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Correio Braziliense

Os efeitos positivos e negativos da junção entre futebol e política

Declaração de voto de jogadores e torcedores constrange clubes e abre guerra entre organizadas, até mesmo interna. Temor é de que animosidade se espalhe por estádios, já marcados por confrontos entre agremiações rivais


postado em 22/09/2018 07:00 / atualizado em 22/09/2018 13:54

Felipe Melo dedicou gol a Jair Bolsonaro, e Palmeiras se apressou em esclarecer que o posicionamento dele não reflete a opinião do clube(foto: Miguel Schincariol/AFP - 11/4/18 )
Felipe Melo dedicou gol a Jair Bolsonaro, e Palmeiras se apressou em esclarecer que o posicionamento dele não reflete a opinião do clube (foto: Miguel Schincariol/AFP - 11/4/18 )
 
A disputa eleitoral chegou com tudo aos estádios de futebol. A politização no esporte está abrindo guerra entre as torcidas — até internamente — e criando constrangimento para os clubes à medida que surgem declarações públicas de apoio a candidatos. Embora a mistura entre política e futebol não seja uma novidade, num esporte que teve movimentos como a Democracia Corinthiana (leia abaixo o trecho Votos igualitários), na década de 1980, o atual ambiente acalorado e polarizado entre eleitores de esquerda e de direita desperta preocupação em torcedores e especialistas. E tem potencial até de influenciar os votos de indecisos na base da radicalização, e não da racionalização.

O clima político se aprofundou de vez no futebol no último domingo, em duas situações. Numa delas, o jogador Felipe Melo, do Palmeiras, dedicou o gol que marcou contra o Bahia ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Na outra, no clássico entre Cruzeiro e Atlético-MG, parte dos atleticanos disse que o capitão reformado “mataria veado”, em provocação aos rivais. No mesmo jogo, cartazes de teor político foram exibidos nos telões do Estádio Mineirão.

A hostilidade de atleticanos criou um clima de tensão, avalia o empresário Ronny Marques, 27 anos, presidente da Máfia Azul Brasília, torcida organizada do Cruzeiro na capital federal. “O perigo já chegou, e isso é preocupante. O torcedor está à flor da pele, tanto em questão de política quanto de futebol”, avaliou. “E qualquer coisa pode ser motivo para as pessoas estarem ali buscando formas de violência, de briga. Criar mais uma forma de provocar e arrumar confusão é alarmante.”

O ambiente de polarização se mostra intenso mesmo dentro das torcidas organizadas. Por esse motivo, a Máfia Azul decidiu não apoiar nenhum candidato. Em Minas Gerais, apoia Aécio Neves (PSDB) para deputado federal, e Rodrigo Pacheco (DEM) para senador. Sem unanimidade na cúpula quanto à escolha de presidente da República, a opção foi pela neutralidade.

O clima não é diferente em torcidas de outros clubes. A Loucos pelo Botafogo decidiu apoiar a reeleição do deputado federal Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara. Para o Palácio do Planalto, também optou pela neutralidade. O critério é financeiro, explica o fisioterapeuta Raphael Siciliano, 33, puxador da agremiação. “Ele é um parlamentar que ajuda a torcida e o time. Para presidente, cada um vota no seu”, destacou.

Os caciques das torcidas organizadas querem evitar o desgaste a todo custo. Mas nem todas conseguem. A Gaviões da Fiel, do Corinthians, e a Torcida Jovem do Santos se posicionaram contra Bolsonaro e, por isso, enfrentam divisão interna. O presidente da Gaviões, Rodrigo Tápia, o Digão, sinalizou nas redes sociais estar sendo pressionado após a decisão, mas a manteve, em nota divulgada pela organizada.

O clima é preocupante, admite o sociólogo e cientista político Fábio Metzger, professor da União das Instituições Educacionais de São Paulo (Uniesp). O analista não descartou a possibilidade de os ânimos aflorados desencadearem conflitos entre torcedores de mesmo time e rivais. “Se já brigam por futebol, a disputa política pode virar uma centelha para explosão”, ressaltou.


Temporário

Torcedores pregam que o clima de instabilidade pode ser amenizado após o resultado das eleições. Foi o que avaliou o analista de sistemas Felipe George, 29, um dos líderes da Urubuzada, torcida organizada do Flamengo. “Acho que não tem espaço para isso depois do resultado eleitoral. É algo do momento”, justificou.

Ele espera que a associação entre política e futebol não prejudique as relações entre torcidas. “Nós vamos para o estádio nos divertir, conversar com torcedores e, o principal, ver nosso time jogar. Não é para discutir política”, disse. “Vejo como um empecilho para o futebol. Não está se tratando o esporte como paixão, mas levando o assunto para outras margens.”


Votos igualitários

O movimento, que durou entre 1982 e 1984, era liderado por Sócrates, Casagrande e Wladimir e pregava que todas as decisões do clube seriam submetidas antes ao crivo de dirigentes, funcionários e jogadores. Em plena Ditadura Militar, o grupo também lutava pelo voto direto.

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