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Correio Braziliense

Com Lula preso, PT transfere estrutura partidária para Curitiba

Os motivos para a decisão são de ordem prática, por causa da presença do líder partidário na cela do Departamento de Polícia Federal da cidade


postado em 10/04/2018 06:00

(foto: AFP / Heuler Andrey )
(foto: AFP / Heuler Andrey )


Curitiba — A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou a cúpula petista a transferir a estrutura política do partido para a capital do Paraná. Os motivos para a decisão são de ordem prática, por causa da presença do líder partidário na cela do Departamento de Polícia Federal da cidade. Sem prazo para a libertação de Lula, a preocupação agora é com o custo da empreitada, pois as duas sedes nacionais do diretório do PT ficam em Brasília e São Paulo, locais onde parte dos parlamentares da legenda passa a maior parte do tempo.

A principal estratégia é tentar mobilizar a cúpula e a militância durante o tempo de prisão de Lula, que, segundo os próprios integrantes do PT, pode se estender. “Não vão libertá-lo tão fácil, vão tentar segurá-lo até a eleição”, disse ao Correio um integrante do diretório nacional da legenda, que está em Curitiba. Na prática, o partido — apesar de ter definido o dia de amanhã como prazo simbólico para a liberdade de Lula pelo Supremo Tribunal Federal (STF) — está cético sobre a soltura do ex-presidente. O ministro Marco Aurélio Mello deve apresentar uma questão de ordem para o plenário sobre um pedido de liminar que suspende a prisão dos condenados em segunda instância. O desdobramento da sessão é visto com ceticismo pelo PT.

Segundo o presidente do diretório estadual do PT no Paraná, Doutor Rosinha, pelo menos as decisões políticas nacionais serão tomadas em Curitiba a partir de agora. Ontem, ocorreu a primeira das reuniões nacionais. Sobre as eleições, Rosinha disse que isso já está decidido: “O nosso candidato é o Lula, não tem o que reavaliar”. Como o Correio revelou, ainda na edição da última sexta-feira, a estratégia é registrar a candidatura da chapa tendo o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad como vice. Depois da impugnação, pois Lula deve ser enquadrado como ficha-suja, Haddad assume a candidatura a presidente. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), presidente do partido, funcionará como uma espécie de porta-voz de Lula. Como reside em Curitiba, terá mais facilidade para o papel. “Como presidente do PT, ela é uma interlocutora privilegiada, sem contar que é absolutamente controlada por ele”, disse um petista.

Outro obstáculo para os petistas é animar a militância durante o tempo que Lula estiver preso em Curitiba. Na área reservada aos apoiadores do ex-presidente, há uma média de 500 pessoas, incluindo simpatizantes e integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). O objetivo é manter esse número a partir do revezamento do pessoal. Eles ocupam um raio de cerca de 100m, na frente de casas vizinhas à Polícia Federal. Ao todo, são três bloqueios da PM nas ruas que circundam o prédio.

Moradores começam a reclamar da movimentação, que, aos sábados e domingos, deve aumentar com a participação de simpatizantes locais. Sem contar com a turma que é contrária ao ex-presidente, que ocupava no fim de semana o outro lado das ruas do imóvel da PF, e que pode voltar a acontecer. Os vizinhos se assustam com a possibilidade da chegada de ônibus de sem-terra e boatos sobre quebra-quebra, além da quantidade de notícias falsas divulgadas nas redes sociais.

Vizinhança


Depois de um fim de semana com grande movimento de simpatizantes do PT que moram em Curitiba — e de uma ação violenta e ainda inexplicável da Polícia Federal na noite de sábado contra os apoiadores de Lula —, a região em torno da corporação registrou um menor fluxo de pessoas. Logo pela manhã, depois de uma entrevista coletiva, a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) foi surpreendida por um homem que pediu para tirar uma foto e, em seguida, gritou: “Aqui é Bolsonaro, p****”. Ela — que estava em área restrita a parlamentares, moradores e público com agenda na PF, além de jornalistas — tentou se desvencilhar do homem, que se protegeu em meio a PMs.

Segundo a parlamentar, o homem se refugiou no prédio da Polícia Federal, onde Lula está preso no quarto andar em um alojamento transformado em cela. A deputada estadual, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) e o deputado Paulo Pimenta (PT-RS) pediram para entrar na sede da PF. Logo depois saíram sem notícias do homem. “Vamos pedir providências jurídicas, porque tememos pela segurança do ex-presidente, incluindo aí a própria comida e bebida entregue a ele”, disse Lindbergh. Os parlamentares do PT citaram os casos da ação da PF na noite de sábado contra manifestantes do PT e o caso das agressões verbais registradas via rádio em áudio capturado durante o voo de Lula entre São Paulo e Curitiba.

 

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