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Correio Braziliense

Opinião: Coitada da democracia


postado em 24/09/2018 06:15

Pela primeira vez, o PSDB partiu de verdade para cima de Bolsonaro e de Haddad, apontando o caráter autoritário e a ameaça que os dois representam para a democracia: o risco de o Brasil se transformar em uma nova Venezuela. Agiu corretamente. O diagnóstico é esse. Mas a questão é o timing. Tanto Fernando Henrique quanto Alckmin se posicionaram desde o início contra o candidato do PSL, mas sempre foram condescendentes com o PT. Tudo indica que demoraram demais para alertar o país sobre o perigo que a legenda representa. 

Há quem diga que o PT esteve mais de 13 anos no poder e não deu, aqui, golpe semelhante ao de Chávez e de Maduro, na Venezuela, e ao de Ortega, na Nicarágua. Igualzinho, não. Mas foi não por falta de vontade. Diante do impeachment de Dilma, em resolução de maio de 2016, o partido lamenta não ter avançado mais na “democratização” das instituições. Sobretudo, em relação às Forças Armadas. E vale lembrar que a corrupção em alta escala, descoberta pela Operação Lava-Jato, foi o mais sofisticado esquema de desvio de dinheiro para financiar campanha e se perpetuar no poder de que se tem notícia no mundo. Só da Petrobras, a Lava-Jato estima que foram desviados mais de R$ 40 bilhões.  

Mas também apelou-se à força. Em 2013, numa tentativa de deter as manifestações contra o governo Dilma, as maiores da história do país, “setores de esquerda”  sondaram os quartéis sobre a possibilidade de a presidente decretar “estado de defesa” e pôr os militares nas ruas para impedir protestos. O arreganho autoritário só não se consumou porque não encontrou eco nas forças armadas. Em entrevista, o general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, confirmou a sondagem, mas não revelou nomes de quem a fez, e disse que os militares ficaram “alarmados” com o fato de esse tipo de medida ter sido cogitada. No fim, as manifestações minguaram à medida que aumentava a violência dos black blocs infiltrados em meio aos protestos.

Quem não se lembra de Lula ameaçando colocar o “exército” de Stédile nas ruas? Ou do PT defendendo o “controle social da mídia”, um eufemismo para censura aos meios de comunicação, e as invasões a redações pelo país? Ou dizendo que eleição sem Lula seria golpe? Ou insultando o Judiciário sempre que uma decisão desagrada ao partido? Ou defendendo os regimes da Venezuela e da Nicarágua, que usam milícias armadas para perseguir e matar quem se opõe ao governo? Assim como Chávez, Maduro e Ortega se valeram das regras democráticas para chegar ao poder e depois sabotá-las, é ingenuidade apontar o risco de o PT, que apoia esses tiranos, fazer o mesmo no Brasil? 

Pena que só agora, às vésperas de uma eleição, com o país se debatendo para sair da pior recessão da história — uma herança da petista Dilma —, FHC e Alckmin tenham alertado o país para o perigo. A advertência, contudo, pode ter chegado tarde demais. Diante da histórica omissão dos tucanos, parte expressiva do voto antipetista migrou para Bolsonaro. Em vez de uma linha-dura de esquerda, o capitão reformado do Exército defende a ditadura militar que se instaurou no país com o golpe de 1964 e durou longos 21 anos. Assim como o PT surgiu em oposição à ditadura de 64, Bolsonaro só existe por culpa do PT. São as duas faces de uma mesma moeda. Democracia nenhuma merece um retrocesso como esse.

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