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Correio Braziliense

PT e PSB vão a encontros partidários descontentes após isolamento de Ciro

PT e PSB chegam aos encontros partidários com correligionários descontentes depois do acordo que isolou Ciro Gomes. Lula veta anúncio de Manuela D´Ávila (PCdoB) como vice na chapa petista


postado em 04/08/2018 07:00 / atualizado em 04/08/2018 00:22

Gleisi (C), presidente do PT: partido reafirmou acordo com o PSB, desconsiderou a candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, e decidiu atrasar anúncio do vice ao Planalto(foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)
Gleisi (C), presidente do PT: partido reafirmou acordo com o PSB, desconsiderou a candidatura de Marília Arraes, em Pernambuco, e decidiu atrasar anúncio do vice ao Planalto (foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)


A um dia da convenção partidária, o PT defende a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com cicatrizes abertas. As negociações em torno de apoio para consolidá-lo como cabeça de chapa e ganhar musculatura em território nacional refletiu diretamente no diretório de Pernambuco e alarmou a militância da ex-vereadora Marília Arraes, que deixará de disputar o cargo de governo do estado.

Arquitetado por Lula e Fernando Haddad, o acordo firmado com o PSB de se manter neutro nessas eleições foi uma manobra para garantir o movimento pró-Lula em ao menos nove estados do Nordeste — cerca de 20% do eleitorado Lulista —, três estados do Norte e isolar Ciro Gomes (PDT), que ensaiava uma coligação com os socialistas.

Marcada para hoje, em São Paulo, o encontro nacional do partido vai oficializar a candidatura de Lula à Presidência, definir as estratégias da chapa petista ao pleito e discutir alianças. Atualmente, a legenda mantém conversa com o PCdoB, o PDT e o Pros. Aconselhada pela assessoria jurídica para seguir a recomendação da lei eleitoral, a presidente petista Gleisi Hoffmann anunciaria um nome para vice durante o evento.

A colega de chapa seria Manuela D’Ávila (PCdoB), cujo discurso desde o início da pré-campanha tem sido de unificação da esquerda. No entanto, após se reunir com Lula, em Curitiba, anunciou que recuaria no anúncio, a pedido do ex-presidente. “Não tivemos jurisprudência que mude a regra do TSE no prazo para apresentação da vice. Vamos encaminhar junto à Executiva Nacional”, disse. A expectativa é de que o anúncio da vice fique para depois, na data de registro da chapa, dia 15.

Embora não haja uma confirmação sobre quem acompanhará Lula no pleito, Fernando Haddad segue como plano B em caso de uma provável impugnação da candidatura do ex-presidente. Nessas situações, segundo a resolução do Tribunal Superior Eleitoral, a sigla tem até 10 dias para homologar um novo nome. A identidade escolhida, por sua vez, fica a critério do partido, baseada nas regras internas da legenda.


Marília Arraes, que disputaria o governo de Pernambuco: o PT ofereceu a candidatura à Câmara dos Deputados (foto: Câmara de Vereadores/divulgação)
Marília Arraes, que disputaria o governo de Pernambuco: o PT ofereceu a candidatura à Câmara dos Deputados (foto: Câmara de Vereadores/divulgação)

 

Durante a convenção, o diretório de Pernambuco decidiu não participar da votação em sinal de protesto contra o cancelamento da pré-candidatura de Arraes ao governo estadual. Segundo pessoas do partido, a ideia é mostrar que “já são voto vencido”, mas que não se opõem à decisão de Lula. Apesar de ter a candidatura aprovada na última quinta-feira, a ex-vereadora Marília Arraes recebeu o convite de Hoffmann para disputar o cargo de deputada federal por Pernambuco ou seguir como coordenadora nacional da campanha do PT. Embora chateada, parlamentares petistas afirmam que ela não insistirá para concorrer ao governo do estado este ano.

“Ela vai dar a Lula a vitória política em Pernambuco. E estará satisfeita com isso”, disse um petista. O partido de Carlos Siqueira, o PSB, também chega à convenção nacional, marcada para amanhã, em Brasília, dividido. No encontro, serão votados por 300 delegados a resolução socialista assinada com o PT, a posição oficial do partido nestas eleições e as estratégias para coalizões.

A decisão do PSB em âmbito nacional, de não formar coligações com Ciro, tirou de cena Márcio Lacerda, que concorreria ao governo de Minas Gerais, para dar espaço a Fernando Pimentel (PT-MG). O diretório mineiro foi, inclusive, destituído por Siqueira, e já está sob o comando de Renê Vilela. Insistente em manter a candidatura, Lacerda entrou com recurso no TSE para revogar a decisão. No entanto, segundo resolução do partido aprovada em congresso, todas as candidaturas majoritárias devem ser aprovadas previamente pelos caciques da Nacional.


Isolamento

A incessante busca do PT por alianças não foge da estratégia em isolar o PDT, que também desejou contar com o apoio do Pros. Como a aliança com o PSB não envolve, de fato, uma coligação, trazer partidos para a campanha petista é favorável para elevar o número de minutos disponíveis no horário eleitoral e ampliar o leque de palanques nos estados. A depender do acordo, é possível obter apoio em locais onde o candidato petista não aparece entre os mais cotados.

O presidente nacional da legenda, Eurípes Júnior, acredita que a executiva nacional chega ainda hoje a uma definição sobre qual candidatura apoiar. “Fomos muito bem recebidos e procurados por diversos partidos. Apresentei pessoalmente nossa estrutura e ouvi de líderes de grandes legendas que somos o partido mais bem organizado do Brasil”, disse, ontem, na convenção nacional.

A sigla petista pode pagar um preço alto por isolar Ciro, pondera o analista político Antônio Augusto de Queiroz, diretor de Documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Para ele, o PDT vai apostar em uma estratégia de vitimização. “Ciro vai se vitimizar. Dizer que foi atacado pela esquerda petista que deseja manter a hegemonia no país. E atacar o centrão e Alckmin, com o argumento de que representa a continuidade do programa do atual governo (do presidente Michel Temer)”, avaliou.

Para tirar o tempo de televisão de Ciro e os palanques estaduais que poderia viabilizar em uma chapa com o PSB, o PT pode ter pago um preço alto. O analista David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), concorda com as análises de Queiroz e vai além. “A desidratação do PDT pode fortalecer candidaturas de Alckmin e Bolsonaro, na medida em que a briga na esquerda deixa o eleitorado confuso sobre quem votar”, ponderou Fleischer.

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