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Correio Braziliense

Ministro suíço: Brasil acordou para 'envio ilegal de dinheiro ao exterior'

Ministro das Finanças do país europeu, Ueli Maurer destaca a importância dos brasileiros para a economia do país e comenta os esforços conjuntos para combater crimes financeiros


postado em 28/07/2018 08:00

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Mais de 9 mil quilômetros separam o Brasil da Suíça. Mas toda essa distância não impediu que as duas nações fossem intimamente ligadas por fatores econômicos e políticos. De acordo com o Departamento Federal de Finanças do país europeu, entre 2010 e 2017, o Brasil foi o responsável por cerca de 40% das relações comerciais na região. O segundo lugar ficou com o México, com 20% de participação no mesmo período.

Outro fator que une as duas nações é o combate à corrupção. A Suíça aparece como o principal destino de dinheiro desviado dos cofres públicos e enviado ilegalmente para o exterior. Esquemas, como o investigado pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, enviaram bilhões de reais para bancos suíços em busca de despistar a fiscalização. Para expandir as relações comerciais entre as duas nações, o ministro das Finanças da Suíça, Ueli Maurer, visitou o Brasil e conversou com empresários e autoridades. Em entrevista exclusiva ao Correio, o ministro destaca a importância dos brasileiros para a economia do país e comenta os esforços conjuntos para combater crimes financeiros. Veja abaixo trechos da entrevista.

Em 2014, a Polícia Federal iniciou uma grande investigação contra a corrupção. Descobriu-se que uma megaorganização criminosa desviou dinheiro de empresas públicas, como a Petrobras, e enviou para o exterior. A Suíça foi um dos principais destinos. Atualmente, vocês têm algum tipo de controle sobre valores do exterior que entram no país?

Os bancos suíços detêm 25% de todo o faturamento exterior. Nós temos milhões de transações todos os dias. Não é possível saber, neste momento, o que chega. Mas nós estamos trabalhando em colaboração (com o Brasil), não apenas no nível político, mas também agindo em conjunto com a Procuradoria-Geral. É muito complicado. Mas há muitas pessoas trabalhando nessa área.

Como a Suíça vê as notícias sobre os escândalos de corrupção no Brasil?

Nós não temos muitas informações sobre isso. A cada duas semanas, nós lemos algumas coisas nos jornais, mas não acho que isso seja especial. Eu diria que nós temos um ótimo relacionamento com o governo (brasileiro). Nós vemos o trabalho do Banco Central, assim como os casos de empresários, e o Brasil é um país muito importante para a Suíça, a parceria mais importante da América Latina, para nossas exportações também. Nós temos um nível muito bom de relacionamento, assim como o país é muito simpático com os suíços. Atualmente, temos cerca de 20 mil brasileiros vivendo na Suíça.

O senhor iniciou uma viagem para a América Latina agora. Qual é o objetivo? 

Para a Suíça, a América Latina é um mercado importante. Nós tivemos uma boa relação no passado também. Há alguns anos, a Suíça era um país pulsante na Europa, e muitos deixaram o país para ir para o Brasil e para a Argentina. Nós temos boas conexões com as pessoas daqui. Há, inclusive, algumas pessoas que têm sobrenomes suíços por aqui (risos). Na Argentina, mais ainda do que no Brasil, há muitos fazendeiros também suíços, que vieram pra cá anos atrás. É uma longa e tradicional relação entre os países. É mais um pedaço do nosso país no continente.

Visitaram quantos países?

Nós visitamos os países do Mercosul. Chile, Argentina, e antes disso, outro colega (do governo) visitou Uruguai, México e Paraguai também.

Como o senhor tem visto a atitude das autoridades brasileiras no combate a crimes financeiros aqui e no exterior?

Acho que as autoridades brasileiras “acordaram”. Depois dos escândalos, ficou claro que há uma força-tarefa para encontrar soluções para esse tipo de problema. Isso é impressionante pra mim. Eu acho que vocês caminham em uma boa direção.

Existe alguma experiência do senhor à frente do Ministério das Finanças da Suíça que poderia ser aplicada ao Brasil?

Eu diria que o principal é trabalhar com finanças sustentáveis. A Suíça investe cada vez mais em projetos para o meio ambiente. E eu acho que isso é um próximo passo para vocês. Investir em novas tecnologias, em “block technology”, diminuir os custos. Nós temos uma larga experiência nisso. Eu acho que trabalhar com uma finança sustentável não é apenas importante para o Brasil e para a Suíça, mas é o futuro como um todo, e temos que ir nesta direção. Neste momento, a dificuldade do Brasil, nesse sentido, é porque vocês terão que fazer alguns investimentos em infraestrutura, e nós começamos isso lá atrás. Mas o potencial do país é enorme.

As eleições de outubro podem ter um efeito contrário?

Ah, mas vocês não vão conseguir mudar a situação em apenas alguns dias. Eu acho que os jovens vão promover a mudança, eles vão em frente, terão sucesso, e tudo isso é uma combinação para o país. A juventude vê os problemas do passado e faz melhor no futuro. Eu acho que o potencial é ótimo. Na Suíça, não temos a mesma situação. Nós somos velhos, mas nós fizemos isso no passado. Essa é a diferença. Vocês têm que ter algumas experiências que nós tivemos. Eu acho cada vez mais importante analisar o potencial do futuro para os próximos 20 anos. É para uma geração futura. Essa é a minha impressão. Eu sou um grande fã do Brasil (risos).

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