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Correio Braziliense

Quais riscos o Brasil corre diante dos extremos nestas eleições?

Depois da polarização que começou antes de 2014, segundo especialista, campanha chega à véspera da votação em primeiro turno marcado, principalmente, pela disputa entre dois extremos: o petista Haddad e o antipetista Bolsonaro


postado em 06/10/2018 07:00 / atualizado em 06/10/2018 09:24

(foto: Raysa Leite/AFP; Nelson Almeida/AFP)
(foto: Raysa Leite/AFP; Nelson Almeida/AFP)


Os discursos de um militar de direita identificado por posições radicais e de um professor de esquerda apoiado por um ex-presidente preso apontam para um avanço dos extremos. As últimas pesquisas dizem que, nas eleições de amanhã, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) conquistarão os lugares no primeiro pelotão rumo ao Planalto. Decisão que será tomada pelos 147 milhões de eleitores credenciados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Especialistas afirmam que movimentos em direção a qualquer um deles dificultará o processo democrático após o segundo turno. Sem diálogo e, às vésperas da definição do próximo governo, a população busca refúgio nas redes sociais. Mas poderá ganhar as ruas depois que as urnas forem abertas.

Há histórias dentro desse enredo. Desde a eleição de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994, os tucanos nunca ficaram de fora da segunda etapa das eleições. O PSDB, entretanto, acabou estagnado no centro de uma eleição marcada por extremos. Movimentos radicais desbancaram os rumos da campanha de Geraldo Alckmin, marcada pela agressividade dos ataques entre Bolsonaro e Haddad. Isso não fez com que caíssem a penetração do capitão reformado nas redes sociais ou a militância em nome do petista. Nomes que poderiam vingar pelo centro, Ciro Gomes (PDT), Alckmin e Marina Silva (Rede) não conseguiram também colar como alternativa para o eleitor (Leia mais sobre a terceira via na página 3).

Para Paulo Bahia, professor de ciência política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a radicalização entre dois polos não é nova. “Vem de 2014. Aliás, começou com as manifestações de 2013, paralelas à Operação Lava-Jato. Agora, vemos os petistas e os antipetistas; favoráveis a Bolsonaro e contrários a ele. Neutralizou-se os demais candidatos, muitos identificados como representantes da velha política. O segundo turno não caminha para o centro. Vai direto para as polaridades. Com elas, surgem os movimentos de radicalização”, explica.

Sinais


Um dos exemplos citados pelo especialista foi o atentado à faca que atingiu Jair Bolsonaro em Juiz de Fora (MG), durante uma caminhada na cidade. O acampamento montado em homenagem a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), preso em Curitiba no processo da Lava-Jato, é outro sinal da polaridade. “Embora as pontas tenham se destacado e os extremismos acabassem surgindo, o eleitor não está movido por sentimentos de extrema direita ou extrema esquerda. Está indignado e rejeita o sistema político. Tanto que os dois candidatos à frente são também recordistas nos índices de rejeição”, detalha Paulo. 
Nos últimos meses, em movimento claro de voto útil, os eleitores de Alckmin e João Amoêdo (Novo) migraram para Bolsonaro. Os de Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) pularam para o lado de Haddad, segundo Paulo Bahia. “O problema é que os petistas enxergam Bolsonaro como uma ameaça à democracia e vice-versa”.

Espólio 


O crescimento vertiginoso de Fernando Haddad claramente se deve ao espólio eleitoral de Lula. O Partido dos Trabalhadores seguiu firme em uma estratégia de deixar para as últimas semanas a decisão de abandonar o ex-presidente para ficar com o ex-ministro na cabeça de chapa. Bolsonaro subiu nas pesquisas com o mesmo discurso de defesa da família, as promessas de combate à criminalidade e as ferozes críticas antipetistas. “Isso ainda é reflexo das eleições de 2014. O candidato petista continua na sombra do ex-presidente preso e o concorrente é alguém que promete mudar tudo. A polarização vai continuar. Ela nunca diminui. Pelo contrário, segue adiante”, completa o especialista Paulo Bahia.

Integrantes do PT demonstram certa perplexidade com os índices de votos desenhados para Bolsonaro nas pesquisas. O partido considera a vitória, mesmo que com uma pequena margem, como um “esforço coletivo” da militância. Isso distancia os petistas da figura que eles consideram mitológica: o ex-presidente Lula. No PSL, a campanha puro-sangue acaba enviesada pelo discurso inflamado do vice, general Hamilton Mourão, mais criticado que o do próprio Bolsonaro.

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