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Correio Braziliense

Na eleição de 2018, 35% dos candidatos não têm receita nem despesa

Das campanhas sem movimentação financeira, 2.694 são mulheres; analistas veem indício de candidaturas laranjas para cumprir cotas


postado em 20/09/2018 08:37 / atualizado em 20/09/2018 10:55

A sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília (foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
A sede do Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília (foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
 

 

Cerca de 35% dos 24.798 candidatos aptos a participar da eleição este ano não declararam qualquer movimentação financeira (receita e despesa) à Justiça Eleitoral no primeiro mês de campanha. Levantamento feito pelo Estadão/Broadcast aponta que 8.593 candidatos não apresentaram contas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) - dos quais 2.694 são mulheres. O número chega a 9.017 se for considerado o total de candidatos que não tiveram receita, independentemente de haver despesa ou não.

Na avaliação de analistas, um dos fatores que explicam o grande número de campanhas sem fluxo de dinheiro é a redução dos gastos eleitorais. Com a proibição das doações empresariais determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os candidatos têm recebido recursos de pessoas físicas e também podem ter as campanhas financiadas com o Fundo Eleitoral - R$ 1,7 bilhão para todos os 35 partidos - e com parte do Partidário - aproximadamente R$ 880 milhões.

O advogado e ex-ministro do TSE Henrique Neves pondera, no entanto, que é preciso avaliar que, quando a falta de dinheiro na campanha está aliada a outros indícios, como ausência de pedido de apoio a eleitores e de votos nas urnas, pode motivar suspeitas sobre uma "candidatura laranja" - ou seja, candidatos lançados para cumprir cotas partidárias, como a de mulheres. Em março, o Supremo decidiu que ao menos 30% da verba do Fundo Eleitoral tem de ser destinada para candidaturas femininas.

Para o ex-ministro do TSE, a ausência de fluxo de dinheiro também aponta uma dificuldade dos candidatos em conseguir doadores, mas destaca que a campanha "precisa ser feita de alguma forma". Ele destaca que, se não há dinheiro para fazer um adesivo ou um cartaz, por exemplo, o candidato pode participar de reuniões ou mesmo "pedir votos para o vizinho", afirmou.

'Sola de sapato'


A contadora Julia Rosa da Cruz (PSDB) é uma dessas candidatas que ainda não registraram despesa nem receita na campanha. Ela participa pela primeira vez de uma eleição e tenta uma vaga como deputada federal por São Paulo. "A propaganda está sendo feita na sola do sapato, com apoio de conhecidos e amigos que conquistei nos meus 44 anos em São Paulo", afirma.

A candidata também aposta na divulgação pelas redes sociais. O perfil de Julia no Facebook exibe seu santinho, com o seu número de candidata ao lado de dos candidatos de seu partido à Presidência, Geraldo Alckmin, e ao governo do Estado, João Doria. Apesar de estar sem receita declarada até o momento, a candidata afirma que vai receber crédito de R$ 20 mil do fundo especial de campanha, que ainda deve ser contabilizado junto ao TSE.

Opção


Para o administrador Almachio Rocha (PSL), no entanto, ser um candidato sem recurso é uma opção própria. Sua campanha para deputado distrital é feita basicamente na internet. Desempregado, ele disse que não pretende gastar nada na campanha. "Não tenho dinheiro de partido e não quero ter", afirmou. Almachio também não está em busca de doações - ele diz que vai tentar se eleger mesmo sem gastar um real sequer. "Um dos meus propósitos é provar que não precisa de milhares e nem de milhões de reais para se eleger. Não sei se vai dar certo, mas estou tentando", diz.

O partido de Almachio é o que mais tem candidatos sem fluxo de dinheiro na prestação de contas. Até a última segunda-feira, estavam nessa situação 651 candidatos da legenda, que tem o deputado federal Jair Bolsonaro concorrendo à Presidência da República.

A reportagem encontrou casos de candidatos que, mesmo tendo o registro aceito pela Justiça Eleitoral, não apresentaram os dados financeiros nem têm campanha divulgada. Um exemplo é Ariadne Alvarenga (PSL), candidata a deputada federal. Procurada pela reportagem, Ariadne não quis dar entrevista, mas disse que não sabia até o momento que sua candidatura havia sido aceita e, por isso, não começou sua campanha. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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