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Correio Braziliense

Especialistas avaliam as opções para marcha da insensatez definida por FHC

Segundo especialistas, o antipetismo e o desgaste do partido do ex-presidente e das candidaturas de centro complicaram o cenário


postado em 22/09/2018 07:00 / atualizado em 21/09/2018 23:53

 A carta escrita por FHC deixa claro que a vitória de Haddad ou de Bolsonaro seria o triunfo do radicalismo(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
A carta escrita por FHC deixa claro que a vitória de Haddad ou de Bolsonaro seria o triunfo do radicalismo (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Com as pesquisas de intenção de votos antecipando um cenário de polarização que deveria ocorrer apenas no segundo turno, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso divulgou uma carta aos eleitores, na qual alerta para a necessidade de os candidatos que não se aliam às visões radicais de esquerda e direita — representadas por Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL) — juntarem forças a fim de deter o que chamou de “marcha da insensatez”. Para os especialistas, a radicalização, alimentada pela recessão econômica e pela crise institucional, é reflexo do desgaste do PSDB, partido do ex-presidente, da fragmentação das candidaturas de centro e do antipetismo.

Uma saída, na opinião dos analistas, seria aglutinar forças em uma terceira via: um postulante menos indigesto do que os dois extremos. Mas a avaliação é de que dificilmente algum candidato desistirá de concorrer para apoiar outro. Para o cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, a repercussão negativa do apoio do centrão ao PSDB e o desgaste da legenda, após o envolvimento de Aécio Neves com a JBS, a prisão de Beto Richa, ex-governador do Paraná, e busca e apreensão contra o governador de Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja, desidrataram a candidatura tucana. “A declaração de FHC sobre uma aliança com o PT também criou dificuldade”.

Marcus Vinícius Macedo Pessanha, especialista em direito constitucional e cientista político, pontuou que o antipetismo é maciço e fortaleceu a candidatura de Bolsonaro. “Depois que Lula se retirou formalmente da disputa, o crescimento do Haddad fez os candidatos de centro perderem votos. Eleitores de centro-direita começaram a correr para Bolsonaro”, analisou. O medo do adversário antecipou o segundo turno, segundo ele. “O voto ideológico é no primeiro turno. Mas, com a polarização alimentada pelas crises econômica e institucional, o eleitor pulou de fase e partiu para o voto útil”, disse.

Na percepção do professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) Geraldo Tadeu Monteiro, os dois extremos se alimentam. “A candidatura de Bolsonaro vinha estagnada. Com o atentado, criou uma pequena bolha e subiu dois pontos. Depois que o PT definiu Haddad e a primeira pesquisa mostrou o crescimento vertiginoso do petista, como reação, o representante da extrema direita também subiu. Há um efeito de retroalimentação que esvaziou o centro”, assinalou.

O especialista lembrou, no entanto, que os extremos têm, em média, 30% das intenções de voto, segundo as pesquisas mais recentes. À direita, com Bolsonaro, e à esquerda, com a soma de Haddad e de Ciro Gomes (PDT). O quadro mostra ainda entre 21% e 22% de nulos, brancos e indecisos, avaliou. “Os 20% de centro, que tradicionalmente definem uma eleição, estão órfãos de uma candidatura. Mas a soma deles com os indecisos, nulos e brancos poderia tornar um terceiro caminho viável”.


Fragmentação


Monteiro destacou que o dilema do eleitor de centro é que, como estão pulverizados em candidaturas fragmentadas, a migração teria que ser praticamente integral. “Chegamos a um impasse. Esse é o sentido da mensagem de FHC. Se nada for feito agora, ficaremos prisioneiros de um dos extremos”, disse. Nenhum dos especialistas acredita na desistência de candidaturas de centro para formação de uma coalizão contra os extremos. “O apelo de FHC é muito rarefeito. A força da intenção de voto está refratária à razão. Os eleitores votam com raiva e com medo dos opositores. O que o ex-presidente fez foi mostrar sua posição contrária à extrema direita”, avaliou Pessanha. “Acho pouco provável que os atores políticos tenham esse desprendimento, porque um rearranjo é complicado neste momento da eleição. O que precisa ocorrer é um movimento dos eleitores”, sentenciou Monteiro.


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