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Correio Braziliense

Arqui-inimigos no impeachment, PT e PSB são aliados em Pernambuco

Na primeira reportagem da série sobre a corrida aos governos estaduais, o Correio apresenta como a disputa pernambucana juntou grupos que juraram ódio eterno durante a discussão do impeachment de Dilma Rousseff


postado em 13/08/2018 06:00 / atualizado em 13/08/2018 12:02

"Eu não fui golpista, fiquei com Dilma até o final" - Armando Monteiro, ex-ministro e candidato ao governo estadual (foto: Kena Betancur/AFP)
Recife — Candidatos ao governo de Pernambuco iniciaram uma “briga de foice” — expressão nordestina que significa uma forte disputa — após a desistência forçada do PT no estado. A legenda derrubou o nome de Marília Arraes e, agora, apoia o governador Paulo Câmara (PSB) nas eleições de outubro. Essa aliança causa estranhamento na base petista, já que o PSB participou das negociações para o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. O argumento é que os palanques com “golpistas” e petistas podem desmoralizar a sigla vermelha.

O governador Paulo Câmara, Marília Arraes e o senador Armando Monteiro Neto (PTB) estavam tecnicamente empatados. Segundo as últimas pesquisas, cada um deles tinha aproximadamente 20% das intenções de voto em Pernambuco. A saída da petista abre um espaço que é disputado ferozmente pelos que ficaram. Monteiro defende ter discurso semelhante ao da ex-candidata, enquanto Câmara pode se gabar de ter conseguido o apoio do PT e se escorar no nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“O processo eleitoral aqui está polarizado, mas acredito que a saída de Marília vai deixar o jogo confuso. Os dois primeiros colocados (Câmara e Monteiro) têm chances de pegar os votos do PT. Mas terão que saber conduzir o eleitor com cuidado”, explica um experiente observador da política pernambucana. A dupla é também recordista de rejeição no estado.

Apoiador de Câmara, o deputado Augusto Coutinho (SD-PE) foi um dos principais articuladores do governador nas prefeituras do estado. Garantiu, por exemplo, a aliança com o prefeito de Olinda, Professor Lupércio (SD). Ao Correio, ele diz que a aliança entre PSB e PT não abre novas feridas. “Esse episódio traz alguns desconfortos, mas é coisa de política. E está tudo no passado. Trata-se mais de uma relação de lealdade com o governador do que uma questão ideológica”, diz.

E é justamente essa lealdade a Lula que será usada por Paulo Câmara daqui para a frente. “Eleitores do ex-presidente dizem não tolerar a corrupção mas estão dispostos a votar num presidiário como se estivessem cortando na própria carne para salvar o país”, explica outro aliado do PSB.

Ainda que a estrutura governista seja forte, a oposição mostra confiança e disposição para brigar. “Eu não fui golpista, fiquei com Dilma até o final. Fui ministro dela. É isso que o eleitor do PT deve levar em conta na hora de votar”, detalha Armando Monteiro. O senador explicou que “o clima hoje é muito favorável à mudança. Quase não acreditei na violência com que o partido derrubou a Marília para tentar o apoio do PSB no segundo turno (das eleições presidenciais)”.

Regras


Segundo a legislação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as campanhas só podem começar oficialmente em 16 de agosto. Ainda que a norma seja clara, muitos candidatos a ignoram. É o caso dos próprios postulantes citados acima. Ao receber a reportagem do Correio, Câmara precisou sair às pressas para uma visita a entidades de apoio a dependentes químicos, no interior. O mesmo ocorreu com Monteiro, que teve dificuldade de atender à reportagem por voltar da região metropolitana, onde tinha “encontros e reuniões”, como ele mesmo pontuou.

» Vaquinhas estaduais


Os candidatos que participarão das eleições 2018 vão sair às ruas para pedir votos a partir da próxima quinta-feira. Com a campanha batendo à porta, os eleitores que quiserem fazer alguma doação a partidos ou candidatos — sobretudo este ano, com a facilidade das vaquinhas virtuais — devem prestar contas ao Fisco e estar atentos para não caírem em fraudes ou na malha fina do Imposto de Renda (IR) a ser declarado no ano que vem. O eleitor pode doar até 10% dos rendimentos brutos que obteve no ano passado, mas há ainda um teto de R$ 1.064,10 por dia no financiamento coletivo. Os dados devem ser informados na ficha de “Doações a Partidos Políticos, Comitês Financeiros e Candidatos a cargos efetivos” no programa de declaração do IR 2019. O teto da doação é o limite de quanto o candidato pode gastar. Cada campanha para presidente da República pode gastar até R$ 70 milhões e mais R$ 35 milhões em caso de segundo turno. Para candidatos a deputado federal, o limite é de R$ 2,5 milhões; para estadual, de R$ 1 milhão.
 

Três perguntas para Paulo Câmara 

 

O PSB está sem candidato a presidente e também não apoiou ninguém a nível nacional. Como fica essa situação?

Temos nove candidaturas a governo. Em reeleição, disputam Pernambuco, Distrito Federal, São Paulo e Paraíba. Sentimos a necessidade de tratar os palanques estaduais. Temos o cuidado de trabalhar as eleições proporcionais também. O partido foi o que mais cresceu em 2014, os bons números se repetiram em 2016 e queremos continuar desse jeito. Nacionalmente, sozinhos, ainda não dava.


A união com o PT pode ocorrer a nível nacional no segundo turno?

Vivemos uma grande crise econômica, isso é fato. Não tivemos praticamente nada do orçamento de 2018 disponibilizado. Tivemos que implementar nossas obras na raça, do jeito que conseguimos fazer aqui. Baixamos a mortalidade infantil, investimos em saúde, educação. E isso, sem aporte. Quando Lula era presidente, olhava para o Nordeste. Talvez essa união seja uma ideia para o segundo turno.

A aliança local entre PSB e PT estancou as feridas do impeachment? 

O partido foi apoiador do impeachment, mas também não concordou com as reformas impostas pelo atual governo. Não foi perseguição. De qualquer maneira, o mal-estar com o PT não existe. Buscamos estar juntos sempre que possível. Reunificamos a esquerda. Não há que se falar em adversários, somos aliados.
 
 

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