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Correio Braziliense

Saiba quem é Jair Messias Bolsonaro, o 38º presidente do Brasil

O capitão reformado do exército alcançou a maioria dos votos diante do oponente Fernando Haddad (PT)


postado em 28/10/2018 20:13 / atualizado em 28/10/2018 21:01

(foto: Mauro Pimentel/AFP)
(foto: Mauro Pimentel/AFP)
  
Desde os tempos que fazia campanha para vereador, montado em uma motocicleta para ganhar tempo e economizar, ainda no distante ano de 1988, o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), tinha a ideia fixa de chegar ao Palácio do Planalto. Por mais que os aliados mais próximos duvidassem, e até mesmo menosprezassem o plano, ele nunca desistiu e guardou para si a escolha do melhor momento para se lançar de uma vez no maior de todos os desafios. A decisão foi tomada logo depois de conquistar o sétimo mandato de deputado federal pelo Rio de Janeiro, há quatro anos.

Nascido em Campinas (SP), há 63 anos, Jair Messias Bolsonaro é filho de pais de ascendência italiana. Casou-se três vezes. A primeira esposa foi Rogéria Nantes Nunes Braga, com quem teve Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro. Com Ana Cristina Valle, a segunda esposa, Bolsonaro ficou por dez anos. Com ela, teve o quarto filho, Jair Renan, hoje com 20 anos. A atual esposa é Michele de Paula Firmo Reinaldo, com quem se casou em 2007, em cerimônia celebrada por Silas Malafaia, e teve única menina entre os filhos, Laura, de sete anos.

Formado pela Academia Militar das Agulhas Negras do Exército, Bolsonaro atuou em grupos de paraquedismo e artilharia a partir de 1977. A primeira incursão pela política veio em 1986, quando publicou um artigo na revista Veja, defendendo o aumento dos salários dos militares. 

A partir daí, sempre com apoio de integrantes da tropa, foi eleito vereador e, depois, deputado federal, cargo que ocupou por 28 anos. Ao longo desse período procurou os holofotes a partir de controversas, algumas odiosas para parte dos eleitores. Numa delas tornou-se réu no Supremo Tribunal Federal, por injúria racial e incitação ao estupro. Em 2014, o presidente eleito disse a uma parlamentar do PT que ela não merecia ser estuprada porque ele a considerava "muito feia".

Bolsonaro deixa a farda em busca da política antes de uma qualificação mais refinada, por isso sempre foi visto com reservas por oficiais mais graduados, principalmente das outras duas forças, com a Marinha. "É um erro misturar militares com política, isso vai acabar se voltando contra nós mesmos, porque passaremos a ser confundidos com os próprios políticos", disse, ao Correio, um oficial de alta patente das Forças Armadas, que preferiu não se identificar. 
 
 

Família na política

 
Dos cinco filhos, três são políticos de carreira, apoiados no lastro político do pai. O primeiro a se aventurar como parlamentar foi Carlos Bolsonaro, que se elegeu vereador do Rio de Janeiro em 2000, aos 17 anos de idade, e hoje, aos 32, exerce o quarto mandato na Câmara Municipal carioca. Flávio Bolsonaro é senador eleito do Rio de Janeiro com mais de 4,3 milhões de votos e, antes disso, foi deputado estadual e se candidatou a prefeito da capital fluminense. Caçula do primeiro casamento, Eduardo Bolsonaro se reelegeu como o deputado federal mais votado da história, com mais de 1,8 milhão de votos em São Paulo. 

Nos 28 anos no Congresso, Jair Bolsonaro se caracterizou pela plataforma conservadora e estatizante nas votações da casa, em contramão à política econômica apresentada durante a campanha. Apresentou 150 projetos e aprovou apenas dois: um que estendia o benefício de isenção do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) para bens de informática e outro que autorizava o uso da chamada "pílula do câncer" — a fosfoetanolamina sintética. 

Na carreira política, o capitão reformado trocou de partido nove vezes. Esteve no Partido da Democracia Cristã (PDC); no Partido Republicano Progressista (PRP); no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); no Partido da Frente Liberal (PFL); no Partido Progressista (PP), por duas vezes; no Partido Social Cristão (PSC) e, por fim, no Partido Social Liberal (PSL). As mudanças de legenda ficaram mais evidentes nos últimos três anos, onde o capitão da reserva buscava uma base para lançar sua candidatura ao Planalto.
 
Ver galeria . 104 Fotos Nelson Almeida/AFP
(foto: Nelson Almeida/AFP )

Declarações

 
Marcado pelo discurso espontâneo, fez, por exemplo, declarações consideradas ofensivas e discriminatórias contra negros e quilombolas. Em 11 de setembro, o STF julgou Bolsonaro por acusação de racismo — inocentando-o por um placar de 3 a 2 na primeira turma. Publicamente, se opôs às ações afirmativas, como a adoção de cotas étnicas para o ensino superior.
 
Demonstrou também ser contrário às leis de proteção ao público LGBT. Como deputado, combateu sem trégua, em 2011, quando Fernando Haddad (PT) era ministro da Educação, o que chamou de "kit gay" — um material didático contra homofobia que seria distribuído pelo governo para as escolas públicas.
 
Bolsonaro sempre se insurgiu ainda contra a proteção que os direitos humanos conferem aos que estão sob custódia do Estado. Já disse ser a favor da pena de morte e contra o Estatuto do Desarmamento. Condena a descriminalização das drogas e quer que o cidadão comum possa se armar, em legítima defesa, contra ação de bandidos. Esse foi o seu principal recado aos eleitores na área de segurança.
 
Durante a campanha, seu discurso foi se tornando mais moderado. Teve inclusive que enviar carta ao STF para prestigiar a Corte depois que seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (SL), apareceu em vídeo dizendo que "bastava um cabo e soldado para fechar o STF". Jair Bolsonaro condenou a violência entre eleitores e conclamou os brasileiros à pacificação. 

Atentado


Com apenas oito segundos de propaganda eleitoral, o candidato e seus filhos, que costumam criticar a imprensa, usaram as redes sociais intensamente e terminaram acusados pelos adversários de liderarem a produção de fake news nessas eleições. Denúncia sobre o uso impulsionado de mensagens em aplicativos, supostamente pago por empresários pró-Bolsonaro, está sendo investigada pela Justiça Eleitoral. 

Pelas redes, detalharam até o estado de saúde de Bolsonaro quando esteve hospitalizado durante o primeiro turno, alvo de atentado a faca — algo que nunca aconteceu a presidenciáveis em campanha, após a redemocratização no Brasil. Ferido em 6 de setembro quando participava de ato público em Juiz de Fora (MG), Bolsonaro passou 22 dias internado, recuperando-se de uma hemorragia e de duas cirurgias no intestino. 

Ele foi atacado pelo desempregado Adélio Bispo — que hoje é réu por "atentado pessoal por inconformismo político". Nos últimos dias de campanha, Bolsonaro, que votou com colete à prova de bala e forte esquema de segurança, voltou a dizer que não acredita que Adélio agiu sozinho. 

Eleições 2018


Neste pleito, o presidente-eleito declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter um patrimônio total no valor de R$ 2,3 milhões. São cinco casas que somam pouco mais de R$ 1,5 milhão — incluindo o endereço na Praia da Barra, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde os apoiadores comemoram a vitória — , três veículos automotores, que, juntos, valem R$ 280 mil, além de aplicações bancárias, caderneta de poupança e ações na bolsa de valores.

Os militares do Exército, como mostrou o Correio, entraram de cabeça na campanha no segundo turno. A torcida dos oficiais da Força ao longo dia de ontem era de que Bolsonaro ganhasse, mas não conseguisse uma maioria esmagadora, a ponto de ganhar uma hegemonia entre a população. "Isso será bom para a democracia, não tenha dúvidas", disse um oficial.

Bolsonaro assume a Presidência em 1º de janeiro com uma bancada forte, não apenas do PSL, mas também de partidos que inevitavelmente vão aderir ao projeto do Planalto. A questão é que o número de votos do petista Haddad deve mobilizar a oposição a projetos relacionados ao meio ambiente e segurança pública, neste último caso o tão propagado fim do Estatuto do Desarmamento. O estica e puxa no Congresso e a continuidade da polarização deverá ser a tônica do novo governo. 
 
*Estagiário sob supervisão de Anderson Costolli

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