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Correio Braziliense

Bolsonaro recebe alta hoje, com a missão de apagar incêndios na campanha

Líder das pesquisas de intenção de voto precisará lidar com reportagens sobre a relação com a ex-mulher, passeatas de protesto e um vice que falou demais nos últimos dias


postado em 29/09/2018 08:00

Ação em favor do deputado federal, logo após o atentado a faca, em Juiz de Fora, no início do mês: declaração de Mourão sobre o 13º salário foi a mais perigosa para a campanha até agora(foto: Nelson Almeida/AFP)
Ação em favor do deputado federal, logo após o atentado a faca, em Juiz de Fora, no início do mês: declaração de Mourão sobre o 13º salário foi a mais perigosa para a campanha até agora (foto: Nelson Almeida/AFP)

Internado há 24 dias, desde que sofreu um atentado a faca durante campanha nas ruas de Juiz de Fora (MG), Jair Bolsonaro (PSL) percebeu o mal do isolamento na própria campanha, que sofre com a descentralização de comando nas principais decisões. A oito dias do primeiro turno, o militar reformado tenta retomar a função de principal orientador do grupo. Parte das decisões foi tomada sem a presença do presidenciável e, não à toa, a semana termina como a pior deste período eleitoral. A sequência de reportagens sobre relatos da ex-mulher do capitão envolvendo “ameaças de morte” — e até furto de banco — e as declarações do general Hamilton Mourão, vice na chapa do PSL, geraram tensão a ponto de a equipe mais próxima do deputado torcer para o fim do primeiro turno, dada a estagnação nas pesquisas eleitorais e o aumento da rejeição.

Como revelou com exclusividade o Blog da Denise, do Correio, Mourão estressou o núcleo da campanha ao afirmar que o 13º salário e o adicional de férias são “jabuticabas brasileiras” e “uma mochila nas costas do empresário — declaração imediatamente aproveitada pelos adversários. 

No Twitter, o próprio Bolsonaro respondeu de imediato às declarações do vice Mourão. “O 13º salário do trabalhador está previsto no art. 7 da Constituição em capítulo das cláusulas pétreas (não passível de ser suprimido sequer por Proposta de Emenda à Constituição). Criticá-lo, além de ser uma ofensa a quem trabalha, confessa desconhecer a Constituição.” Ainda na noite de quinta-feira, Mourão foi vetado de participar de debates e passou a ter os passos monitorados. “É preciso colocar uma focinheira na boca dele, se transformou em um cara imprevisível. Mas ficou acertado que vai permanecer calado”, disse um dos assessores. Mourão já havia se pronunciado sobre pelo menos dois assuntos bombas — o risco maior de filhos criados por avós e mães entrarem para o tráfico e a possibilidade de uma Constituição sem participação popular.

“O general é aquele que vê uma casca de banana do outro lado da rua e decide atravessá-la só pelo prazer de escorregar”, disse um integrante da equipe de assessores de Bolsonaro. O general é, hoje, o maior problema do candidato do PSL, mas também não deixa de ser o reflexo de uma equipe de campanha sem hierarquização. “A descentralização é algo muito bem-vindo nas estratégias modernas de uma eleição, mas o que está ocorrendo é uma guerra de vaidades e desorganização”, definiu o assessor. A expectativa é de que, com a saída de Bolsonaro do hospital, prevista para hoje, o rumo da corrida seja retomado a uma semana da eleição.

Núcleos

Hoje, a campanha de Bolsonaro tem três núcleos. O primeiro é formado pelos filhos do capitão reformado, que estavam mais próximos dele durante o período de internação pós-atentado. O segundo agrupa os políticos propriamente, entre eles, os deputados Major Olímpio (PSL-SP) e Onix Lorenzoni (DEM-RS), além do presidente do partido, Gustavo Bebianno. O terceiro, com sede em Brasília, é chefiado pelo general Augusto Heleno. “Nunca, em momento algum, a história do 13º salário foi discutida na campanha. Não faz parte do plano de governo e das ideias de Bolsonaro”, afirmou Heleno, em entrevista exclusiva ao Correio. “O problema do nosso país é a desigualdade, e os benefícios do salário extra abrangem 99% da população. Nada justifica acabar com ele, por mais que possa ter algum custo para o uma pequena parcela do empresariado. Bolsonaro não adotará tal medida nunca.”

Outro integrante do núcleo colocado de molho na última semana foi o economista Paulo Guedes, depois de sugerir o retorno da CPMF, o imposto sobre movimentações financeiras, e a redução da alíquota de imposto de renda para 20%, o que favorecia os mais ricos. Nos bastidores, a história do fim do 13º salário é colocada como tema de uma conversa entre Guedes e Mourão antes das declarações do general no Rio Grande do Sul, na quarta-feira.

A figura do vice-presidente é uma referência para o eleitor, principalmente depois do impeachment de Dilma Rousseff e a posse de Michel Temer. A hipótese de bate-cabeça entre Bolsonaro e Mourão, mesmo que pontual, é um risco, principalmente diante do fato de que a chapa segue uma disposição diferente da hierarquia militar, em que o general manda no capitão em qualquer circunstância. Por ora, a campanha deve pagar para ver o tamanho do desgaste, apostando na rápida resposta de Bolsonaro para debelar o fogo.

Adelio agiu sozinho

A Polícia Federal concluiu, ontem, o inquérito sobre o atentado contra o deputado Jair Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência. No relatório final, o delegado Rodrigo Morais Fernandes, que conduziu as diligências, aponta que Adelio Bispo de Oliveira agiu sozinho e teve motivações políticas para cometer o ato. De acordo com Rodrigo, “não restam dúvidas” de que o criminoso confesso “agiu por inconformismo político”. Durante as investigações, foram analisadas mensagens de celular, e-mails e imagens de câmeras de segurança do comércio da região onde Bolsonaro foi ferido. Um segundo inquérito foi aberto para apurar novas imagens, dados cibernéticos e a ligação de Adelio, com eventuais participantes do crime.

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