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Correio Braziliense

Artigo: Realinhamento


postado em 30/09/2018 22:40

O termo “eleições críticas” foi cunhado pelo cientista político V. O. Key para explicar como o Partido Republicano conquistou o poder, entre 1860 e 1932 nos Estados Unidos, e depois, por que os democratas se tornaram dominantes nas eleições seguintes. Eleições críticas, dizia Key, denotam mudanças profundas no eleitorado — não detectadas a tempo de uma possível reversão pelos líderes partidários e seus estrategistas de campanha. A teoria relaciona vários fatores, que, juntos, contribuíram para o fenômeno, mas ressalta que talvez a força motora fosse mesmo o surgimento de novas gerações de eleitores. Após uma eleição crítica, viria o realinhamento partidário — detectado por alterações nas coalizões de governo, na renovação do legislativo e nas políticas públicas a serem adotadas. É certo que, num sistema bipartidário como o americano, é mais fácil prever o humor do eleitorado do que num sistema multipartidário como o brasileiro. No entanto, acredito que estamos às vésperas de uma eleição crítica no Brasil.

Primeiro, temos 13 postulantes ao cargo de presidente — o segundo maior número da história. Estas eleições só perdem em termos de possibilidade de escolha para a primeira eleição direta pós-ditadura, a de 1989. E é consenso na ciência política que, quando candidatos e partidos falham na composição de alianças, hiperfragmentando o voto, o eleitorado tende a “corrigir” essa falha por meio do voto estratégico. Estimulado pelas pesquisas de intenção de votos, que mostram Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) em primeiro e segundo lugar, respectivamente, o eleitor que tem outra preferência, mas não quer desperdiçar o voto, pode abandonar o candidato em quem votaria para então escolher o “menos pior” (isso fica evidente ao analisar as taxas de rejeição dos dois candidatos, as mais altas).

E como as estratégias de campanha dos dois polos em questão, a direita de Bolsonaro e a esquerda de Haddad, têm optado pela polarização do debate, o voto estratégico, geralmente aplicado no segundo turno, pode ser usado já em 7 de outubro. Seria não só o fim da disputa PT x PSDB na esfera nacional, como também a vitória de outra categoria de voto: o apolítico, de descontentamento com o sistema vigente. As pesquisas mostram que a polarização está surtindo efeito e chamando o eleitor a se posicionar (indecisos, brancos e nulos vêm diminuindo), e talvez o candidato do PSL apresente o perfil que se encaixa como uma luva nesses votos: deputado federal popular no estado do Rio entre seus apoiadores na área de segurança, contra o governo (seja ele qual for), sem currículo como gestor e ileso no quesito corrupção. Ou seja, apolítico por natureza, e agora também, ocasião.

Outro dado que reforça a tese de que estamos diante de uma eleição crítica é o corte geracional. Tanto a pesquisa Ibope quanto a DataFolha mostram apoio entre os muito jovens e aqueles acima de 55 anos ao militar da reserva Bolsonaro. Evidência de que um dos grupos que impulsionam eventual realinhamento partidário são aqueles que ouviram falar, muito por alto, da ditadura e seus descalabros. Por sua vez, a faixa acima de 55 anos de idade (o realinhamento ocorreria, segundo a teoria, a cada 50 anos) apoiaria Bolsonaro não exatamente porque quer que os militares voltem ao poder, mas porque se ressente da crise econômica atual e quer de volta o “milagre econômico” da época da ditadura (que acabou por aumentar o abismo entre ricos e pobres).

O que foi dito até agora são indícios de que estamos diante de uma eleição crítica, que fecharia um ciclo de padrão eleitoral. No entanto, para que o realinhamento de forças se confirme e dê início a um novo ciclo, inclusive com a execução de novo projeto de governo, é mandatório olhar para o Congresso Nacional. E a expectativa é pelo menor percentual histórico de renovação da Câmara e do Senado, juntos. No total, 470 deputados e senadores tentam a reeleição, e a concentração dos recursos públicos em candidatos com mandatos e ainda a permissão do autofinanciamento tendem a anular mudanças significativas na atual configuração do legislativo. Em outras palavras: qualquer que seja o presidente eleito, terá de compor com um legislativo ainda pulverizado, cujo perfil não reflete a maioria da sociedade, alinhado com a manutenção do status quo. Quer dizer que, a despeito de qualquer realinhamento partidário que possa ocorrer, é difícil acreditar que haverá mudanças no tradicional perfil fisiológico da política brasileira.
 
» ALINE MACHADO
Ph.D em ciência política pela Florida International University, escritora e analista de pesquisas eleitorais com o professor Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB) 

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