem que entender que as pessoas não vivem nas estatísticas, elas acordam todo às dia 3h da manhã para trabalhar, demoram para voltar para casa, têm de pagar contas com toda a dificuldade. Qualidade de vida na vida do brasileiro é muito difícil e o governo não pode achar que as pessoas vivem apenas de um bom resultado primário das suas contas. Ninguém cobrou do governo um deficit primário de R$ 120 bilhões, estava registrado R$ 150, se fosse R$ 135, seria a mesma coisa, o governo teria um colchão de recursos para jogar na economia e ativar a economia. Então acho que esse, para mim, é o erro capital do  governo, não entender que a política econômica é fundamental. A equipe do ministro Meirelles é muito boa e muito bem montada, mas o árbitro desse jogo é o presidente da República.

O árbitro não está marcando pênalti, então?
Acho que o árbitro, nesse caso, errou. Teve acertos também, mas cometeu erros. Estou falando de um caso clássico, de um erro, não precisava ter sido assim, no ano passado, poderia preparar com esses recursos um programa para compensar o aumento do preço do gás de cozinha. Não teve. Ou mais alguns bilhões na economia, para a ativar a economia, para acelerar a recuperação econômica e a geração de empregos com carteira. Desde que o presidente assumiu, foi bom, caiu de 14 milhões para 12 milhões, mas foi o emprego sem carteira assinada, o emprego precário, o que prevaleceu. E isso não é bom. Tem que se entender porque não se conseguiu melhorar a qualidade da geração de emprego no Brasil.

Um candidato próprio do governo facilita as críticas para os candidatos de partidos da base, como o senhor?
Esse não é um problema. A questão é a seguinte: o governo quer um candidato para defender o passado, eu quero construir uma candidatura para construir um projeto no futuro. A sociedade conhece o passado, sabe onde tem os erros e acertos do Michel, os da Dilma, do presidente Lula — que, para a sociedade, são maiores que os erros. Agora, com tudo que a gente aprendeu, como a gente constrói um futuro onde de fato um governo vai ser um governo mais simples, menos burocrático, pé no chão, mais objetivo, e que vai dar soluções na vida das famílias, acho que é isso que a sociedade espera.

E que marca o senhor pretende dar a essa sua campanha?
Minha marca é visitar o Brasil, conhecer de perto os problemas, como estarei no sertão, da Paraíba conhecendo um problema que é grave no sertão que é a água, visitando minhas origens em Catolé do Rocha (a 440km de João Pessoa), aprendendo com a sociedade brasileira, não achando que chego tendo tudo para falar, tenho muito mais a aprender que pra falar. Construir um programa, até conversando, que seja nessa linha. Acho que essa é a linha que a sociedade quer. Que a gente coloque primeiro o Estado para funcionar, se a gente olhar o senso de Educação do ano passado, a gente vai ver que a maioria das escolas não tem internet. Será que a prioridade do governo federal é continuar fazendo investimento em universidade pública ou ter coragem de dizer não, esse recurso tem que ir para base para garantir que toda criança tenha acesso à internet? Acho que é isso que a sociedade está esperando, botar as coisas para funcionar, 60% das creches não têm um leito para o bebê dormir. Se você conseguir equipar todas com aquilo de que elas precisam, você vai ter vagas para mais crianças. Tem muitas coisas que você pode fazer, melhorar a gestão da Saúde, cruzar sistemas, hoje um cidadão pode sair de São João do Miriti, entrar em cinco postos de saúde lá até a capital, e o último não tem informação que ele passou pro primeiro e tentou atendimento e não foi atendido.

O senhor tá parecendo um candidato de oposição ao governo…
Vocês me viram hoje num evento em homenagem à vereadora, eu sabia como era o evento, mas com muita paciência respeitei as críticas, que foram majoritárias ao presidente da República, mas algumas foram ao presidente da Câmara. Respeitei a todos. Esse radicalismo que alguns querem manter no Brasil, essa polarização antiga e atrasada, foi o que gerou muitos problemas para o Brasil. Essa polarização foi comandada pelo governo do PT e PSDB. Mas o presidente Fernando Henrique teve avanço, claro, o Lula também. Mas, por exemplo, é justo o trabalhador se aposentar com 65 anos com um salário-mínimo e o que ganha R$ 30 mil se aposentar aos 50? Não, e há um consenso. Mas, você acha que a oposição vai votar com o governo nesse aspecto? Não vai. Nenhuma oposição. Essa polarização para mim significa novo centro, o novo centro não significa um espaço onde você abre mão das suas ideias e não pensa nada, muito pelo contrário, mantém seus princípios e ideais, mas tem a capacidade de ouvir o outro lado. Por que você acha que minha candidatura a presidente da Câmara teve apoio do PCdoB? Por que eu ouço. Mas quando vieram discutir comigo a pauta pra me apoiar, disseram: “Você não pode pautar a reforma trabalhista, a reforma da previdência”... Falei: “Eu vou pautar, mas também vou pautar temas que são importantes para o Brasil, porque esses são fundamentais”. Eles me apoiaram mesmo assim, porque tem diálogo.

O DEM já mudou de nome muitas vezes. Como se monta um discurso mais social do DEM?
Primeiro a população não está nesse jogo de partido, ela quer saber o que os partidos pensam. O mais importante que precisamos construir é primeiro um programa para que, depois, esse programa possa lastrear uma candidatura no DEM, que seja a minha. O DEM é um partido que não tem origem em São Paulo, como tem PT e PSDB, na verdade, é o partido dos empreendedores médios. O DEM foi fundamental, e aí que falo do novo momento, os políticos da era da ditadura tinham a compreensão de que o Brasil queria mudança, então decidiram apoiar o Tancredo e eles comandaram a vitória do Tancredo no Colégio Eleitoral. Eles representaram naquele momento a novidade por dentro da política.

Mas, no âmbito nacional, sempre foi um partido de pouco voto. Por que seria diferente agora?
Porque eu acredito que, da mesma forma que eles compreenderam que havia um novo ciclo e uma pessoa que representava com mais força, e tinha diálogo com os militares, era a melhor opção para comandar aquele grupo que comandou o Brasil até a entrada do presidente Lula. O PFL foi fundamental na sustentação das reformas do presidente FHC, até representavam mais através do presidente da Câmara Luiz Eduardo Magalhães, que o próprio PSDB. Então tinha um papel ativo. Só que na hora em que FHC conseguiu implementar o Plano Real e se colocar como candidato, ele esvaziou os novos projetos, e aí começou o novo ciclo. Que poderia ter sido quebrado, ou representado, pelo PFL na época pelo Luiz Eduardo se ele não tivesse falecido.

Mas o PSDB não quer saber disso…
Mas o ciclo está aberto, o PSDB, hoje, é o partido mais rejeitado do Brasil, o que contamina o governador Geraldo Alckmin hoje. A pesquisa do meu ponto de vista inviabiliza o Geraldo, sendo um candidato vitorioso no segundo turno. Também não quero aqui ser injusto com o governador Alckmin.

Além do senhor, também tem querendo sair o Henrique Meirelles, Temer, Alckmin… Qual o risco de querer demais e acabar ficando de novo 
naquela dicotomia de esquerda versus direita? E perder para o Bolsonaro?
Mas, nas minhas pesquisas, o Bolsonaro não vai nem para o segundo turno. Pelo que estou  acompanhando, a minha projeção, ele terá dificuldade de estar no segundo turno.

Qual a projeção para o segundo turno nas suas pesquisas? O Ciro?
De acordo com as minhas pesquisas de opinião, o Ciro estará no segundo turno. Acho que é o candidato mais forte para estar no segundo turno hoje, é claro que está todo mundo na pré-campanha… Acho que o governador Geraldo Alckmin, hoje, tem uma boa base em São Paulo por ser um bom governador. Mas as pesquisas infelizmente deixam muito claro, ele não vai vencer o segundo turno com o Ciro Gomes. Tanto que o Ciro Gomes quer o segundo turno com ele, porque ele sabe que vai vencer, porque a rejeição ao PSDB inviabiliza a vitória. Por isso o DEM resolveu colocar o meu nome. Falam muito: “Ah, vocês colocaram o nome pra negociar”. Negociar o quê? Tem alguma dúvida de que, se o DEM quisesse hoje fazer um acordo…”

O primeiro desafio é fazer queas pessoas acreditem que sua candidatura é para valer.
Se eu quisesse hoje ir para São Paulo e colocar junto uma aliança do DEM, que a gente aceitava uma aliança indicando vice lá, se a gente dissesse o presidente da câmara Rodrigo Maia continuará deputado e terá apoio de vocês com a base da Câmara... Você tem alguma dúvida de que o PSDB apoiaria? A equação que as pessoas colocam é completamente equivocada. O DEM não precisa se cacifar para ter em julho o que já teria hoje. O que já tenho não precisava colocar o nome, correr o Brasil, conhecer. O que a pesquisa sinaliza, ou vamos construir um projeto que não é o do PSDB para derrotar o Ciro Gomes, que hoje é o que eu acho que tem mais chance, ou nós vamos entregar o Brasil a uma política que nós acreditamos que não é a melhor para o país. Agora, se tiver outro nome que surja já disparando e viabilizado, forte… É o processo, fiquei esperando aparecer. Não apareceu. Então, dentro da realidade de pesquisa, hoje a rejeição do meu partido e a minha dão a clareza de que se a sociedade compreende o que quero dizer e, assim, tenho muita chance de estar no segundo turno e tenho muita chance de sair vitorioso. Por isso o DEM colocou e eu aceitei a candidatura, de construir um projeto para o Brasil.

A chance de o senhor sair em outro cargo nas eleições é zero?
Zero, nenhuma. Sou pré-candidato e serei candidato a presidente do Brasil. Pode gravar. E fico muito feliz porque não podia imaginar que ninguém, olhando a pesquisa com meu nome com 1% no máximo, vai dizer para mim que “vou com vocês de qualquer jeito”. Ouço muito “caminha, porque estaremos com você com certeza se você estiver viabilizado”. Agora, isso aqui é todo dia. Muitos partidos já deixaram claro, muitos parlamentares, prefeitos, amigos, pessoas, deixam claro: você viabilizado, estamos com você. Eu tenho certeza de que esse movimento, quando sinalizar que tem chance, e vai, a gente vai aglutinar um número de forças e vamos ter mesmo com poucos recursos a campanha com melhor capilaridade do Brasil. Vamos ter gente fazendo a nossa campanha em todos os estados brasileiros, na maioria dos municípios, de forma espontânea. Eu quero, respeitando acertos e erros do passado, representar o que a sociedade brasileira quer, que é mudança. E as primeiras começam na redução da máquina pública, seja do Legislativo ou do Executivo. E já deixo os primeiros exemplos: em dois anos economizei quase R$ 600 milhões na Câmara, e acho que a gente pode apresentar uma reforma administrativa para o próximo presidente, deixar esse legado.

A Lava-Jato vai ser tema da campanha. Até que ponto isso pode inviabilizar mais candidaturas, como por exemplo a do senhor?
Acho que é um tema que a própria campanha vai esclarecer. Todo mundo sabe, até porque os próprios relatores falam, quem de fato tinha vantagem indevida. A prestação de contas das minhas campanhas estão todas aprovadas e aquilo que está dito por delatores é contraditório, e não há provas porque não é verdade. E terei a tranquilidade de deixar isso claro, transparente, porque todo mundo sabe, no ambiente em que vive, quem são aqueles que tratam o dinheiro público de forma respeitosa e quem não trata. Eu sei, da minha história e da história da minha família, o primeiro sistema de controle efetivo que deu resultado em respeito ao dinheiro público foi feito na prefeitura do Rio em 1993, quando meu pai foi prefeito pela primeira vez. Então agora estou querendo alguns grupos de trabalho, um deles, para mim o mais importante, comandado pelo ministro Bruno Dantas (do TCU), que é discutir o sistema de controle interno, porque mais importante que descobrir um ato de corrupção é evitar o desvio do dinheiro público. Esse debate ninguém fez até agora, estamos discutindo como ampliar a pena e pôr na cadeia os políticos corruptos, que devem mesmo ir para a cadeia. Mas vamos criar sim um projeto que melhore muito um sistema de controle e dê garantia, para que a gente não precise olhar uma empresa como a Petrobras, e perguntar: “Como que pode uma empresa desse tamanho ter tanto desvio de dinheiro público?”. Mas por que existem tantos desvios no Brasil? Por que os controles não são do Estado, e sim de governo. E quando é de governo, ele beneficia o ministro e o presidente, e por isso temos visto tantos desvios.
 
 

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