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Correio Braziliense

Artigo: 'Pense bem', por Ana Dubeux

Nunca houve campanha tão ruidosa. Nunca houve tanto medo de um retrocesso no caminhar da nossa jovem democracia


postado em 28/10/2018 10:12 / atualizado em 28/10/2018 11:39

(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)
(foto: Maurenilson Freire/CB/D.A Press)

Então é hoje. Não sei se há vencedores quando perdedores não se dão por vencidos. E é isso que acontecerá. Não importa o resultado, haverá milhões esperneando, vociferando, soltando gritos de guerra, ensaiando hinos de resistência. Ando exausta de tanto barulho, mas sei que o silêncio não será colhido das urnas.

O novo presidente do Brasil será conhecido hoje em meio a um ensurdecedor conjunto de vozes dissonantes. Falará para uma nação dividida, dolorosamente derrotada em seu ímpeto de construir um futuro com tranquilidade e equilíbrio. Começa hoje um novo tempo — se possível fosse, pediria que fosse de paz, mas imagino que seja bem difícil.

Nunca houve campanha tão ruidosa. Nunca houve tanto medo de um retrocesso no caminhar da nossa jovem democracia. Nunca houve tanta intolerância, fake news, brigas, desconfiança. Nunca houve tanta dúvida, ameaça e desunião.

Famílias e amigos desfizeram laços que seriam eternos; destruíram relações que pareciam castelos fortificados. Foi triste de ver, de sentir. Mais deprimente ainda foi ver sair do armário preconceituosos enrustidos, sedentos para destilar seu ódio. Que eles voltem para o escuro de onde vieram.

Também houve beleza — é preciso dizer. Foi bonito ver a mobilização criativa e positiva; o envolvimento de tantos pelo fortalecimento de uma ideia só, a mais importante delas: a democracia. Salve o direito de se opor! Salve o direito de falar! Salve a liberdade de expressão!

E agora, José? Como sairemos disso tudo? Que remédio haverá para feridas abertas e fraturas expostas? O Brasil é maior que tudo isso, dirão. Tanto o país quanto o seu povo saberão se recompor e encontrarão antídotos contra a insanidade geral da nação. Será? Só sei que nada sei.

Saio hoje para votar ainda com o coração cheio de esperança — porque mal ela não faz e é o que nos resta. Confio na capacidade de discernimento daqueles que estavam imersos em dúvidas, mas não se anularão. Confio naqueles que serão capazes de abrir mão de suas convicções pessoais para pensar no Brasil. Confio que tomei a decisão certa e confio que você, meu leitor, tomará também. Pense bem.

 

*Ana Dubeux é diretora de Redação do Correio Braziliense 

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