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Correio Braziliense ENTREVISTA

"É inaceitável usar a morte de Marielle politicamente", diz Boulos (PSOL)

Pré-candidato ao Planalto pelo PSol critica notícias falsas divulgadas sobre a vereadora e acredita que partido dobrará a bancada


postado em 25/03/2018 08:00 / atualizado em 25/03/2018 08:55

(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

A morte da vereadora Marielle Franco, do PSol, trouxe o partido para o centro do debate político. Mas o pré-candidato à Presidência da República Guilherme Boulos afirma que a legenda não pretende se aproveitar da comoção. “Foi uma atitude cruel, e pensar em fazer qualquer uso político disso é inaceitável”, afirma.
 
 

Em outubro, a expectativa do PSol é dobrar a bancada na Câmara, que atualmente tem seis parlamentares. “Nossa expectativa é, no mínimo, dobrar. Passar para 12 ou 13, há espaço para isso. O PSol se consolidou, com muita coerência. É uma bancada que se colocou nos momentos fundamentais da vida política.”

Quanto ao Planalto, Boulos não vê problema em a esquerda lançar mais de um candidato. “Acredito que,no segundo turno, deve haver uma unidade no campo progressista pra vencer a direita e Temer.” Ele afirmar que Lula (PT) deveria participar da eleição, critica Marina (Rede) e afaga Ciro (PDT): “Tenho diferenças programáticas com o Ciro, que estão colocadas no nosso debate. Mas ele, por exemplo, é contra Temer, foi contra o golpe, defende a democracia, é contra a reforma da Previdência.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista, feita na última quinta-feira:

Quem matou Marielle Franco?
É possível afirmar com convicção que foi um crime político. As balas que atingiram Marielle, e terminaram por atingir Anderson, não foram perdidas. Tinham um alvo. Ela era uma das lideranças políticas mais combativas e mais promissoras do Rio. Uma mulher negra, vinda da favela, não tinha medo de denunciar os abusos da polícia e que era contra a intervenção militar. Essa era Marielle, tinha posicionamento, e um ato de barbárie e covardia a calou. Nós exigimos justiça, não só para saber quem matou, mas também quem mandou matar. E também não permitir a tentativa de assassinar a Marielle pela segunda vez, que é distorcer suas ideias, ignorar quem ela representava. As ideias são à prova de bala, e a maior homenagem que podemos fazer é levar adiante aquilo que ela acreditou.

Quem está matando Marielle pela segunda vez?
Tivemos coisas muito perversas. A primeira perversidade foi do próprio Temer, que horas após sua execução, foi à televisão para dizer que o assassinato reforçava a necessidade de intervenção no Rio. Ou seja, tentando usar politicamente o corpo da Marielle para defender algo que ela era contra. Esse é o uso político cínico. É quando nós vemos algumas figuras, como aquela desembargadora que se manifestou, o próprio Fraga no DF, uma figura abjeta... É quando nós vemos, enfim, inventarem, criarem mentiras a respeito da Marielle para tentar desfazer ou minimizar a comoção que sua morte causou.

Mas há uma empatia também, sim? Isso joga luz sobre o PSol.
Não vamos pensar nesses termos. Foi uma morte cruel, uma barbárie. Pensar em fazer qualquer uso político disso é inaceitável. O que nós faremos, e já estamos fazendo, é homenagear a Marielle defendendo as ideias dela. O crime contra Marielle foi um crime de barbárie e contra a democracia. E gerou uma comoção enorme na sociedade por conta disso também. Porque as pessoas viram a forma com que foi feita, foi uma execução, fria, política, nem sequer se preocuparam em disfarçar. Essa batalha é uma batalha pelos direitos humanos, pelo papel e voz das mulheres negras na política, por ideias contra essa intervenção e por um projeto de sociedade mais justa.

A execução foi um recado?
Foi um crime político. Um crime de uma pessoa que exercia uma ação política, tanto no estado do Rio como em nível federal. Isso é muito preocupante, mas não podemos dizer que o que aconteceu foi um raio num céu azul. O clima de intolerância e violência na sociedade brasileira tem se fortalecido há algum tempo. Há um processo de violência contra os mais pobres, de criminalização de movimentos e lideranças sociais. Lideranças sociais foram mortas, crimes no campo por disputas de terra aumentaram, segundo o relatório da Comissão Pastoral da Terra. O avanço de sentimentos de ódio, de intolerância, de sentimentos conservadores, que talvez nem seja o Fraga, a maior expressão disso é o Bolsonaro. Ele ter o papel que tem tido na política brasileira e no debate eleitoral é algo muito preocupante e perigoso em relação a retrocessos. E no caso do Bolsonaro, trata-se de um rematado criminoso, ele é um bandido que pratica crime de apologia à tortura, crime de apologia ao estupro, crime de racismo....

(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
"As eleições têm dois turnos, o primeiro turno é um momento em que o debate deve ser feito com as diferentes posições. Eu espero ter a oportunidade de ir pro segundo turno e ganhar as eleições. Mas é natural que haja uma unidade do campo progressista no segundo turno”

Forças de ideias como as dele estão crescendo na sociedade?
Não necessariamente. Em parte, acho que essas ideias sempre existiram e apenas saíram do armário. Encontraram um contexto mais favorável para se expressar sem vergonha. Essa barreira se quebrou.

Quando isso começou a ocorrer?
Creio que os últimos anos marcaram um processo de polarização na sociedade. Talvez até um pouco antes das últimas eleições. Ali o clima já estava envenenado. A disputa de ideias no espaço político passou a lidar com um patamar muito mais acirrado do que tinha sido até então. É natural que tivesse movimentos contrários a Dilma, a própria esquerda tinha críticas quanto ao governo da Dilma. Agora, quando a crítica degenerou para um machismo, misoginia, desqualificação, ataque brutal, isso já revelava também um acirramento. Isso tem a ver com o fato de que a crise econômica se traduziu em imagens de manobra na sociedade. Se nós pegarmos o que foram os 12, 13 anos de governo do PT, foram governos em que houve políticas sociais, mas não houve enfrentamento aos privilégios. Uma espécie de um ganha-ganha, ganhou o andar de baixo e o andar de cima. Ganhou a mineração, construção, mas não se enfrentou por exemplo a estrutura do Estado brasileiro.

Devia ter se enfrentado também os servidores públicos?
Olha, não acho que o servidor tenha que ser enfrentado, e sim que tenha que ser valorizado.

Mas os que ganham R$ 20 mil ou R$ 30 mil não são privilegiados?
Mas, aí, privilégios tem que ser enfrentados. Você tem que começar a atacar privilégios, não o servidor de maneira geral. Quando você fala do servidor, você fala do professor, da creche, do médico, da enfermeira do posto de saúde, que prestam serviços essenciais para o país. Não podemos ignorar o privilégio, ele é a antítese do direito. Nós também não vamos fazer coro num discurso que demoniza o Estado. Até porque ele, muitas vezes, é um discurso hipócrita. Ele parte de setores que ganham muito com o Estado, que querem o Estado mínimo, quando se fala de políticas sociais e de valorização de serviços públicos, mas, quando se trata de isenções para eles, quando se trata de empréstimos privilegiados, quando se trata de exoneração, querem o Estado máximo.

E o senhor fala de que setores, especificamente? A Fiesp?
A Fiesp, a Febraban, parte das entidades federais e patronais do país, que fazem um discurso neoliberal, defendem o Estado mínimo, mas são os maiores devedores e são os primeiros, quando estão com problemas, a pegarem dinheiro do Estado.

O senhor tem sido muito criticado, dentro de grupos da esquerda, em não buscar uma união. Como responde a isso?
Acredito que dentro da esquerda deve ter unidade e ao mesmo tempo respeito a diversidade. Temos unidade e fortaleceremos a unidade em relação a temas fundamentais que são comuns a todas as forças progressistas. A defesa dos direitos sociais, a defesa da democracia, o que implica inclusive na defesa do direito de o Lula ser candidato, oposição ao militarismo, a oposição a tentativas de manobra como semiparlamentarismo que está sendo gestado nessa aliança de Temer-Gilmar, de maneira escusa. Ao mesmo tempo não podemos jogar a diferença para baixo do tapete, não podemos defender que na esquerda temos um pensamento único, não pode ter intolerância. Existem diferenças reais no campo da esquerda, de projeto, de país, e essas diferenças têm que ter oportunidade de se expressar, é saudável para o debate político.

Mesmo que se corra o risco de não se eleger um candidato?
As eleições têm dois turnos, o primeiro turno é um momento em que o debate deve ser feito com as diferentes posições. Eu espero ter a oportunidade de ir para o segundo turno e ganhar as eleições. Independentemente de quem esteja no segundo turno, é natural que haja uma unidade do campo progressista.

O senhor apoiaria o Ciro Gomes?
Eu acredito que no segundo turno deve haver uma unidade no campo progressista para vencer a direita e o campo do Temer.

O Ciro está nesse campo?
Tenho diferenças com o Ciro, diferenças programáticas, que estão colocadas no próprio debate, mas o Ciro, por exemplo, é contra o presidente Temer, foi contra o golpe, defende a democracia, é contra a reforma da Previdência, foi contra a reforma trabalhista…

E Marina, o senhor apoiaria?
Marina Silva cometeu erros importantes, atravessou um rubicão por três meses. Quando a Marina apoia o Aécio no segundo turno, isso é algo grave. Quando ela defende o golpe parlamentar que aconteceu no Brasil e encampa a bandeira do “Fora Dilma”, isso é algo muito grave. Quando a Marina não se posiciona contra a condenação do Lula, isso é algo igualmente grave. As posições que a Marina Silva tomou acho que a descredenciam no campo da esquerda. Ela queimou pontos. 

O PT vai insistir no nome de Lula. É uma boa estratégia política?
Acho que o Lula tem direito de ser candidato. O Lula sofreu uma condenação política sem provas. É natural que o PT queira levar a possibilidade da candidatura até as últimas consequências.

O escândalo da Petrobras, investigações importantes da Lava-Jato, é possível desconsiderá-las?
Em hipótese alguma. O combate à corrupção é essencial no país, independente de filiação partidária.

Então?
Todos nós estamos indignados com as expressões de corrupção no país. Não podemos cair no conto do vigário de que a corrupção na Petrobrás começou ontem. Isso não é real. Aliás, as nomeações políticas, o uso de recursos públicos, facilitação de contratos vinculados a financiamentos de campanha eleitoral, gente, isso é assim há 20, 30 anos. Isso tem que ser enfrentado, o fato de dizer que começou antes não é dizer: “É normal, é assim”. Isso tem que ser enfrentado, com investigação, mas investigação séria, que não seja seletiva, não dá pra juiz assumir papel de chefe de partido político e escolher réu, escolher quem condena e preserva. Eu não vi até hoje nenhum tucano preso, não vi. Alguém acredita que não foram presos porque não cometeram crimes?

Como se resolve isso?
Com reformas. Eu defendo o financiamento exclusivamente público e, mais do que isso, que sei que também deve significar que não é financiamento nas campanhas de agora, tem que ser um barateamento das campanhas, essa história de campanha eleitoral ser uma Disneylândia não dá para ser assim.

O senhor vai gastar quanto na campanha?
Eu vou ter o que o fundo público destina ao PSol, que o partido está definindo a divisão nas candidaturas presidenciais, proporcionais e as demais.

Se um banqueiro quisesse ajudar a campanha do PSol, aceitaria?
Olha, francamente, com tudo que eu estou falando aqui, duvido muito que algum banqueiro ou empresário queira financiar nossa campanha. Mas nem a pau, nem a pau. Devolvo pelos Correios, nem passo perto. Banqueiro, hoje, no meu entendimento, atua como um inimigo do país. Os bancos brasileiros se comportam como uma coisa de rapinagem e espoliação lesa-pátria. Os bancos com uma taxa acima da internacional, o maior spread bancário do mundo, 32%, não pagam impostos de toda arrecadação tributária do Brasil, menos de 2% são imposto sobre tributação financeira. Não tem arrecadação de lucros e dividendos, são os que mais crescem durante a crise.

Sobre ocupação de áreas privadas, ou invasão, como os críticos de vocês dizem, o senhor não se pergunta se para maioria da sociedade isso é visto como um método não legítimo?
Essa campanha vai ser uma oportunidade incrível para quebrar preconceitos, é assim que encaramos desde o ponto de vista da Previdência. Temos um cenário dramático em relação à moradia, temos 6,2 milhões de pessoas sem moradia e mais de 7 milhões de móveis abandonados. Quer dizer, tem casa sem gente mais do que gente sem casa no Brasil. O drama de alguém não ter o direito de ter onde morar… Em pleno século 21, pode ser considerado natural que 6 milhões de pessoas, na 7ª economia do mundo, não tenham casa? Essa pauta é absolutamente legítima, e é isso que precisamos falar para o país durante a campanha, que quem ocupa uma terra não ocupa porque quer, ninguém vai lá porque quer levar uma vantagem. Quem vai para ocupação é porque não tem alternativa, temos 8 milhões de pessoas nas periferias, principalmente com desemprego, na queda da renda causada pela política desse governo, que no final do mês têm que fazer a dura opção entre pagar aluguel e comprar leite pro filho.

Mas o método não vai contra o estado de direito?
Olha, o estado de direito está baseado na Constituição. A Constituição dá direito à propriedade, mas a mesma constituição diz que a propriedade tem que cumprir uma função social. Um imóvel que está abandonado não cumpre função social, está ilegal, e a ocupação é uma maneira de pressionar o poder público para fazer com que a Constituição seja cumprida, inclusive. A ocupação é um ato legítimo de pressão para que as pessoas possam ter um direito assegurado, mas não cumprido, que é o direito à moradia.

Mas não caberia à Justiça desapropriar aquele terreno?
Caberia, uma pena que fica só no caberia, porque a Justiça não faz isso, o Estado não faz isso. É por isso que existem movimentos sociais.

* Estagiária sob a supervisão de Roberto Fonseca

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