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Correio Braziliense

Qual o perfil dos políticos brasileiros eleitos com menos de 30 anos?

Deputados com menos de 30 anos repetem comportamentos dos mais antigos no Congresso e nada fazem para mudar o cenário


postado em 17/06/2018 07:00 / atualizado em 16/06/2018 23:09



Se a política é feita para definir o futuro dos jovens, não são eles que ocupam as principais cadeiras de comando do país. Além da falta de voz no cenário político, os que se destacam e conquistam uma vaga nem sempre pleiteiam mudanças no jogo. Apesar da idade, eles são "velhos" políticos, que reafirmam discursos conservadores e validam o status quo dentro do sistema. Dentro do poder, seguem a corrente de pensamentos existentes e deixam para trás um legado que poderia transformar o país.

As candidaturas de jovens na política representam uma parcela mínima do total. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, nas eleições de 2014, candidatos com menos de 30 anos não tiveram espaço. Aqueles que tinham entre 18 e 19 anos representavam 0,07%, enquanto apenas 2% tinham de 20 e 24 anos. Pessoas entre 25 a 29 anos alcançaram 4,32%. Em 2016, por serem eleições municipais, o quadro melhorou, mas, ainda assim, o dado não foi otimista. A maior participação foi encontrada em jovens entre 25 a 29 anos, por exemplo, com 6,13%.

Entrar na política com menos de 30 anos não é inédito, mas traz uma série de características repetitivas de outras eleições. Isso porque, por mais que os jovens disputem o jogo eleitoral, são sempre os mais velhos que conduzem o poder, de forma oligárquica. O termo usado para este tipo de gestão é gerontocracia. É isso o que explica o professor de sociologia e política Rodrigo Prando, da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Temos um poder assentado pelos mais velhos. A estrutura política brasileira tem muita dessa gerontocracia. Os partidos políticos, em maior ou menor grau, não abrem espaço para os mais jovens. A política sempre foi algo a ser realizada pelos homens mais velhos”, afirmou.

Perfil


Com poucas candidaturas, os dados dos eleitos na política também foram baixos. Em 2014, foram 64 escolhidos com menos de 30 anos. Ao todo, 44 ocuparam as vagas de deputados estaduais em todo o país, e 20 o cargo de deputado federal. Em 2016, na disputa municipal, esse número foi um pouco maior. Para o posto de prefeito, foram 137 eleitos, enquanto 4,3 mil vereadores tinham menos de 30 anos.

A poucos meses do fim da 55ª legislatura, o Correio selecionou os 20 jovens eleitos em 2014 para ocuparem o Congresso Nacional, para mapear o perfil deles, como chegaram até ali e se comportaram nas votações de pautas polêmicas nos últimos quatro anos. A característica mais interessante percebida foi que 90% são homens e também têm políticos na família. A maioria também veio de estados do Nordeste (45%), seguido por Sudeste (25%), Norte (15%), Sul (10%) e, por último, Centro-Oeste (5%).

O Correio também procurou processos judiciais contra eles. São três casos. Em termos de votação, os jovens também mostraram seguir os padrões dos mais velhos dentro do Congresso Nacional. Ao todo, 80% foram a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, e a maioria votou para arquivar as denúncias contra o presidente Michel Temer. Enquanto 50% foi a favor do arquivamento, 40% votou contra e 10% se ausentaram da votação e ajudaram a livrar Temer. A intervenção federal no Rio teve o aval de 85%, e a reforma trabalhista de 70%. Apenas 20% deles trocaram de partido mais de duas vezes no período.

Pensamentos


O poder no país também se caracteriza como patriarcal, segundo Prando. É por causa desse caráter que os filhos de políticos tendem a votar como os pais votariam, e acabam repetindo os velhos pensamentos e valores. “A configuração do poder no Brasil, sobretudo no Legislativo, é patriarcal. Não é apenas o pai, mas também é o homem que manda. E, além disso, tudo é sempre o mais velho”, avaliou Rodrigo Prando. É por isso, que na análise de Prando, infelizmente, os jovens só têm mais voz e espaço dentro da política quando têm sobrenomes de peso ou quando são apadrinhados por deputados poderosos. “No fundo, é por isso que parece ser ‘mais do mesmo’. Porque são sempre pessoas com políticos na família”, explicou.

Apesar de as chances serem baixas, um jovem “com um poder excepcional de comunicação” também poderia conseguir uma vaga, avalia Prando. A desconfiança da sociedade, no entanto, pode colocar em xeque a candidatura de um rosto novo na política e, consequentemente, a renovação do Congresso. “O eleitor sempre vai pensar se o jovem tem experiência e condições para resolver problemas de saúde, segurança e educação. E, se ele tem um sobrenome, eles vão pensar que tudo bem, ele é jovem, mas tem o pai”, opinou o especialista.

Mas há chances para aqueles que querem se eleger sem sobrenome. O desafio é que os jovens não têm tradição de participar ativamente da política. “A descrença é generalizada. O jovem acredita que o espaço é vedado para ele. No fundo, ele pode, muitas vezes, ter interesse de mudanças e se comportar assim até um determinado momento, mas chega na fronteira e ele não vai, não avança”, completou. Para os que querem arriscar e colocar em prática as ideias de mudanças, o TSE aceita a candidaturas de pessoas com menos de 30 anos para os cargos de vereadores, prefeitos, deputados estaduais e federais.

Para se candidatar é preciso

- Nacionalidade brasileira;
- Pleno exercício dos direitos políticos;
- Alistamento eleitoral;
- Domicílio eleitoral na circunscrição;
- Filiação partidária.

Idades mínimas:

- 35 anos para presidente, vice-presidente da República e senador;
- 30 anos para governador e vice-governador dos estados e do Distrito Federal;
- 21 anos para deputado federal, deputado estadual ou distrital, prefeito, vice-prefeito;
- 18 anos para vereador.

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)

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