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Correio Braziliense

Acordo feito entre PT e PSB é ameaçado por resistências estaduais

A falta de entendimento nos estados anima o PDT, que oferecem acolhimento para os insatisfeitos com a aliança. Lideranças petistas e pessebistas no Congresso reconhecem equívocos dos diretórios nacionais


postado em 03/08/2018 08:09 / atualizado em 03/08/2018 08:24

A petista Marília Arraes se recusa a abandonar candidatura ao governo de Pernambuco em benefício de Paulo Câmara, do PSB(foto: Camara de Veradores/Divulgação)
A petista Marília Arraes se recusa a abandonar candidatura ao governo de Pernambuco em benefício de Paulo Câmara, do PSB (foto: Camara de Veradores/Divulgação)
 
O acordo entre caciques do PSB e do PT para isolar o PDT, de Ciro Gomes, apresenta focos de incêndio. Ontem, depois de a petista Marília Arraes ter negado desistir da candidatura ao governo de Pernambuco e conseguir apoio de correligionários no estado, o candidato pessebista ao governo de Minas Gerais, Márcio Lacerda, também bateu o pé e peitou o partido. O ex-prefeito de Belo Horizonte ameaçou, inclusive, recorrer à Justiça para se manter na disputa. A falta de entendimento nos estados anima os pedetistas, que oferecem acolhimento para os insatisfeitos com a aliança.

Apesar de cumprir com o objetivo de enfraquecer Ciro, a estratégia petista pecou em não combinar com os "russos". Até mesmo lideranças de ambas as legendas no Congresso reconhecem equívocos dos diretórios nacionais. O deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), vice-líder da legenda na Câmara, avalia que o acordo foi selado muito tardiamente. "Acho que não deveriam deixar para última hora essas costuras. Com todo o respeito às lideranças, acho que política a gente faz com discussão. Não com autoritarismo, da forma como o PT fez, passando por cima", ponderou.

O pessebista não acredita em desmanche do acordo em função da insatisfação de Arraes e Lacerda. Mas prega diálogo para que se chegue a um ponto de equilíbrio. A análise é respaldada pelo deputado Patrus Ananias (PT-MG), vice-líder da legenda na Câmara. "O acordo me despertou dúvidas e ressalvas. Impedir a candidatura de Marília me deixa apreensivo. Defendo que as alianças sejam programáticas e pensadas com serenidade", sustentou.

As conversas entre líderes do PT e do PSB com os candidatos em Pernambuco e Minas Gerais não vão demorar. É interesse dos diretórios nacionais colocar panos quentes sobre a polêmica. O desafio vai ser desinflar os ânimos. Lacerda afirmou ontem estar em conversas com Arraes, que, segundo ele, sugeriu que “lute para sobreviver” em Minas, enquanto ela tenta manter a candidatura em Pernambuco. A estratégia dele será a judicialização.

O ex-prefeito de Belo Horizonte iniciou ontem um movimento para fortalecer a candidatura. Em áudio, Lacerda pediu apoio a pessebistas na convenção estadual do partido, no sábado. “Refletindo hoje, dialogando com companheiros mais próximos, decidi manter minha candidatura. Para isso, é muito importante que todos os delegados e todos os apoiadores compareçam à convenção”, afirmou.

PDT inicia nova estratégia

A divisão em Pernambuco e Minas levou o PDT a agir. O vice-presidente nacional do partido e líder na Câmara, deputado André Figueiredo (CE), sustentou nas redes sociais o lançamento de mais candidaturas a governos nos estados. Uma clara estratégia na tentativa de reduzir a aliança entre PT e PSB. “Defendo que lancemos cada vez mais candidatos aos governos estaduais. Já temos sete, além de vices e senadores”, disse.

O líder sugeriu, inclusive, lançar uma candidatura própria em Pernambuco com o advogado Túlio Gadelha. Para ele, a chapa poderia contar com apoio de Arraes. “Por que não, depois do que fizeram com ela?”, questionou. O diretório do PDT em Minas também sinalizou apoio a Lacerda.

A estratégia do PDT em ampliar candidaturas nos estados é inteligente, mas será incapaz de impedir o isolamento da candidatura de Ciro, avalia o sociólogo e cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “São reações locais. As decisões que rifam e desidratam o pedetista vêm de cima para baixo”, analisou.
 

"Providência golpista", diz Ciro 

O candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) chamou o movimento petista que garantiu a neutralidade do PSB nas eleições nacionais de “providência golpista”. “Ninguém pode falar em golpe e praticar o golpe”, disse. O pedetista diz não saber o que fez para merecer um tratamento “tão desleal e tão traiçoeiro” por parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. “Esse comportamento está na base moral da corrupção”, completou.

Ciro afirmou que o PT é “um dos grandes responsáveis pela tragédia brasileira”. Ele disse que nunca quis o apoio do PT — e que sempre afirmou que o PT “tem a natureza do escorpião”. “Eu quero falar é com eleitorado do PT, que é o melhor, mas deve estar frustrado.” A declaração foi dada antes do pedetista participar de seminário sobre os desafios da justiça fiscal, realizado em São Paulo.

O candidato chamou o acordo do PT com o PSB de “um grosseiro equívoco” e afirmou que todo o campo progressista saiu perdendo porque, segundo ele, a manobra petista teve como único objetivo “tirar segundos de TV de sua campanha”. “Aí você sacrifica uma jovem promissora liderança de Pernambuco (a vereadora Marília Arraes) e sacrifica um candidato de Minas Gerais (Marcio Lacerda) com uma aliança imensa”.

Sobre Marília, Ciro seguiu dizendo que foi uma violência com uma jovem que está começando a vida. “Cortar o pescoço de uma jovem pernambucana, politizada, nunca vi coisa igual.” Ciro garante que ainda não recebeu nenhum tipo de “sinal de fumaça” do PSB sobre o acordo fechado com o PT. Para ele, “o mais chocante” é o fato do PSB acertar um acordo para se omitir do debate em função da lógica de Pernambuco. “Um equívoco grosseiro dessa oligarquia política que acha que me tirar segundos vai me impedir de apresentar minha mensagem”, disse.

O candidato considera estranho o fato dos candidatos que estão mais próximos de Lula nas pesquisas estarem sendo isolados. “Aí tem”, disse, referindo-se aos candidatos Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e ele próprio. “Imagina se alguém vai conseguir esconder um Bolsonaro e uma Marina dessa disputa. Isso é a oligarquia partidária querendo tirar o povo da jogada e manter as tenebrosas transações em seus gabinetes.”

Quem será o vice?

O acordo com o PSB e a retirada da candidatura de Marília Arraes também está mexendo com a vaga de vice na chapa pedetista. Segundo interlocutores, o deputado Silvio Costa (Avante-PE), que seria candidato ao Senado na chapa de Marília, estaria se sentindo “rifado” e “traído” pelo PT. Costa foi um dos deputados mais atuantes na defesa da ex-presidente cassada Dilma Rousseff. 

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