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Correio Braziliense

Secretário do TSE refuta críticas feitas por Bolsonaro ao sistema de voto

Secretário do tribunal refuta críticas feitas no início da semana pelo candidato do PSL, Jair Bolsonaro, ao sistema de voto eletrônico. Segundo ele, mais de 25 países adotam modelo semelhante, e possibilidade de invasão de hackers não existe


postado em 08/09/2018 08:00 / atualizado em 07/09/2018 23:16

Giuseppe Janino,Secretário de Tecnologia da Informação do TSE:
Giuseppe Janino,Secretário de Tecnologia da Informação do TSE: "Criam-se muitas histórias fantasiosas que, quanto mais fantasiosas ou fantásticas, mais se propagam, principalmente em tempos de redes sociais" (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Giuseppe Janino, rebateu as críticas que vêm sendo feitas ao uso de urnas eletrônicas nas eleições brasileiras. Na última quarta-feira, o candidato à presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro, que sofreu um atentado quando fazia campanha em Juiz de Fora (MG), havia criticado a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de julgar inconstitucional o voto impresso. O presidenciável também afirmou que o modelo eleitoral do Brasil não é seguro e  que, “caso perca” as eleições, vai questionar a lisura do sistema eletrônico.

Em entrevista ao Correio, Janino refutou também a afirmação de Bolsonaro de que “só o Brasil utiliza a urna eletrônica”, e que seria um sistema “único no mundo”. “Se entrarmos no site do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea), que visa a promoção da democracia no mundo, verificamos a existência de um levantamento de que mais de 25 países adotam urnas eletrônicas”, afirmou.

Janino também ressaltou que, nas eleições norte-americanas, “pelo menos” 11 estados adotam a urna eletrônica. “É um modelo muito semelhante ao do Brasil, inclusive sem a impressão do voto”, afirmou. O secretário disse que não tem “exatamente uma explicação” sobre a desconfiança popular no sistema eleitoral. “Criam-se muitas histórias fantasiosas que, quanto mais fantásticas, mais se propagam, principalmente em tempos de redes sociais”. E completou: “Nós temos realmente uma grande dificuldade de colocar (à população) o esclarecimento desses mitos que são criados”.

O secretário informou que o tribunal abre periodicamente os sistemas para promover testes públicos de segurança. O evento já ocorreu quatro vezes (em 2009, 2012, 2016 e 2017). Hackers vão ao tribunal para tentarem “quebrar” o mecanismo de segurança das urnas. O Brasil, segundo o secretário, é o “único” a dar essa permissão. “É um grande exemplo de transparência, por que se abrem os sistemas para o cidadão comum dar sua contribuição”, disse.

Todas as evidências de problemas de segurança apontados pelos hackers são avaliados e corrigidos, segundo o secretário. Ele explica que o evento de 2017 permitiu que o cidadão que fez o teste pudesse retornar para certificar-se de que o problema havia sido corrigido.

Ouça:

Questionamentos


Janino explicou que todos os partidos políticos são convidados frequentemente para acompanhar a segurança das urnas, em testes públicos, e entenderem melhor como funciona o sistema eleitoral. Só que não há a presença constante das entidades partidárias. “Nenhuma veio recentemente, mesmo sendo todas convidadas”, lamentou.

Apesar disso, partidos têm questionado a lisura das urnas, como ocorreu após a eleição presidencial de 2014, quando o candidato derrotado do PSDB, Aécio Neves, pediu a recontagem de votos. “Infelizmente eles aparecem só no momento de reclamar. Na hora de acompanhar o processo, de ajudar a auditoria, eles não aparecem”, criticou o secretário.

Questionado se havia alguma chance das urnas serem violadas, Giuseppe Janine afirmou que a tentativa de se invadir a urna é “inviável”, já que elas não são vinculadas a nenhum tipo de rede. “Então, aquele mito do qual se ouve falar, de que, se o hacker invade a Nasa, invade o FBI, porque não conseguiria invadir a urna eletrônica? É simples, a urna não está na internet. Isso já é um preceito de segurança”, ressaltou.

Em junho deste ano, o STF derrubou a lei que instituía o retorno do voto impresso. A medida, segundo Jair Bolsonaro, era necessária para permitir uma eventual recontagem dos votos. Janino explicou que é possível recontar os votos no próprio sistema eletrônico. Ele também declarou que a conexão de uma impressora à urna teria dois problemas essenciais. “Se acoplarmos uma ferramenta eletromecânica, que falha cinco vezes mais do que o eletrônico, a possibilidade de haver problemas aumenta”, disse. “Além disso, existe o fator humano, que voltaria a estar presente nas eleições.”

A lei derrubada pelo Supremo não permitia que o eleitor tivesse contato com o voto, mas caso algum candidato solicitasse recontagem, muitas pessoas iriam manusear os votos, e poderiam ser constatadas diferenças. “Não é preciso muita inteligência para burlar esse tipo de sistema, basta o escrutinador ter um pouco de habilidade: ele some com um voto e já frauda a eleição”, avaliou Janino.

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