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Correio Braziliense

Desconfiança é combustível para teorias da conspiração no período eleitoral

A maioria das teorias envolvem candidatos e a segurança da urna eletrônica. Conservadores têm mais tendência em acreditar


postado em 24/09/2018 06:10

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)

Quem nunca se sentiu tentado a acreditar em uma teoria da conspiração que atire a primeira pedra. Ultimamente, há fartura de oportunidades. O atentado ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi, para alguns, obra de uma organização de esquerda. Para uma turma de ideologia oposta, nasceu da articulação de apoiadores do próprio político, já que, avaliam os autores da narrativa, a candidatura acabou beneficiada por essa violência. E há subprodutos diversos: os que creem que sequer houve ferimento, pois a faca usada no crime não tinha marcas de sangue. Há alguns anos,  petistas alimentavam  uma narrativa sem embasamento real: a de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi tramado pelo governo dos Estados Unidos.

A vítima mais recente das hipóteses criativas é a urna eletrônica. Bem que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Antonio Dias Toffoli, tentou eliminar essas ideias ao dizer, no início da semana passada, que as urnas vêm sendo usadas há duas décadas sem sinal de qualquer problema sério. Porém, ainda há quem ache que os aparelhos estão programados para contrariar a vontade do eleitor. O próprio Bolsonaro, convalescendo em São Paulo, tem incentivado a desconfiança.

“Em um país tão dividido e polarizado, é natural ver fantasias em tudo”, afirma o cientista político Carlos Melo, professor do Insper. Em relação ao atentado contra Bolsonaro, o próprio efeito para sua candidatura, favorável ou contrário, é o resultado de hipóteses que alimentam crenças. “Se ele vencer a eleição, não saberemos se isso teria acontecido caso não tivesse sofrido o ataque. Se ele perder, ficaremos com a dúvida oposta. Não há como provar qualquer uma dessas coisas”, analisa.


Democracia em risco


O questionamento da segurança da urna eletrônica se enquadra em uma classe de hipóteses mais perigosas, na avaliação de Melo. “É péssimo para a democracia”, lamenta. O regime, nota Melo, é um pacto em relação às regras do jogo. “O que se combina é que a pessoa passa por uma escolha e o resultado será respeitado até a próxima eleição. Quando se acredita que fatos externos estão influenciando o resultado, isso significa que a vitória ou a derrota acontece fora das regras do jogo. Tira-se a legitimidade do processo”, diz.

“Isso põe em risco todo o sistema”, lamenta Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (Ipol/UnB). “A urna eletrônica é a mais nova vítima da teoria da conspiração, esse folclore moderno”, nota o cientista político Bruno Wanderley Reis, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na avaliação dele, a queixa de Bolsonaro em relação ao sistema é genérica e não merece ser levada em conta. “Em 20 anos de existências das urnas, ninguém conseguiu apresentar um problema concreto”, assinala.

Reis ressalta, porém, que, em alguns momentos, é impossível esperar que a sociedade não fomente fantasias. “Quando há um atentado em qualquer lugar do planeta, as teorias da conspiração são inevitáveis”, nota. Ele ressalva, porém, que a situação do Brasil é especialmente complicada neste momento: “É uma atmosfera política de certa histeria”. A violência é um componente disso — e não é exatamente novo. “Na eleição de 2016, a tensão era grande e também houve crimes”, relembra. O mais grave foi o assassinato do candidato a prefeito de Itumbiara (GO) José Gomes da Rocha (PTB).

“A teoria da conspiração é uma coisa antiga”, diz o cientista político Ricardo Ismael, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Dois fatores, porém, ajudam que ela se dissemine mais hoje: as redes sociais e a estratégia eleitoral baseada em narrativas. O PT, por exemplo, insistia há dois anos no que chamou de “golpe” para qualificar o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Agora, falam em perseguição ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba depois de ser condenado por lavagem de dinheiro e corrupção passiva.

Na avaliação de Ismael, as redes sociais não são algo decisivo no processo, mas “democratizaram a propagação dessas histórias”. O problema maior, ele aponta, está no fato de as pessoas recorrerem cada vez mais a fontes não confiáveis de informação. Para Calmon, da UnB, se por um lado as teorias da conspiração se propagam com maior velocidade hoje do que no passado, por outro, as pessoas aprenderam a questionar a origem da informação.  “De modo geral, as pessoas estão mais conscientes hoje dos problemas”, avalia.


Narrativa criativa é mais acessível 


No mundo acadêmico, as teorias da conspiração são objeto de vários estudos. Os cientistas políticos Eric Oliver e Thomas Wood, professores da Universidade de Chicago, escreveram, há dois anos, o artigo Teorias da conspiração e o estilo paranóico da opinião de massa. O objetivo do trabalho foi identificar o porquê de as pessoas acreditarem nessas histórias.  Eles acabam de escrever um livro sobre o tema (leia texto ao lado).

Na pesquisa, eles identificam que pessoas com compreensão mais maniqueísta do mundo, em que predomina a disputa do bem contra o mal, têm maior tendência de acreditar nessas histórias. Em geral, os conservadores as endossam mais do que pessoas liberais.

A maior correlação negativa é com a falta de educação formal: pessoas com menos estudo formal tendem a acreditar mais nas fantasias. Isso não quer dizer que pessoas que têm formação universitária as ignorem. “Para muitos norte-americanos, explicações complicadas ou com muitas nuances sobre os eventos políticos têm pouco apelo. Uma narrativa conspiratória pode se mostrar mais acessível e convencedora”, afirmam os pesquisadores.

Muitas teorias reverberam de forma significativa na sociedade, mesmo que não sejam defendidas pela maioria da população. Pesquisas de opinião compiladas por Oliver e Wood trazem alguns exemplos.

A ideia de que a crise financeira iniciada em 2008 foi secretamente criada por banqueiros norte-americanos para maior controle sobre a política econômica era aceita por 24% dos entrevistados em maior ou menor grau. A proporção coincide com a dos que acreditavam que o presidente Barack Obama não havia nascido nos Estados Unidos.

Outra narrativa, a de que os ataques de 11 de setembro foi planejada por agentes do governo dos Estados Unidos, porque eles queriam que o país tivesse motivo para invadir o Iraque, era abraçada por 19% dos entrevistados. É o mesmo percentual dos que viam a invasão do Iraque não como algo para combater o terrorismo, mas sim, para controlar o preço do petróleo.

Sete perguntas para Eric Oliver


Os cientistas políticos Eric Oliver e Thomas Wood, da Universidade de Chicago, acabam de lançar um livro que lança luz sobre efeito das teorias conspiratórias na sociedade: Enchanted America: how intuition and reason divide our politics (A América encantada: como a intuição e a razão dividem a nossa política). A obra, publicada no início deste mês, não está disponível ainda em português.

Oliver explicou ao Correio como as teorias conspiratórias se alimentam das nossas intuições para explicar o funcionamento do mundo. “Elas racionalizam as nossas ansiedades sobre o mundo complexo e incerto, a partem de estratégias de julgamentos inatas a partir das quais nós tiramos conclusões”.

O aumento no uso das mídias sociais tem algum efeito na difusão de teorias conspiratórias?
Sim. Elas fizeram com que ficasse muito mais fácil a proliferação de todos os tipos de narrativas transgressoras.

As teorias conspiratórias são um risco para a sociedade?
Só se inspirarem as pessoas a agir de modo violento. Mas acho que elas também podem tornar mais difícil a situação das democracias liberais, que dependem fortemente de confiança pública nas instituições para prosperar. As teorias conspiratórias minam essa confiança.

O esforço para combater as notícias falsas, com trabalho de checagem de informações, ajuda também a combater as teorias conspiratórias?
Não que eu saiba.

A sociedade deve se preocupar em combater as teorias conspiratórias?
É importante que nós, como cidadãos, tenhamos consciência do efeito dessas teorias dos debates públicos, e como elas impedem a discussão de fatos. A democracia requer o a capacidade de discutir e debater vários assuntos, e as teorias da conspiração atrapalham isso.

Os governo deveriam agir para conter teorias conspiratórias?
Acho que os governos não deveriam atuar como policiais da verdade. Algumas teorias conspiratórias podem até mesmo ser verdadeiras. O verdadeiro desafio é combater a desinformação, e isso é algo que é melhor ser deixado para a imprensa e para organizações cívicas.

Em que situação um país é mais vulnerável a teorias conspiratórias?
Em qualquer período de instabilidade ou de incerteza, essas teorias têm maior tendência de se espalhar e prosperar.

Sua pesquisa mostra que há correlação entre baixa educação e a crença em teorias conspiratórias. Pode-se esperar que um modo de combater essas teorias é melhorar o nível educacional das pessoas?
Educação ajuda muito, mas muitas pessoas educadas também acreditam em teorias conspiratórias e muitas pessoas que estudaram pouco as rejeitam.

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