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Correio Braziliense

Polícia faz buscas nas celas de Estevão e Geddel, na Papuda

Policiais fazem busca no bloco 5 do Centro de Detenção Provisória para apurar regalias concedidas aos dois detentos na Papuda. Com o ex-senador, foram apreendidos pen-drives e documentos, além de produtos proibidos no sistema penitenciário


postado em 18/06/2018 07:00 / atualizado em 18/06/2018 08:34

Luiz Estevão: no momento da operação, durante a partida da Seleção Brasileira, o ex-senador teria tentado descartar cinco pen-drives, que acabaram recolhidos pelos policiais(foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press - 1/2/17)
Luiz Estevão: no momento da operação, durante a partida da Seleção Brasileira, o ex-senador teria tentado descartar cinco pen-drives, que acabaram recolhidos pelos policiais (foto: Helio Montferre/Esp. CB/D.A Press - 1/2/17)
Enquanto a bola rolava em Rostov, na Rússia, com a Seleção Brasileira em campo, cerca de 40 policiais civis entraram no bloco 5 do Centro de Detenção Provisória (CDP), no Complexo Penitenciário da Papuda. Estava em curso a Operação Bastilha, sob a responsabilidade da Divisão de Facções da Coordenação de Combate ao Crime Organizado, aos Crimes contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (CECOR). Os alvos eram dois presos ilustres: o ex-senador Luiz Estevão e o ex-ministro Geddel Vieira Lima. Os mandados de busca e apreensão foram expedidos pela Vara Criminal de São Sebastião como medida para avaliar suspeitas de regalias concedidas na Papuda aos dois detentos. O trabalho tem o apoio dos promotores do Núcleo de Controle e Fiscalização do Sistema Prisional (Nupri).

O horário para a entrada no CDP foi escolhido estrategicamente. Os presos foram surpreendidos quando a partida entre o Brasil e a Suíça já estava empatada. Estevão e o companheiro de cela, José Dirceu, foram levados para o pátio central do bloco, enquanto os policiais civis da DOE (Divisão de Operações Especiais) vasculhavam o local. Como na fiscalização do ano passado, foram encontrados chocolates e agora também medicamentos sob o poder de Estevão, que serão avaliados para comprovação de que estão permitidos pela Vara de Execuções Penais. Uma tesoura também foi achada, objeto vetado no sistema penitenciário.

Documentos

No momento em que foi retirado da cela, o ex-senador Luiz Estevão tentou descartar cinco pen-drives, mas um agente percebeu a movimentação e fez a apreensão. O conteúdo desses dispositivos também será avaliado pela investigação. No caso de Geddel, ex-ministro do governo Michel Temer, havia apenas anotações. O emedebista está preso provisoriamente desde setembro do ano passado, depois que as malas de dinheiro com R$ 51 milhões, que pertenceriam a ele, foram descobertas em um apartamento em Salvador. Geddel divide a cela com outros nove presos, enquanto Estevão tem apenas como companheiro no cárcere o ex-poderoso ministro do governo Lula José Dirceu, que cumpre pena de 30 anos e nove meses de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, em ação da Lava-Jato.

Durante a busca, chamou a atenção dos investigadores a grande quantidade de documentos de Luiz Estevão apreendida na biblioteca do bloco 5, dando a impressão de que a sala de uso comum funciona como um escritório particular do empresário. No local, foram apreendidas várias pastas, com documentos de negócios do ex-senador. Toda a operação no CDP foi registrada em vídeo pelos policiais civis, mas as imagens não serão divulgadas para preservar o ambiente do sistema penitenciário. Detalhes, no entanto, poderão ser usados como evidências no inquérito.

Com Geddel, foram encontradas anotações: ex-ministro divide a cela com nove presos(foto: Sergio Lima/AFP - 8/9/17)
Com Geddel, foram encontradas anotações: ex-ministro divide a cela com nove presos (foto: Sergio Lima/AFP - 8/9/17)

A investigação do Nupri e da Divisão de Facções começou no início do ano, a partir de denúncias de que presos ligados a organizações criminosas tramavam ações de violência contra delegados e juízes. Esses fatos, descritos em relatórios de inteligência da Secretaria de Segurança Pública e Paz Social, não foram confirmados, mas a apuração avançou com evidências de regalias concedidas aos presos do bloco 5, uma área de vulneráveis, em que cumprem penas ex-policiais e políticos. Passaram por lá o doleiro Lúcio Funaro e o ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, que ficaram amigos de Estevão.

Condenado a 26 anos de prisão por desvios de recursos públicos do TRT de São Paulo, Estevão está na cadeia há dois anos e três meses. Não é a primeira vez que são detectados benefícios a políticos, vantagens que outros presidiários não desfrutam (leia memória). No ano passado, durante uma fiscalização, foram encontrados chocolates, cafeteira elétrica, máquina de café e massa importada. O privilégio resultou na exoneração do diretor do CDP, Diogo Ernesto, e do diretor adjunto da prisão, Vitor Espíndola Salas.

 
Favorecimentos são recorrentes 

Presos ilustres, com condenações de três décadas de prisão, José Dirceu e Luiz Estevão aparecem em outros episódios de favorecimentos no sistema penitenciário do DF. Em maio, três delegados, João Helder Ramos Feitosa, Marcory Geraldo Mohn e Elivaldo Ferreira de Melo, e um agente da Polícia Civil, Wilton Borges de Sousa, foram denunciados pelo crime de corrupção passiva privilegiada e são alvos de uma ação de improbidade administrativa por terem beneficiado com regalias José Dirceu e outros três condenados no processo do mensalão durante o cumprimento da pena do sistema penitenciário do Distrito Federal.

Segundo as ações, ajuizadas pelos promotores do Núcleo de Investigação e Controle Externo da Atividade Policial (NCAP), Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e o publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza tiveram privilégios autorizados pelos policiais civis que atuavam na Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe), em 2014, durante o governo de Agnelo Queiroz (PT). Eles recebiam visitas fora do horário permitido a outros detentos e, pelo menos uma vez, a filha do ex-chefe da Casa Civil Joana Saragoça chegou na cadeia do Centro de Internamento e Reeducação (CIR) dentro de uma viatura descaracterizada conduzida pelo agente Wilton Borges de Sousa, então chefe de gerência de inteligência da Sesipe.

O ex-senador Luiz Estevão responde a uma ação de improbidade administrativa por financiar a reforma do bloco do Centro de Detenção Provisória (CDP) onde cumpre pena no Complexo da Papuda. O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) apontou que a reforma foi executada por uma empresa de fachada, sob a coordenação de uma arquiteta do grupo empresarial de Estevão.

Também são alvos da ação o ex-subsecretário do Sistema Penitenciário (Sesipe) Cláudio Magalhães, o ex-coordenador-geral da Sesipe João Helder Ramos Feitosa e o ex-diretor do CDP Murilo Cunha, acusados de conivência. Os três delegados da Polícia Civil foram designados pelo governo de Agnelo Queiroz para atuar no sistema penitenciário.

Na ação, ajuizada em agosto de 2016, cinco promotores de Justiça do Núcleo de Controle e Fiscalização do Sistema Prisional (Nupri) compararam Estevão ao narcotraficante Pablo Escobar, que construiu um presídio em Medellín, que ganhou o nome de La Catedral.

Em janeiro do ano passado, em uma vistoria realizada no CDP, foram encontrados itens proibidos na cela de Luiz Estevão, como chocolate, cafeteira elétrica, cápsulas de café e massa importada. Por conta disso, o empresário passou uma temporada na solitária.

O ex-senador responde ainda a outra ação de improbidade por ter sido liberado indevidamente da prisão para passar o fim de semana em casa, apenas com autorização da Sesipe, sem o aval da Vara de Execuções Penais. Uma das filhas de Estevão postou uma foto do pai nas redes sociais, o que despertou a atuação do Ministério Público Federal. Também nesse caso os servidores responsáveis pela liberação, Cláudio Magalhães e Murilo da Cunha, se tornaram alvo da ação de improbidade.

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