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Correio Braziliense

Especialistas pedem esforço para que a democracia não seja derrubada

Desde o início do ano, candidatos têm sido alvo do ódio, seja fisicamente, seja por meio de discursos


postado em 17/09/2018 06:00 / atualizado em 17/09/2018 14:47

Adélio, o agressor confesso de Bolsonaro: há a suspeita de que mais três pessoas participaram do ataque ao presidenciável em Juiz de Fora (MG)(foto: Guilherme Leite/Folhapress)
Adélio, o agressor confesso de Bolsonaro: há a suspeita de que mais três pessoas participaram do ataque ao presidenciável em Juiz de Fora (MG) (foto: Guilherme Leite/Folhapress)
Três décadas após o Brasil reconquistar a democracia e o direito de voto ser estendido aos milhões de brasileiros, a soberania popular sofre ataques e a política vira alvo de cenas violentas — que preocupam autoridades e ameaçam a integridade das eleições. Os atentados contra candidatos à Presidência revelam os extremos da polarização política, o aumento da violência e do discurso de ódio entre eleitores e concorrentes. A escalada de violência se intensificou em março deste ano, quando tiros foram disparados contra a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que fazia pré-campanha no Paraná. A facada contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL), há duas semanas, chocou eleitores e uniu até adversários políticos para pregar a necessidade da valorização do diálogo.

Atos de violência preocupam autoridades e especialistas. Não é de hoje que o Brasil enfrenta ataques contra candidatos e eleitores durante campanhas políticas (Leia Memória). Mas a ação contra Bolsonaro é considerada a mais grave da história recente do país. Desde o começo do ano, o cenário político dava sinais de que não seria uma temporada tranquila de campanha. Em março, o país assistiu, incrédulo, ao assassinato da vereadora Marielle Franco. Em um crime ainda sem autores conhecidos, ela e o motorista Anderson Gomes foram alvos de tiros, no Centro do Rio de Janeiro. A parlamentar sofria ameaças, e se destacou por denunciar milicianos e atuar na proteção de vítimas de traficantes nas comunidades cariocas. A polícia trabalha, principalmente, com a hipótese de crime político, relacionado às atividades parlamentares da vereadora.

No fim do mesmo mês, a caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se tornou alvo. O comboio foi atingido quando seguia de Quedas do Iguaçu, no oeste do Paraná, para Laranjeiras do Sul, na região central. Lula estava no primeiro ônibus, que não chegou a ser atingido pelos disparos. Um dos integrantes da caravana, que preferiu não ser identificado, afirmou que os disparos atingiram os veículos caracterizados. “Os tiros acertaram os ônibus que estavam com a plotagem do PT. Na hora em que ouvimos o barulho, notamos que eram tiros. Ao olhar pela janela, a impressão é de que os disparos vieram de uma região de matagal. Com certeza, foi algo intencional. Não tinha manifestação nem casas em volta”, disse.

Reações

A cientista política Mônica Sapucaia, professora do IDP de São Paulo, destaca que o discurso dos candidatos pode mover reações extremistas de alguns indivíduos e que é necessário ressaltar a importância do respeito às diferenças entre os integrantes da sociedade. “Não me parecem ações articuladas. Tudo indica que são pessoas que agem individualmente, ou em grupo, movidas por um discurso de ódio. Eles entendem que a diferença precisa ser eliminada. A diferença não precisa ser eliminada, mas, sim, dialogada. Não dá pra negar as diferenças, e os candidatos precisam adotar esse discurso de tolerância e de respeito a todos os grupos”, afirma.

Os ataques sequenciais no Paraná continuaram em abril. Um homem disparou tiros contra um acampamento montado em apoio ao ex-presidente Lula, próximo à Superintendência da PF, em Curitiba. Na ocasião, duas pessoas ficaram feridas. Um deles é Jeferson Lima de Menezes, presidente do Sindicato dos Bancários do Paraná. Ele foi atingido no pescoço e precisou ser levado ao hospital.


Investigação da PF

O agressor do deputado Jair Bolsonaro, que o atacou com uma facada, em 6 de setembro, em Juiz de Fora (MG), é alvo de uma investigação da Polícia Federal. Apesar de ele ter dito que agiu sozinho, pelo menos mais três pessoas são apontadas como suspeitas de envolvimento no crime. No momento do ataque, Bolsonaro estava sendo acompanhado por quatro policiais federais. Ele havia sido alertado da possibilidade de atos hostis.

A escalada de violência preocupa o Ministério Público Eleitoral. Em nota, assinada também pela procuradora federal dos direitos do cidadão Deborah Duprat, a entidade afirma que tais atos atentam contra os direitos humanos. “Agressões como essas são tentativas de subverter o exercício legítimo de direitos políticos e civis pela população brasileira e, portanto, dos direitos humanos. O emprego de violência no debate político ataca uma das regras essenciais do jogo democrático, de que todos os atores sociais respeitam o direito à concorrência e respeitam o resultado do processo eleitoral, seja qual for”, diz um trecho do texto.

História teve outros casos


Apesar da gravidade do ataque contra o candidato do PSL, o caso não representa um fato isolado na história nacional. Desde a República Velha, o Brasil registra atentados em períodos eleitorais ou contra políticos eleitos. Em 1897, o presidente Prudente de Moraes foi atacando por um soldado portando uma faca. O chefe de Estado acabou salvo pelo então marechal ministro da Guerra, coronel Luiz Mendes de Moraes, chefe da Casa Militar, que entrou na frente do agressor. “A arma homicida penetrou fundo no coração do bravo e leal ministro. O coronel Mendes de Moraes, procurando também defender o Presidente da República, recebeu grave ferimento no baixo ventre esquerdo”, publicou, na época, o jornal Cidade do Rio.

Em 1930, o advogado João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque era candidato à vice-presidência da República, com Getúlio Vargas. Quando ocupava o cargo de governador, ele morreu após ser baleado na Confeitaria da Glória pelo advogado João Dantas. O crime, que levaria à revolução de 1930, resultou na mudança de nome da capital da Paraíba, que passou a ter o nome do candidato.

Para o antropólogo e historiador Frederico Tomé, o Brasil vive o momento “mais delicado”, em termos de violência a políticos e à política, desde a redemocratização. Ele explica que a agressão também é uma forma de domínio e herança de um país com tradição escravocrata e mandatária. “Da redemocratização até os dias atuais, a eleição de 2018 tem se tornado aquela em que a violência tem predominado”, acredita.

O pesquisador ressalta que eventos semelhantes à facada sofrida pelo candidato do PSL podem se repetir ainda no primeiro turno. Segundo o estudioso, o crescimento de um “ideal fascista”, que não é exclusivo ao Brasil, tem elevado o clima de intolerância no debate político e social. “As pessoas estão perdendo o pudor em se mostrarem fascistas. O que é um elemento fundamental e chave para que possamos entender esse grau de animosidade”, conta.

A elevação da intolerância ficou mais acentuada após as eleições de 2014, quando o candidato derrotado, Aécio Neves, não aceitou o resultado das urnas e pediu a recontagem de votos. O processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff também fomentou a crise atual, afirma Frederico Tomé. “Os pensamentos são traduzidos em palavras que são transformadas em atos. Então, esse discurso de ódio acaba encorajando as pessoas a cometerem atos de violência”, esclarece o antropólogo. (RS e LV)

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