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Correio Braziliense

Por que as eleições presidenciais deste ano lembram as de 1989

Disputa acirrada, presidente desgastado, PT e PDT buscando a hegemonia no campo da esquerda. Cenário atual lembra muito o da primeira eleição pós-ditadura


postado em 07/08/2018 06:00 / atualizado em 07/08/2018 08:18

Debate com os principais candidatos em 1989: semelhanças e diferenças com a disputa deste ano(foto: Carlos Silva/CB/D.A Press)
Debate com os principais candidatos em 1989: semelhanças e diferenças com a disputa deste ano (foto: Carlos Silva/CB/D.A Press)

Terminadas as convenções partidárias, o saldo de concorrentes ao Planalto é de 13 nomes — número que ainda pode diminuir até o fim do prazo para os registros oficiais, em 15 de agosto. As pesquisas eleitorais apontam para uma corrida acirrada entre os primeiros colocados até aqui. Além disso, PT e PDT disputam a hegemonia da esquerda e o ocupante do Planalto amarga índices negativos de popularidade. Tudo muito parecido com 1989, as primeiras eleições depois da ditadura militar.

Naquele ano, 22 candidatos disputaram a Presidência da República. E, assim como tem sido em 2018, a disputa entre PT e PDT pela hegemonia da esquerda foi acirrada. Mas, apesar das semelhanças, os momentos históricos não poderiam ser mais diferentes: no fim da década de 1980, um dos motivos para o grande leque de alternativas era a empolgação pela retomada do sistema democrático, da qual todos os partidos queriam fazer parte e, por isso, lançaram candidatos próprios. Já este ano, é o contrário, explicam especialistas. A desesperança da população, a resistência da crise econômica e a falta de credibilidade no sistema político, juntos, abrem espaço para candidaturas — não pela empolgação, mas pela desilusão. “São situações muito distintas. O sistema partidário brasileiro hoje está muito mais rígido, e o jogo está muito mais claro que no passado, quando a fragmentação se devia à novidade”, avalia o cientista político Carlos Pereira, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresa, da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV).

Apesar dos contextos diferentes, as duas eleições em questão ocorrem em meio a algum tipo de crise. Em 1989, a inflação alta, sem sucesso do governo de José Sarney em contê-la, foi uma das razões para que 22 vários partidos se prontificassem, nas campanhas, a resolver o problema. Este ano, a insatisfação tem como pano de fundo uma crise econômica e um patamar elevado de desemprego. “Estávamos numa crise econômica muito séria, também profunda, só que à época era de hiperinflação. Essa circunstância em relação à economia é semelhante”, lembra Geraldo Tadeu Monteiro, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas sobre a Democracia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O cientista político Sérgio Praça, da FGV, diz que, além da insatisfação com a economia, havia o descontentamento com o partido do governo, na época, o PMDB, atual MDB. “Eles estavam no poder desde 1985 e dominaram a Assembleia Constituinte. Não foi à toa que o Ulysses Guimarães (MDB), nome forte e conhecido, teve só 3% dos votos. As pessoas queriam renovação, e muitos partidos se prontificaram a isso”, explica. Em 2018, a insatisfação é mais profunda e afeta diretamente várias legendas, com destaque a PT, PSDB e MDB. “Em 1989, apesar do desgaste do então PMDB, que pagou o preço naquele momento por ter apoiado o governo Sarney, o sistema partidário ainda era muito recente, oriundo das mudanças ocorridas a partir do início dos anos de 1980, e gozava de prestígio junto ao eleitorado”, compara o cientista político Ricardo Ismael, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Outra semelhança com as eleições de 1989 é a baixa popularidade do presidente da República, que tira da disputa a figura do “candidato do governo”, que costuma participar, com destaque, da corrida eleitoral. A situação de Michel Temer, que hoje conta com 3% de popularidade, se assemelha à de José Sarney naquela época — em setembro de 1989, ele tinha 5% de popularidade. Isso abre espaço para que outro candidato tente “roubar” os votos que, em um cenário normal, iriam para o nome governista. “O governo não estar bem avaliado é um fator para que aumente o número de candidaturas. O candidato do governo, quando tem popularidade, sempre começa com vantagem. Veja FHC, Lula, Dilma, que foram reeleitos. Mas, quando o governo está mal-avaliado, não lança candidato e abre um espaço que todo mundo quer ocupar”, explica Geraldo Tadeu.

Em 2018, além da crise insistente, outra crise assombra os eleitores e é aproveitada pelos políticos: a institucional. Os escândalos de corrupção levam a um quadro com mais candidatos que o normal — a média foi de nove por pleito, entre 1994 e 2014 —, diz Carlos Pereira, da FGV. “Na primeira eleição depois da redemocratização, o jogo estava muito aberto. Fazia sentido todos os partidos tentarem suas chances. Agora, a motivação é que há um choque sem precedentes do sistema político. A corrupção fragilizou a maioria dos partidos e tornou inelegível o principal candidato de esquerda. Isso que abriu o jogo desta vez, tanto para a esquerda, porque todos querem os votos de Lula, quanto para a direita”, avalia o especialista.

A cientista política Silvana Krause, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), atribui o alto número de candidatos à instabilidade política e à possibilidade de agora, depois de anos, haver uma oportunidade para romper com o ciclo PT-PSDB, já que os dois partidos estão envolvidos em escândalos de corrupção. O líder de um deles está preso e o outro não tem muito carisma e não desponta muito nas pesquisas, apesar das alianças que conseguiu firmar. “A conjuntura de descontentamento do eleitor naturalmente fez muitas lideranças resolverem lançar candidaturas”, apontou Silvana.

Atores

Depois das eleições de 1989, o PT conseguiu a hegemonia na esquerda. Ele passou a ser o principal ator na disputa com o centro, representado pelo PSDB. Em 1989, a diferença entre Lula, o candidato petista, e Leonel Brizola, do PDT, foi de menos de 1% dos votos, em uma disputa acirrada pelo eleitorado esquerdista. O cabo de guerra entre os dois partidos, por enquanto, não é muito diferente do que acontece em 2018 entre Ciro Gomes (PDT) e o candidato petista. Depois de quase 20 anos hegemônico, garantindo participação no segundo turno, o PT volta a disputar com o PDT um nome de centro-esquerda para representar essa fatia do eleitorado. “Estamos revivendo aquela disputa, de certa forma”, conta Tadeu. O cientista político João Feres lembra que há diferenças nessa comparação. “O PT, à época, era um partido menor, muito longe do que se tornou hoje. O PDT continua mais ou menos do mesmo tamanho. São partidos de tamanhos diferentes.”

Cabeça a cabeça

Collor (PRN) - 30,47%
Lula (PT) - 17,18%
Brizola (PDT) - 16,51%    
Covas (PSDB) - 11,51%
Maluf (PDS) - 8,85%
Afif (PL) - 4,83%
Ulysses (PMDB) - 4,73%
Freire (PCB) - 1,13%
Aureliano (PFL) - 0,88%
Caiado (PSD) - 0,72%
Camargo (PTB) - 0,56%
Enéas (PRONA) - 0,53%
Marronzinho (PSP) - 0,33%
Gontijo (PP) - 0,29%
Zamir (PCN) - 0,27%
Lívia (PN) - 0,26%
Eudes (PLP) - 0,24%
Gabeira (PV) - 0,18%
Celso Brant (PMN) - 0,16%
Pedreira (PPB) - 0,12%
Horta (PDCdoB) - 0,12%
Armando (PMB) - 0,01%

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