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Correio Braziliense

Apontado como algoz da queda de Parente, Moreira Franco nega pressão

Antes da paralisação dos caminhoneiros afetar todo o país, Moreira Franco cobrou publicamente da Petrobras uma política de preço que fosse "justa"


postado em 02/06/2018 07:00 / atualizado em 02/06/2018 08:47

(foto: Mauro Pimentel/AFP)
(foto: Mauro Pimentel/AFP)
 
Após dois anos à frente da Petrobras, Pedro Parente deixa a estatal bombardeado de críticas, sobretudo da classe política. Deputados e senadores não pouparam o ex-presidente da estatal e a política de preços da companhia, a quem atribuíram a culpa pela greve dos caminhoneiros. Além de ser torpedeado pelo presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), Parente sofreu com o fogo amigo do ministro de Minas e Energia, Moreira Franco. O chefe da pasta, garantem interlocutores do presidente Michel Temer, trabalhou para derrubar o executivo.

Antes da paralisação dos caminhoneiros afetar todo o país, Moreira Franco cobrou publicamente da Petrobras uma política de preço que fosse “justa” e afirmou que os valores dos combustíveis praticados pela estatal estavam “subindo demais”.“Já tinha conversado anteriormente com o presidente Pedro Parente. É uma questão do governo, mas ela (Petrobras) como elemento importante e fornecedora de um bem fundamental, tem de dar a sua experiência, contribuição e avaliação da realidade para que possamos ter uma política de preço que seja justa”, disse o ministro em 18 de maio, durante um evento no Rio de Janeiro.

Assessores de Temer detalharam que Moreira pressionou Parente, durante a greve dos caminhoneiros, e se queixava da política de preços com reajustes diários. O ministro chegou a admitir, no Congresso, mudanças na política de preços. No mesmo dia, o presidente Temer concedeu uma entrevista à TV Brasil em que sinalizava disposição em mudar o mecanismo que reajusta o valor dos combustíveis. As declarações foram interpretadas por Parente como recado do governo de que mudanças eram necessárias.

Moreira, entretanto, nega que tenha feito qualquer pressão. “Isso é uma bobagem. Da mesma maneira que o governo não interfere na política de preços da Shell, da Esso, não vai interferir na política de preços da Petrobras. Posso garantir que sobre esse tema nenhum tipo de pressão foi feita da minha parte”, disse. (A.T)

Quatro perguntas para David Zylbersztajn, professor da PUC-Rio

Como o senhor avalia a saída de Pedro Parente?
O Brasil não aprende. A gente acabou de ver qual o resultado de uma empresa com interferência política, com controle de preços, com subsídios. Pode-se mexer, eventualmente, na questão de periodicidade (dos reajustes de preço nos combustíveis), mas a lógica é a que qualquer empresa do mundo usa, de alinhar os preços aos preços internacionais. Era isso o que o Pedro estava fazendo. Foi isso que fez com que a Petrobras reduzisse sua dívida, se transformasse em uma empresa viável. Empresa viável não é só para o acionista, mas também para fazer parcerias, investimentos, ter custo de capital menor. Estava em uma trajetória impecável de recuperação.

O que achou das repostas do governo à crise com os caminhoneiros?
Estão recriando a conta petróleo, que foi uma das piores experiências que o Brasil já teve. Isso acaba sobrando para a Petrobras. Ter o governo como devedor não é uma das melhores coisas, ainda mais uma empresa controlada pelo próprio governo. É como se o governo pegasse dinheiro de uma empresa da qual é o principal acionista. Isso não é aceitável. Espantam-me as propostas do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que, em nenhum momento, falam em abrir o setor de refino, obrigar (a Petrobras) a vender (refinarias). Foi o único monopólio que mantido. Ela perdeu o monopólio na exploração e produção e vai muito bem. Perdeu o monopólio na distribuição, nos transportes, mas continuou 100% monopolista no refino. É um bom momento para o Cade dizer: “olha, você tem um prazo para vender 30% ou 40% do seu parque de refino”.

Qual foi o principal erro do governo?
O mais errado é voltar a usar a Petrobras. Para reconstruir a credibilidade, você precisa, às vezes, até de uma geração.

Ainda é reversível?
Se o governo estava interferindo na gestão do Pedro Parente, vai intervir na gestão de quem vier. Começar tudo de novo, com uma política correta, vai demorar muito mais do que demorou, até agora. O custo de empréstimos vai ser mais alto, o alongamento (do prazo da dívida) vai ser mais difícil, vai haver menos investidores, a empresa vai fazer menos parcerias. Com isso, o valor da empresa cai. A Petrobras é uma empresa nacional, uma das melhores do País em termos de qualificação humana e tecnologia. É uma coisa que dá orgulho ao País. Ao mesmo tempo em que é nossa, nós vamos destruir? É uma coisa maluca.

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